Estes são 3 exemplos de como Comprova faz verificações

O ‘Nexo’ integra coalizão de 24 veículos jornalísticos que em 2019 buscou combater a desinformação sobre políticas públicas

As redes sociais são um importante meio de comunicação tanto para os cidadãos quanto para os governos ao divulgar e esclarecer políticas públicas. Mas nelas também se proliferam posts, imagens e vídeos fabricados, manipulados ou retirados de contexto para favorecer ou prejudicar visões políticas. É um ambiente em que conteúdos podem ser disseminados rapidamente, sem preocupações com fonte e veracidade.

Para combater a desinformação na política surgiu o Comprova, do qual o Nexo faz parte. A iniciativa, que conclui a segunda etapa nesta sexta-feira (13), é resultado de uma coalizão entre 24 veículos de comunicação para identificar e apurar informações enganosas ou deliberadamente falsas disseminadas sobre políticas públicas em âmbito federal.

De julho a dezembro de 2019, jornalistas de diferentes redações acompanharam as redes sociais e verificaram juntos boatos sobre assuntos de destaque no noticiário nacional, como a reforma da Previdência, as queimadas na Amazônia, o derramamento de óleo no Nordeste e os bloqueios de verbas nas universidades federais.

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verificações de potenciais boatos sobre políticas públicas do governo federal foram publicadas pelo Comprova de julho a dezembro de 2019

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foi o alcance da página do Comprova no Facebook até 22 de novembro

A segunda etapa do Comprova foi coordenada pela Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo) a partir de um convite do First Draft, organização internacional que estuda e combate a desinformação em ambientes virtuais. A iniciativa teve apoio do Google News Initiative, do Facebook Journalism Project e do WhatsApp.

Às vésperas de finalizar o projeto, o Comprova está publicando relatos de algumas de suas verificações para mostrar como e por que investigou conteúdos duvidosos sobre políticas públicas do governo federal.Abaixo, o Nexo seleciona três dessas verificações, explicadas. Confira:

Avião não apagava incêndio na Amazônia brasileira, mas sim na Bolívia

Após circularem as primeiras notícias sobre a crise de queimadas na Amazônia, no segundo semestre de 2019, uma série de perfis no Twitter e no Facebook divulgaram, em setembro, um vídeo em que se via um avião jogando água sobre uma floresta. As publicações diziam que as imagens mostravam um jato israelense apagando fogo na Amazônia.

O Comprova verificou que o conteúdo era falso. Israel não havia enviado aeronaves ao Brasil para combater incêndios na floresta, e o vídeo viral havia sido feito na cidade de Concepción, na Bolívia, país que naquele mês também passava por uma crise de queimadas.

Como verificamos

A participação de Israel

Um dos primeiros passos do Comprova foi entrar em contato com o Ministério da Defesa, para entender se aviões israelenses estavam apagando incêndios no Brasil. A pasta respondeu, por email, que a ajuda da Israel durante a crise de queimadas havia sido feita por meio de envio de bombeiros militares — e que, na verdade, o Chile teria enviado duas aeronaves civis para combater chamas no Pará. Os aviões chilenos, no entanto, não correspondiam ao modelo do vídeo.

O modelo do avião

O Comprova usou um site chamado Invid, comumente usado por verificadores, para encontrar outras postagens que houvessem divulgado o vídeo dos incêndios apagados na Amazônia. A gravação foi localizada em um site holandês, e ali havia uma referência de que o avião filmado na floresta era um 747 Supertanker. Ao buscar por menções ao avião no Google, foram encontradas notícias segundo as quais o Supertanker estava sendo usado no combate ao fogo na Amazônia boliviana. Para confirmar a informação, o Comprova contatou Dan Reese, presidente da empresa americana dona do Supertanker, que confirmou que o vídeo viral mostrava um de seus aviões.

A origem do vídeo

A fim de encontrar o autor da gravação, que não havia sido identificado nas buscas anteriores, o Comprova contatou jornalistas sul-americanos, pedindo sugestões ou dicas para dar seguimento à verificação. Um deles enviou o registro mais antigo do vídeo, na internet, publicado por uma página no Instagram chamada “boliviaalalucha”. Após contatar a página, o Comprova conversou com duas pessoas que tinham informações sobre a gravação, e uma delas forneceu o contato de María René Céspedes Bazán, que afirmou ser a autora do vídeo. Para comprovar que a filmagem era dela, ela mostrou os metadados (registro que câmeras fazem dos dados do vídeo) da gravação que havia feito.

Cruzamento de dados

As informações fornecidas por María René Céspedes Bazán indicavam que a gravação havia sido feita no dia 5 de dezembro de 2019, às 11h09 no horário da cidade de Concepción, na Bolívia. Para confirmar que ela contava a verdade, o Comprova cruzou esses dados com informações sobre os voos da empresa Global Supertanker. Um site chamado FlightAware (site de rastreio de voos) mostrou então que, naquele dia, o Boeing 747 da Global SuperTranker havia decolado do Aeroporto Internacional Viru Viru, em Santa Cruz de la Sierra, Bolívia, às 10h40, e retornado para o mesmo local às 11h37.

A verificação explicada neste texto foi feita por: Nexo e Folha de S.Paulo, e validada por outros veículos. Veja aqui a verificação e a íntegra do texto do Comprova que explica como ela foi feita.

Imagem de obra em uma estrada foi usada para elogiar Bolsonaro, mas se tratava do governo Lula

A pavimentação da BR-163 do Pará, rota de escoamento da produção agrícola do Centro-Oeste, foi tema de uma postagem no Facebook, em julho, que comparava duas fotos da estrada para dizer que as obras no governo de Jair Bolsonaro estavam a todo vapor, em contraste com a suposta situação nos governos petistas de Lula e Dilma Rousseff.

O Comprova verificou que o conteúdo era enganoso, pois a postagem viral havia utilizado imagens verdadeiras da BR-163, mas as tinha retirado de seu contexto correto, alterando seu significado. A imagem de estradas em más condições atribuída ao período de Lula e Dilma havia sido feita, na verdade, em 2017, durante o governo de Michel Temer. A fotografia com a estrada em obras atribuídas ao governo Bolsonaro, por outro lado, havia sido tirada em 2008, quando Lula era presidente do país.

Como verificamos

A busca reversa

A partir das imagens compartilhadas nos posts que viralizaram — a primeira, de um atoleiro, e a segunda, e obras na BR-163 — o Comprova fez buscas na internet para verificar se elas haviam sido publicadas em outro lugar antes do site em que o boato havia sido publicado, em um processo chamado de busca reversa. A pesquisa no Google Imagens mostrou que as duas fotos eram de outros sites.

A primeira imagem

A primeira imagem, de um atoleiro, já havia sido publicada em 2017 pelo site paranaense Folha de Progresso, em uma notícia sobre o aumento do tempo de viagem na BR-163 por más condições na estrada. Por telefone, o editor do site informou o autor da foto, o jornalista Juliano Simionato. Ele comprovou a autoria da foto e afirmou que havia feito a imagem em fevereiro daquele ano, em viagem na estrada. Isso significa que ela correspondia a uma situação da BR-163 durante o governo de Michel Temer (2016-2017), não nos de Lula e Dilma Rousseff.

A segunda imagem

A segunda imagem, que mostrava obras na BR-163, foi encontrada em uma notícia do site do STM (Superior Tribunal Militar) de 2017. Isso já seria suficiente para comprovar que as obras não eram do governo Bolsonaro, de 2019, mas o objetivo da verificação era chegar à origem do conteúdo. Sem informações do STM, o Comprova acessou a página do Exército no Flickr, site de armazenamento de imagens, e encontrou a mesma foto que com a data de 2008. Os dados EXIF (espécie de “carimbo” de uma fotografia), disponíveis no site, comprovaram que a imagem havia sido feita naquele ano, no governo Lula (2003-2010).

A verificação explicada neste texto foi feita por: UOL e revista piauí, e validada por outros veículos. Veja aqui a verificação e a íntegra do texto do Comprova que explica como ela foi feita.

Presidente da União Nacional dos Estudantes não estava na universidade desde os 11 anos

Após a notícia de que Iago Montalvão, presidente recém-eleito da UNE (União Nacional dos Estudantes), havia interrompido o ministro da Educação, Abraham Weintraub, durante um discurso sobre o programa Future-se, uma publicação nas redes sociais dizia que ele tinha 33 anos e estudava ciências sociais desde 2004, ou seja, havia 15 anos.

O Comprova verificou que o conteúdo era falso. Montalvão, na verdade, tinha 26 anos e era estudante de ciências econômicas desde 2018 na USP (Universidade de São Paulo). Antes disso, ele havia estudado história em três diferentes instituições de ensino superior — a primeira matrícula é de 2011. Em 2004, ano em que o boato dizia que Montalvão havia entrado na faculdade, o presidente da UNE tinha 11 anos.

Como verificamos

A graduação de Montalvão

O Comprova tentou verificar o histórico acadêmico de Iago Montalvão por meio de buscas no Google e na plataforma de currículos Lattes, que faz parte do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico). Após obter as informações, contatou as universidades onde havia informações de aprovação do estudante em seus processos seletivos. A conclusão foi de que o presidente da UNE nunca estudou ciências sociais. Ele ingressou em história em 2011, na UFG, mais tarde, pediu transferência para a UnB e, em 2017, seguiu para a PUC-SP. Em 2018, foi aprovado em economia na USP, onde está hoje.

A idade de Montalvão

O Comprova tentou então verificar a idade do presidente da UNE. Primeiro, fez uma busca por perfis de Iago Montalvão publicados no site da União Nacional dos Estudantes e em jornais à época da eleição para a presidência da entidade. Ali havia a informação de que, em 2019, o estudante tinha 26 anos. Após a primeira busca, o Comprova pediu a Montalvão que enviasse uma imagem de um documento de identidade. Ele enviou a cópia de sua Carteira Nacional de Habilitação, que indicou que ele havia nascido em 14 de maio de 1993, tendo de fato 26 anos.

A verificação explicada neste texto foi feita por: GaúchaZH, TV Band, UOL e Correio, e validada por outros veículos. Veja aqui a verificação e a íntegra do texto do Comprova que explica como ela foi feita.

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