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Boris Johnson e a derrota histórica dos trabalhistas no Reino Unido

Premiê teve sucesso na estratégia de antecipar eleições para obter maioria no Parlamento e fazer o Brexit à sua maneira. Oposição amargou a maior derrota em 74 anos

    O Partido Conservador, do primeiro-ministro Boris Johnson, venceu as eleições gerais do Reino Unido, realizadas nesta quinta-feira (12).

    Originalmente, o pleito estava marcado para acontecer somente em 2022, mas Johnson, que assumiu o cargo em julho, convocou as votações antecipadamente, com a intenção de garantir a maioria dentro do Parlamento. A iniciativa deu resultado: os conservadores conseguiram 368 dos 650 assentos.

    “Precisamos de um novo Parlamento, para que possamos concluir o Brexit”, disse o premiê em suas redes, referindo-se à conclusão do processo de desligamento britânico da União Europeia, apelidado de Brexit (junção das palavras “British” e “exit”, ou “britânica” e “saída”, em português).

    A decisão de abandonar o bloco foi tomada por maioria apertada – 52% dos eleitores disseram “sim”, em 2016. Mas a aprovação não foi unânime em todos os países do Reino Unido. Enquanto a Inglaterra e o País de Gales apoiaram a retirada, a Escócia e a Irlanda do Norte se opuseram. Na soma dos votos, entretanto, prevaleceu a vontade de sair.

    Hoje, 54% dos britânicos consideram que, uma vez tomada a decisão de separar-se da União Europeia, essa decisão precisa ser cumprida. Porém, se o plebiscito fosse repetido, apenas 44% dizem que votariam “sim” à retirada britânica do bloco.

    O prazo acordado com o bloco europeu para o Brexit é 31 de janeiro, depois de prorrogações e de um impasse parlamentar que já leva três anos e derrubou dois primeiros-ministros. Com a ampla vitória conquistada nas eleições, Johnson espera finalmente conseguir concretizar a saída do Reino Unido da União Europeia.

    Como funciona a eleição

    O Reino Unido é uma monarquia parlamentarista. A rainha Elizabeth 2ª é a chefe de Estado e o primeiro-ministro Boris Johnson é o atual chefe de governo. O Parlamento, por sua vez, é formado por uma Câmara Baixa (equivalente à Câmara dos Deputados no Brasil) e uma Câmara Alta ou Câmara dos Lordes (equivalente ao Senado).

    A Câmara Baixa – chamada genericamente de Parlamento – tem 650 assentos. Cada assento corresponde a um dos 650 distritos que compõem o Reino Unido, e cada parlamentar é escolhido pelos eleitores de seu respectivo distrito.

    O primeiro-ministro pertence ao partido mais votado ou à coligação de partidos mais votados. Ele assume para um mandato sem prazo de validade definido. Esse mandato pode ser interrompido a qualquer momento, em circunstâncias excepcionais. O caso mais comum de interrupção do mandato dá-se quando o premiê perde o apoio da maioria dos parlamentares.

    Derrota histórica para o Partido Trabalhista

    Dos 650 assentos do Parlamento, o Partido Trabalhista, principal opositor dos conservadores, conseguiu apenas 203. É o pior resultado para o partido desde as eleições gerais de 1935, quando obteve 154 assentos.

    A derrota fez com que Jeremy Corbyn, líder do partido, renunciasse ao cargo. Eleições internas para encontrar um substituto para Corbyn acontecerão no primeiro trimestre de 2020.

    Representante da ala mais à esquerda dos trabalhistas, Corbyn apostou numa campanha que engajasse eleitores nas redes sociais, com vídeos virais ao som de hip hop. Em novembro, ele apresentou um manifesto de refundação do partido, propondo a estatização de indústrias como petróleo e energia e um novo plebiscito sobre o Brexit.

    O resultado da eleição foi influenciado pela vitória conservadora em regiões estratégicas do Reino Unido, especialmente aquelas que, tradicionalmente, eram trabalhistas. É o caso das Midlands, região berço da Revolução Industrial e que por muito tempo foi um grande pólo dos trabalhistas. A mudança de posicionamento se deu pelo Brexit, que passou a ser visto como uma saída para as crises econômicas do país.

    Com representantes que vão da esquerda ao centro (como o ex-primeiro-ministro Tony Blair), o Partido Trabalhista foi fundado em 1900.O primeiro governo liderado pelos trabalhistas começou em 1924, e se estendeu até 1931, com Ramsay MacDonald ocupando o cargo de primeiro-ministro.

    Durante a Segunda Guerra Mundial, o Partido Conservador liderou o Reino Unido, por meio da figura de Winston Churchill. Passado o conflito global, os trabalhistas assumiram o poder novamente, em 1945, com Clement Attlee.

    O Partido Trabalhista sofreu outra grande derrota, quando, em 1979, perdeu as eleições gerais. Naquele ano, Margaret Thatcher se tornou a primeira-ministra, instituindo uma série de políticas neoliberais no país para conter os efeitos dos choques do petróleo da década de 1970, que causaram um cenário de alta inflação e baixo crescimento econômico.

    Após a vitória de Thatcher, os trabalhistas só retornaram ao poder em 1997, com a vitória de Tony Blair. O governo de Blair teve como marcos principais a criação de um salário mínimo nacional, em 1998, e o apoio aos EUA na Guerra do Iraque a partir de 2003. O premiê se manteve no cargo até 2007, sendo substituído por Gordon Brown, cuja atuação como primeiro-ministro se estendeu até 2010.

    Desde 2010, o Partido Conservador governa o Reino Unido. Antes de Boris Johnson, foram premiês David Cameron (2010-2016) e Theresa May (2016-2019).

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