Quais são as investidas políticas de Bolsonaro no ano de estreia

Enquanto enfrenta uma crise ambiental e suspeitas de corrupção no núcleo familiar, o capitão reformado e ex-deputado impõe guerras culturais na educação e na cultura, e uma agenda econômica liberalizante

    Jair Messias Bolsonaro, de 64 anos, completa um ano de governo no dia 1° de janeiro de 2020. O capitão reformado do Exército, que foi deputado federal por quase 30 anos, chega aos 365 dias de poder adotando o mesmo tom eleitoral, com aposta numa polarização política, interna e externa, e numa guerra cultural via conservadorismo radical.

    Na economia, destaca-se uma política de austeridade associada a um plano de redução do Estado, com reformas propostas pelo ministro Paulo Guedes, espécie de avalista do governo junto ao mercado. Reformas essas que vêm sendo conduzidas, com adaptações, por Rodrigo Maia (DEM-RJ), presidente da Câmara dos Deputados.

    Enquanto tenta impor sua agenda, Bolsonaro vê suspeitas rondarem seu primeiro escalão e também sua família, com o escândalo dos laranjas do PSL, partido pelo qual o presidente foi eleito, e o escândalo das rachadinhas do amigo Fabrício Queiroz, caso que envolve diretamente o filho mais velho do presidente, o senador Flávio Bolsonaro.

    Eleito com 55% dos votos válidos no segundo turno contra o petista Fernando Haddad em outubro de 2018, Bolsonaro sustenta no final de 2019 um alto índice de rejeição, com 36% das pessoas considerando seu governo “ruim ou péssimo”, segundo o instituto de pesquisas Datafolha. Numericamente, é o pior índice em primeiro ano de mandato registrado para um presidente eleito no período pós-ditadura militar.

    A AVALIAÇÃO DE BOLSONARO

    A avaliação de Bolsonaro em 2019 . Piora dos números ao longo do ano

    Abaixo, o Nexo reúne seis dos principais eixos do governo Bolsonaro em 2019, das investidas políticas aos percalços enfrentados por um presidente que, desde já, anuncia estar disposto a disputar a reeleição na corrida pelo Palácio do Planalto marcada para 2022.

    A guerra cultural e os ataques aos ‘comunistas’

    Durante as eleições de 2018, a pauta moral e cultural dominou o discurso de Bolsonaro, inclusive com o uso de informações falsas difundidas pelo próprio político.

    As falas radicais de Bolsonaro puseram o então candidato em atrito com imprensa, com ambientalistas, com entidades de defesa dos direitos humanos, entre outros atores da sociedade civil. Pouco se sabia, até a virada para 2019, se o capitão reformado iria manter tal radicalidade se fosse de fato eleito. Uma vez no poder, a composição dos ministérios, porém, mostrou que o tom seria mantido.

    Para além de peças-chave como Paulo Guedes, nomeado para o Ministério da Economia, e o ex-juiz da Lava Jato Sergio Moro, nomeado para o Ministério da Justiça, o presidente apontou nomes que viriam reproduzir seu discurso no primeiro-escalão do governo.

    Entre militares e olavistas – pessoas alinhadas ao escritor Olavo de Carvalho, apontado como uma espécie de guru do bolsonarismo –, seus ministros protagonizaram crises ao longo de 2019. A ideia central de Bolsonaro, externada por ele em várias oportunidades e também por seus auxiliares, é de que ele “governa para a maioria”, não para a minoria.

    No centro das ações sempre esteve o que ficou conhecido como guerra cultural. Fenômeno surgido nos Estados Unidos nos anos 80, a guerra cultural é travada a partir de um discurso que usa jargões como “doutrinação ideológica”, “ideologia de gênero”, “globalismo” e “marxismo cultural” para denunciar, a partir de valores morais, um suposto controle da esquerda nas artes, na educação, entre outras áreas.

    Estrategista político que atuou com Donald Trump nas eleições americanas de 2016, Steve Bannon reforçou essa agenda conservadora no entorno de Bolsonaro, a partir de reuniões com um dos filhos do capitão reformado, Eduardo Bolsonaro, que é deputado federal. Junto dos irmãos Flávio, senador, e Carlos, vereador do Rio, ele forma o núcleo político-familiar que exerce influência sobre o Palácio do Planalto.

    Alguns ministros de Bolsonaro reproduzem o discurso da guerra cultural. E também adotam medidas, a partir de seus cargos, que tentam impor uma mudança nas políticas públicas, usando esse pensamento. Veja abaixo quem são esses ministros.

    Damares ‘terrivelmente cristã’

    Para o ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Bolsonaro apontou Damares Alves – uma das duas únicas mulheres dentre os 22 ministérios.

    Autodeclarada “terrivelmente cristã”, Damares se firmou como uma das personagens mais polêmicas do governo. Além do discurso, a atuação da ministra é marcada por cortes de verbas, esvaziamentos de órgãos públicos e restrição de políticas em favor de minorias sociais.

    O escanteamento das pautas de direitos humanos, aliás, foi uma tendência no primeiro ano de governo Bolsonaro. O presidente chegou a ser alvo de representações da sociedade civil em órgãos internacionais como as Nações Unidas.

    Araújo e seu novo Itamaraty

    No ministério de Relações Exteriores, o nome escolhido foi o de Ernesto Araújo, diplomata indicado por Olavo de Carvalho. Ele assumiu o Itamaraty com a missão de combater ideias de esquerda, aproximar o Brasil dos EUA de Donald Trump e firmar a posição antiglobalista. O globalismo, na visão da extrema direita, é uma suposta ação planejada pelas elites internacionais para conduzir a globalização via valores liberais.

    A relação entre Bolsonaro e Trump começou de fato com promessas de parceria: Bolsonaro seguiu Trump na aproximação com Israel, e fez uma série de concessões, sem que houvesse contrapartidas. Trump priorizou os interesses dos EUA.

    Bolsonaro chegou a tentar emplacar o filho Eduardo na embaixada brasileira em Washington, mas encontrou resistência no Congresso brasileiro e não teve sucesso.

    No primeiro discurso na Assembleia Geral da ONU, em Nova York, o presidente brasileiro manteve a mesma agressividade eleitoral. Araújo, por sua vez, passou a impor os valores do novo governo nos fóruns de diplomacia nas Nações Unidas e em outras instâncias multilateriais.

    Weintraub contra as universidades

    O ministério da Educação foi o mais instável dos ministérios do governo Bolsonaro. O primeiro titular escolhido pelo presidente foi Ricardo Vélez Rodríguez, colombiano naturalizado brasileiro indicado por Olavo de Carvalho. Defensor da Escola Sem Partido e da ditadura militar, ele enfrentou uma guerra entre olavistas e militares. Caiu depois de três meses.

    Para seu lugar, Bolsonaro convocou o economista Abraham Weintraub, também olavista. À frente do ministério, Weintraub promoveu cortes em verbas de universidades federais, desencadeando os maiores protestos contra o governo em 2019.

    Além disso, o ministro avançou em cortes de bolsas. O orçamento da educação acabou desbloqueado, mas o discurso que liga as universidades públicas à disseminação de ideias de esquerda e à produção e consumo de drogas permaneceu.

    A paralisia do ministério, os holofotes nas redes sociais e a lentidão para colocar em prática o modelo de escola cívico-militar defendido por Bolsonaro fizeram crescer no final do ano as especulações sobre uma eventual demissão de Weintraub.

    As crises e a política ambiental

    Como um todo, a área ambiental foi uma das mais sensíveis para o governo Bolsonaro no primeiro ano de mandato. Em 2019, o Ministério do Meio Ambiente deixou de priorizar agendas caras à pasta.

    Bolsonaro e o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, fizeram uma série de mudanças administrativas na área ambiental – esvaziaram atribuições, suspenderam contratos com ONGs (Organizações Não Governamentais), reprimiram conselhos, flexibilizaram a aplicação de multas ambientais e exoneraram servidores do Ibama e ICMBio, entre outros.

    O Planalto também abriu uma crise com o Inpe (Instituto de Pesquisas Espaciais) por causa da divulgação de dados parciais do desmatamento na Amazônia. As estatísticas indicavam que as taxas haviam aumentado desde maio em relação ao ano anterior. O presidente questionou os dados e, contestado, causou um mal-estar que levou à exoneração do então diretor do instituto, Ricardo Galvão.

    O governo ainda protagonizou atritos com autoridades da Noruega e da Alemanha por conta do Fundo Amazônia, iniciativa do Brasil para captar investimentos estrangeiros e nacionais para conservar a Amazônia. As discordâncias entre o governo brasileiro e Noruega e Alemanha – responsáveis conjuntas por cerca de 99% dos recursos – sobre a gestão do fundo levaram os dois países europeus a suspenderem os repasses ao governo brasileiro. O Fundo Amazônia segue existindo, mas está paralisado desde agosto.

    No fim, números consolidados entre agosto de 2018, ainda no governo Michel Temer, e julho de 2019, já no governo Bolsonaro, mostraram de fato um aumento do desmate da Amazônia, que atingiu seu maior nível desde 2008. A área derrubada em 2019 foi quase 30% maior em relação ao período anterior, entre julho de 2017 e agosto de 2018.

    EM ALTA

    Desmatamento da Amazônia Legal, por ano. Queda até 2012, mas aumento até chegar em 2019 ao valor mais alto em uma década

    O governo ainda enfrentaria em agosto e setembro a crise dos incêndios na Amazônia, cujas fumaças atingiram grandes cidades pelo país. Diante da grande repercussão nacional e internacional, o governo brasileiro tratou a reação como exagerada, buscando amenizar o real impacto do fogo.

    A situação gerou atritos internacionais, em especial com a França. Após trocas de acusações entre o presidente brasileiro e Emmanuel Macron, presidente da França, os atritos culminaram com uma ofensa de Bolsonaro a Brigitte Macron, primeira-dama francesa.

    Hostilidade e indisposição que apareceram também na atuação do governo brasileiro na 25ª edição da COP (Conferência das Partes) da ONU. Capitaneada por Ricardo Salles, a comitiva brasileira em Madri pediu verbas – sem sucesso – para combate à degradação brasileira, travou negociações multilaterais e ignorou os episódios recentes de crise ambiental no Brasil.

    O país teve ainda de enfrentar os vazamentos de óleo na costa do Nordeste. Como um todo, o Planalto sofreu críticas por sua reação ao caso: ora por hostilidade, ora por omissão. O próprio Ministério Público acusou o presidente de omissão e ineficácia na gestão da crise.

    A sombra do autoritarismo no Planalto

    O primeiro ano do governo Bolsonaro foi marcado por um constante ataque do presidente aos opositores, a atores da sociedade civil e à imprensa. Seu entorno fez ameaças autoritárias - repudiadas por outros Poderes -, como as recorrentes referências a um novo AI-5. O discurso a favor da ditadura militar permaneceu, assim como os elogios a torturadores do período.

    As referências ao Ato Institucional n°5, que reforçou perseguições políticas, torturas, assassinatos e censura durante a ditadura, partiram, primeiro, do filho Eduardo Bolsonaro, deputado federal. Eduardo disse em uma entrevista no final de outubro, ao comentar sobre os protestos que ocorriam no Chile, que o governo poderia recorrer a um artifício semelhante ao AI-5 se as ações da esquerda se “radicalizassem” no Brasil. A declaração teve repercussão negativa tanto dentro como fora do país.

    “Se a esquerda radicalizar a esse ponto, a gente vai precisar ter uma resposta. E uma resposta pode ser via um novo AI-5, pode ser via uma legislação aprovada através de um plebiscito, como ocorreu na Itália. Alguma resposta vai ter que ser dada”

    Eduardo Bolsonaro

    Deputado federal (PSL-SP) e filho do presidente Jair Bolsonaro, em entrevista no final de outubro

    Nos meses seguintes, o tema foi retomado pelos ministros Augusto Heleno, do Gabinete de Segurança Institucional, e Paulo Guedes, da Economia. Heleno não descartou estudar a implantação de uma medida semelhante ao AI-5; já Guedes reforçou o discurso de Eduardo. Depois, o vice Hamilton Mourão fez coro, minimizando a gravidade do AI-5 e amenizando as falas de Eduardo e Guedes.

    Os ataques às ONGs

    Ainda na campanha presidencial de 2018, Bolsonaro já falava em combater todos os tipos de “ativismo”. E no primeiro ano de presidência do ex-capitão, foram tomadas medidas e investidas para enfraquecer certos setores de organização da sociedade civil.

    As ONGs têm sido um dos principais alvos do governo nos primeiros meses de mandato. Ao longo dos momentos críticos das crises ambientais, Bolsonaro e seus ministros recorreram a ataques a organizações desse tipo. No ápice das queimadas na Amazônia, Bolsonaro culpou ONGs pelos incêndios e disse que elas o retaliavam por ele ter cortado o dinheiro das entidades. Durante a crise do óleo vazado na costa do Nordeste, a estratégia foi semelhante.

    Em novembro de 2019, a Polícia Civil do Pará, submetida ao governo estadual, prendeu quatro membros da Brigada de Incêndio de Alter do Chão, sob a suspeita de que os voluntários de combate ao fogo poderiam ter promovido, eles mesmos, as queimadas na região. À época, o presidente Jair Bolsonaro disse que o assunto confirmava suas suspeitas contra ONGs. Os quatro presos acabaram liberados pela Justiça três dias após serem detidos.

    A sombra da censura

    O primeiro ano de Bolsonaro no poder viu um aumento de queixas de censura na área cultural. O cerceamento à liberdade de expressão apareceu em diferentes áreas, como cinema, teatro, audiovisual, literatura e artes visuais. A reclamação central esteve na limitação de recursos públicos para obras não-alinhadas ao pensamento do governo.

    Bolsonaro nega praticar censura, mas defendeu em vários momentos que seu governo leve em consideração o conteúdo das obras artísticas para definir quais projetos devem receber recursos públicos, barrando, por exemplo, repasses a obras com temática LGBTI. O presidente e seus apoiadores dizem que a cultura, no Brasil, é dominada por “esquerdistas”. E veem o que chamam de “marxismo cultural” na produção artística nacional.

    Bolsonaro extinguiu o Ministério da Cultura ao assumir a Presidência, em janeiro de 2019. A área desde então tem um status de secretaria, tendo passado em novembro do Ministério da Cidadania para o Ministério do Turismo.

    Alguns dos principais casos em 2019 onde houve ameaça ou suspeita de censura foram:

    • Ao assinar um decreto que transferia e alterava a composição do Conselho Superior de Cinema, Bolsonaro falou que “vai ter um filtro sim” na cultura, em especial na Ancine (Agência Nacional do Cinema).
    • Esquema de censura prévia de obras na Caixa Cultural, braço de atuação em cultura da Caixa Econômica Federal. O arranjo foi revelado pela Folha de S.Paulo
    • Suspensão da circulação de um comercial do Banco do Brasil a mando do presidente Jair Bolsonaro. A campanha buscava contemplar a diversidade racial e sexual.

    A agenda econômica liberal

    Como deputado, Bolsonaro sempre manteve uma agenda corporativista, de defesa de interesses de policiais e militares. Para a campanha presidencial de 2018, converteu-se ao liberalismo econômico. Seu avalista foi Paulo Guedes, ao lado de quem ganhou apoio dos setores do mercado.

    A relação permitiu que o candidato assumisse publicamente – de forma ao mesmo tempo sincera e conveniente – o seu desconhecimento de tópicos de economia. Guedes passou a ser o “Posto Ipiranga” de Bolsonaro: aquele a quem era possível recorrer para resolver praticamente tudo.

    Já na presidência, Bolsonaro deu aval para Paulo Guedes tocar a agenda econômica com quase total autonomia. O eixo definido para orientar a condução da economia foi o de redução do Estado, diminuição de gastos e ajuste das contas do governo, buscando atacar a questão do deficit fiscal brasileiro. Com Guedes, as privatizações e redução da dívida pública também seriam prioridades.

    “As propostas do [ministro Paulo] Guedes são muito boas e a orientação também. Infelizmente, ele tem tido uma grande dificuldade, porque o governo tem dois lados: tem um lado sombrio e tem um outro que é iluminado”

    Delfim Netto

    ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento, em entrevista ao Estado de S. Paulo, publicada em 25 de novembro de 2019

    A reforma da Previdência

    O primeiro e principal foco de Paulo Guedes e Bolsonaro em 2019 foi a reforma da Previdência. O presidente lançou mão do recurso das emendas parlamentares para conquistar o apoio necessário para aprovar o projeto na Câmara dos Deputados em julho e agosto.

    O caminho da reforma da Previdência no Congresso levou, ao todo, sete meses. Durante esse período, o valor total da economia prevista aos cofres do governo em dez anos caiu de R$ 1,237 trilhão para R$ 800 milhões, por modificações feitas pelos parlamentares. A alteração no sistema brasileiro de benefícios e aposentadorias foi aprovada pelo Senado em 22 de outubro e promulgada em meados de novembro.

    “No fundo, não gostaria de fazer a reforma da Previdência. Mas eu estaria sendo irresponsável com o Brasil nos próximos anos”

    Jair Bolsonaro

    Presidente do Brasil, em transmissão nas redes sociais em março de 2019

    Assim como em boa parte das pautas lançadas pelo Planalto, a reforma da Previdência contou com importante papel de articulação do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ). Maia deu as cartas na tramitação da reforma e modelagem do texto, ganhando a disputa que resultou na retirada da proposta de adoção de um regime de capitalização, defendida por Paulo Guedes.

    As privatizações e a reforma de Estado

    Enquanto a reforma da Previdência tramitava, Guedes e Bolsonaro também procuraram outras frentes de atuação. Em agosto, o governo anunciou a inclusão de nove empresas estatais no PPI (Programa de Parcerias de Investimentos). Entraram no pacote empresas como Correios e Telebras. A BR Distribuidora, subsidiária da Petrobras, já havia sido privatizada no fim de julho.

    No início de novembro, já com a reforma da Previdência aprovada, Guedes e Bolsonaro apresentaram ao legislativo uma proposta de reforma do estado. Em termos gerais, o pacote de três PECs (Propostas de Emenda à Constituição) estabelece como principais frentes de atuação a redução de despesas, a desvinculação de gastos públicos e maior autonomia aos estados e municípios. A reforma deve compor a agenda do Congresso em 2020.

    Os resultados econômicos

    No primeiro ano sob Bolsonaro, a economia brasileira apresentou lenta recuperação. Ao mesmo tempo em que os juros estavam baixos e a inflação estava controlada, a bolsa bateu recordes de pontuação e a cotação do dólar atingiu o maior patamar nominal de todos os tempos em novembro. Já a taxa de desemprego no trimestre composto pelos meses de agosto a outubro de 2019 ficou em 11,6%, mesmo nível em que estava no último trimestre de 2018.

    RETOMADA LENTA

    Crescimento trimestral do PIB brasileiro. Positivo, mas ainda abaixo de 1%

    A figura de Moro e o controle institucional

    Poucos dias após a vitória de Bolsonaro nas eleições de 2018, Sergio Moro, então juiz da Operação Lava Jato, aceitou convite para ser ministro da Justiça e Segurança Pública do novo governo. Após passar anos negando ter pretensões políticas, Moro entrou para o governo, sendo já projetado em Brasília como um possível e provável candidato no pleito presidencial de 2022.

    O ex-juiz nunca falou abertamente em intenções de ser presidente da República, mas sua popularidade entre os membros do governo Bolsonaro é a mais alta registrada pelas pesquisas – maior até do que o próprio presidente.

    Moro apostou em um pacote anticrime linha dura que acabou desidratado pelo Congresso. Uma de suas metas principais é reduzir a violência, cuja tendência já é de queda no Brasil desde o final de 2017. Nesta área, tem de lidar ainda com a promessa de Bolsonaro de armar a população – já há três decretos presidenciais flexibilizando o porte e a posse de armamentos, além de um projeto de lei em análise no Congresso.

    Mesmo tendo perdido um pouco de apoio popular depois das primeiras revelações da Vaza Jato, sequência de reportagens do The Intercept Brasil que colocaram em xeque sua imparcialidade como juiz da Lava Jato, Moro se manteve como uma das figuras mais sólidas e prestigiadas do entorno de Bolsonaro.

    A relação entre o ministro e o presidente ao longo de 2019 não ficou livre de turbulências. Isso porque o Moro sofreu seguidas derrotas internas em disputas com o ex-capitão e outras partes do governo, em especial em momentos de interferência de Bolsonaro sobre a pasta da Justiça.

    A troca na Polícia Federal

    Em agosto, Bolsonaro antecipou a saída do superintendente da Polícia Federal no Rio de Janeiro, Ricardo Saadi, alegando problemas de “gestão” e “produtividade”. A decisão abriu uma disputa com o diretor-geral da Polícia Federal, Maurício Valeixo, para escolher o sucessor. O atrito só foi encerrado no final de novembro, quando o candidato de Valeixo, Carlos Henrique Oliveira, foi apontado como novo superintendente da polícia no Rio de Janeiro.

    A Receita sob pressão

    Ao longo de 2019 a Receita Federal foi alvo de pressões políticas que dizem respeito a suas atividades de fiscalização. Esse quadro se acirrou em agosto, quando o presidente Jair Bolsonaro falou que era necessário “trocar gente”, porque o órgão estava “aparelhado”. Anteriormente, Bolsonaro já havia dito que tinha sido vítima de uma “devassa” na sua vida financeira por ação da Receita Federal. Em 11 de setembro, o secretário da Receita, Marcos Cintra, foi demitido por pressão de Bolsonaro contra um imposto aos moldes da antiga CPMF (Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira).

    O transferência do Coaf

    O Coaf também sofreu pressão de Bolsonaro em 2019, em meio às investigações contra Flávio, filho primogênito do presidente. Em maio, Bolsonaro tentou mudar o Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) do ministério da Economia para a guarda de Sergio Moro, na Justiça, mas a mudança foi barrada pelo Congresso. Somente em dezembro é que o órgão foi transferido – não para a pasta da Justiça, mas sim para o Banco Central.

    A portaria 666

    Em julho, o Ministério da Justiça e da Segurança Pública, comandado por Sergio Moro, publicou a portaria 666, que determina a deportação sumária de estrangeiros “perigosos” em até 48 horas. No dia seguinte à publicação, Bolsonaro disse em um discurso no Rio de Janeiro que o jornalista Glenn Greenwald poderia ser preso e cumprir pena no Brasil, por suspostas invasões que resultaram no vazamento de diálogos entre o ex-juiz Moro e procuradores da Operação Lava Jato.

    Os atritos de Moro com o presidente da OAB

    Em uma entrevista à Folha de S.Paulo em julho, o presidente nacional da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), Felipe Santa Cruz, disse que Sergio Moro “banca o chefe de quadrilha” ao tentar interferir no caso dos suspeitos de hackeamento de celulares de autoridades. Em dezembro, o Ministério Público Federal apresentou denúncia contra Santa Cruz por calúnia, e pediu o afastamento da presidência da OAB.

    As suspeitas de corrupção no entorno

    O ex-capitão foi eleito à presidência da República proferindo um discurso fortemente anti-corrupção. Mas ao longo de 2019, os arredores de Bolsonaro não estiveram livre de suspeitas de corrupção. Em especial, dois casos circundaram o presidente: os laranjas do PSL e as “rachadinhas” no gabinete de Flávio Bolsonaro.

    O caso dos laranjas do PSL

    O PSL foi o partido pelo qual Bolsonaro foi eleito presidente em 2018. Desde fevereiro de 2019, o PSL de Minas Gerais está envolto em suspeitas um esquema de candidaturas laranjas que receberam quantias significativas de dinheiro público mas obtiveram pouquíssimos votos na disputa de outubro de 2018.

    O principal suspeito do esquema é o atual ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio, que presidiu o diretório estadual do partido durante a campanha. A suspeita é de que Álvaro Antônio, que disputou e obteve uma vaga de deputado federal, tenha ficado com o dinheiro público do fundo eleitoral que deveria ir para outras candidaturas. Investigado pela Polícia Federal e pelo Ministério Público de Minas Gerais, ele nega qualquer irregularidade e segue no cargo.

    Em fevereiro, desdobramentos do escândalo dos laranjas levaram à demissão de Gustavo Bebianno, então secretário-geral da Presidência, por Bolsonaro. Bebianno era presidente nacional do PSL à época da eleição. Em novembro de 2019, o presidente Jair Bolsonaro se desfiliou do PSL. Desde então, ele tenta fundar um novo partido chamado Aliança pelo Brasil, que ainda tenta colher assinaturas para oficializar sua existência.

    As investigações contra Flávio Bolsonaro

    Desde janeiro de 2018, Flávio Bolsonaro, primogênito do presidente, e Fabrício Queiroz, seu ex-assessor, são investigados pelo Ministério Público do Rio de Janeiro por suspeitas de um esquema de “rachadinha” na Assembleia Legislativa do Rio. A rachadinha ocorre quando assessores transferem parte de seus salários para os políticos ou secretários que os empregaram.

    As investigações vieram a público em dezembro de 2018, e chegaram até a primeira-dama Michelle Bolsonaro, que teria recebido um cheque de R$ 24 mil destinado de Queiroz. Desdobramentos da investigação ao longo de 2019 ampliaram as suspeitas de que Flávio teria desviado salários de funcionários, lavado dinheiro e se envolvido com membros de milícias do Rio de Janeiro.

    As defesas tanto de Flávio quanto de Queiroz negam envolvimento em esquema criminoso. Em 20 de dezembro, ao ser questionado por um repórter do jornal O Globo sobre as suspeitas em torno do filho, o presidente Jair Bolsonaro respondeu em tom agressivo.

    “Você tem uma cara de homossexual terrível, nem por isso eu te acuso de ser homossexual”

    Jair Bolsonaro

    presidente da República, a um repórter do jornal O Globo, em 20 de dezembro de 2019

    Em nota, a Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo) repudiou a fala do presidente, tratando o tom de Bolsonaro como “assédio moral” contra jornalistas.

    ESTAVA ERRADO: A primeira versão deste texto afirmava, incorretamente, que o período que registrou recorde de desmatamento na Amazônia abrange de julho de 2018 a agosto de 2019. Na verdade, os dados são de agosto de 2018 a julho de 2019. O texto foi corrigido às 18h29 de 26 de dezembro de 2019.

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