4 trabalhos para conhecer a obra de Francisco Brennand

Pintor e ceramista pernambucano morreu aos 92 anos em decorrência de uma infecção respiratória

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    O artista plástico Francisco Brennand morreu na manhã de quinta-feira (19), aos 92 anos. Ele estava internado havia 10 dias no Real Hospital Português, no Recife, e não resistiu a complicações decorrentes de uma infecção respiratória. A prefeitura do Recife, cidade natal de Brennand, e o estado de Pernambuco decretaram luto oficial de três dias.

    Brennand iniciou sua carreira na década de 1940 como pintor e escultor, mas a cerâmica se tornou seu principal meio de expressão. As esculturas desse material são a parte mais robusta e conhecida de sua produção.

    “Depois de meio século de trabalho de cerâmica no Brasil, à margem da indústria do objeto de uso caseiro, é de Francisco Brennand a primeira produção efetivamente artística que se pode observar. Do oleiro, da louça de uso, chegamos à cerâmica de arte”, escreveu em 1960 o crítico de arte Geraldo Ferraz para o jornal O Estado de S. Paulo.

    Gilberto Freyre também fez considerações sobre a obra do conterrâneo. “Quase sem boêmia, porém não sem a livre imaginação poética que distingue a arte dos boêmios da dos artistas racionalmente metódicos nos seus trabalhos, repito que é, a meu ver, a arte de Francisco Brennand. A arte de um artista de todo consciente da sua arte. Severamente estudioso dela. Artesão. Mas, ao mesmo tempo, dado a arrojos romanticamente experimentais. Arrojos, esses, sempre à base do que nele é saber ou conhecimento dos clássicos e dos mestres, é certo. Porém arrojos e românticos”, escreveu em 1961 para o Jornal do Commercio.

    Além das esculturas, muitas das quais podem ser vistas pela capital pernambucana, Brennand também criou painéis e murais em cidades do Brasil e dos Estados Unidos, objetos cerâmicos, pinturas, desenhos e tapeçarias.

    “Me considero antes de tudo um pintor. Só faço cerâmica porque sei pintar. E, quando faço um mural de cerâmica, não sou um ceramista, sou um pintor pintando sobre cerâmica”

    Francisco Brennand

    em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo em 2013

    Mais de 2.000 peças produzidas por Brennand se encontram atualmente na Oficina Cerâmica Francisco Brennand, híbrido de ateliê e museu que se tornou um dos principais pontos turísticos do Recife. O local, uma antiga olaria fundada pelo pai de Brennand nas primeiras décadas do século, foi restaurado e transformado pelo artista a partir de 1971.

    “Uma vez disse três palavras para me definir. Feudal. Supersticioso. Pornográfico. E continuo. Feudal no sentido de que eu não posso me compreender sem estar ligado a uma terra e a um local”

    Francisco Brennand

    em entrevista à Folha de S.Paulo

    Parque das Esculturas Francisco Brennand (2000)

    Idealizado pelo artista, o monumento público localizado em frente ao Marco Zero, no Recife, faz parte do projeto “Eu vi o mundo… Ele começava no Recife”, em comemoração aos 500 anos da chegada dos portugueses ao Brasil. Com as esculturas, que incluem um grande obelisco chamado de Torre de Cristal, o artista pretendia representar “a forma vegetal em sua imponente verticalidade”. “Os conquistadores saíram das grandes cidades, feitas em linha reta, e descobriram as grandes florestas, cheias de curvas. A mata atlântica era vigorosa e chegava até a beira da praia. Foi isso o que os portugueses encontraram. Para o olho dos que estavam vindo de fora, tudo era diferente e passou a ser mítico, essa era a minha intenção”, disse ao jornal Diário de Pernambuco em 2016.

    Mural ‘Batalha dos Guararapes’ (1961-1962)

    Um dos maiores e mais importantes de sua carreira, o mural foi feito para o Banco da Lavoura de Minas Gerais, no Recife. Seu tema é o episódio histórico que marcou a expulsão definitiva dos holandeses do Brasil, ocorrido em 1654.

    Embora trate de um evento passado, o painel faz alusão aos sentimentos nacionalistas da época em que foi produzido e inclui entre seus personagens figuras contemporâneas, como as de Jânio Quadros (que acabara de renunciar) e do artista e amigo Ariano Suassuna.

    Mural na sede da Bacardi (1962-1963)

    Foto: Wikimedia Commons
    Prédio da Bacardi, em Miami
    Prédio da Bacardi, em Miami, com painel de Brennand na lateral
    Com 656 m² de área e 28.234 azulejos feitos a mão, a obra com tema floral em tons de azul sobre fundo branco cobre as laterais do edifício que abrigou a nova sede da indústria de bebidas Bacardi Export, em Miami, nos Estados Unidos. Trata-se do maior mural feito pelo artista, e é considerado, junto com o edifício, patrimônio histórico da cidade americana.

    Série ‘Chapeuzinho vermelho’ (1995)

    Foto: Reprodução
    Pintura da série Chapeuzinho Vermelho de Brennand
    Pintura da série Chapeuzinho Vermelho de Brennand

    A figura feminina é central para a obra de Brennand. Em uma das séries que compõem seu trabalho pictórico, o artista pinta em 40 telas a história de Chapeuzinho Vermelho, explorando-a como uma alegoria da relação de forças entre o feminino e o masculino. A maioria das telas retrata um jogo de sedução entre uma mulher ou menina e a figura de um lobo ou de um homem com a máscara do animal. Ao final da série, Chapeuzinho acaba vencendo o Lobo, que jaz abatido na última pintura.

    O crítico Weydson Barros Leal aponta haver um “avassalador desconhecimento” do público a respeito das pinturas e desenhos de Brennand, mais famoso por seus trabalhos em cerâmica. Em um documentário que leva seu nome, lançado em 2012, Brennand revela seu pesadelo: ter sua obra de pintor esquecida, ignorada, em um obituário de jornal.

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