Quais os efeitos da queda da taxa básica de juros nos investimentos

Comitê de Política Monetária do Banco Central reduziu a Selic pela quarta vez consecutiva, ao patamar mais baixo desde 1999. O ‘Nexo’ conversou com um economista para entender como isso influencia o mercado de ações

    O Copom (Comitê de Política Monetária) anunciou na quarta-feira (11) a redução da taxa básica de juros em 0,5 ponto percentual. O novo patamar, de 4,5% ao ano, dá sequência à tendência recente de queda na taxa Selic. É o índice nominal mais baixo desde o início do regime de metas da inflação em 1999.

    A deliberação do Copom representou a quarta queda consecutiva dos juros da economia brasileira. O comitê comunicou que a decisão da reunião de dezembro teve como base o cenário brasileiro de recuperação gradual da economia e a inflação abaixo da meta do Banco Central. A ideia é, por meio do corte de juros, incentivar o crédito, os investimentos e o consumo, aquecendo a economia.

    3,27%

    foi a inflação acumulada entre dezembro de 2018 e novembro de 2019. O centro da meta do Banco Central para a inflação no período era de 4,25%

    1,2%

    foi quanto cresceu o PIB na comparação entre o terceiro trimestre de 2019 e o terceiro trimestre de 2018

    Os juros no Brasil começaram a cair no final de 2016, já sob a presidência de Michel Temer, que assumiu o cargo após o impeachment de Dilma Rousseff. Entre 2018 e 2019, a Selic passou mais de um ano inalterada, ficando 16 meses no patamar de 6,5% ao ano, até voltar a ser cortada no fim de julho. Ao todo, a Selic caiu quase 10 pontos percentuais em três anos.

    TAXA BÁSICA

    Evolução das metas para a taxa Selic. Queda desde o final de 2016, com um período inalterado entre 2018 e 2019

    A Selic e as decisões de investimento

    Como taxa básica da economia brasileira, a Selic tem um papel importante para que os investidores aloquem seus recursos. Na prática, ela é a taxa de juros aplicada sobre empréstimos de um dia entre bancos. Essas operações têm baixíssimo risco e, por isso, dão o tom para os investimentos e empréstimos de risco maior.

    Assim, a Selic é usada como base para a definição dos juros em outros pontos da economia, sejam os juros de rendimentos de títulos do governo ou de empréstimos bancários. Quanto mais arriscado o empréstimo ou investimento, maior deverá ser o retorno exigido para realizar a operação – ou seja, os juros.

    Abaixo, o Nexo explica como a taxa de juros influencia os diferentes investimentos.

    Renda fixa

    Investir em renda fixa significa que o poupador já sabe, no momento em que aplica, como vai ser o rendimento do dinheiro ao longo do tempo. Isso não quer dizer, no entanto, que é possível calcular com antecedência exatamente quanto o investidor vai receber.

    Isso porque boa parte dos investimentos são os chamados pós-fixados. Ou seja, quando se aplica o dinheiro, combina-se que os juros serão pagos com base em um índice pré-determinado, mas de valor futuro ainda desconhecido. Os dois principais exemplos de índices usados no Brasil são a inflação e a Selic.

    Quanto mais baixa a Selic, menos vão render os investimentos indexados a ela. Por ser a taxa básica de juros que serve de referência para o restante da economia, se a Selic cai, a tendência é que isso reduza os rendimentos de renda fixa e diminua a atratividade desses investimentos.

    A caderneta de poupança é um exemplo de aplicação com rendimento atrelado à Selic, que pode ter perdas com a queda na taxa básica. Outros exemplos são aplicações como o Tesouro Direto, o CDB (Certificado de Depósito Bancário), a LCI (Letra de Crédito Imobiliário) e a LCA (Letra de Crédito Agrário).

    Renda variável

    Investir em renda variável é comprar um ativo esperando sua valorização, que pode acontecer ou não. Aplicações na bolsa são um tipo de investimento em renda variável. Há ações que pagam dividendos aos acionistas, mas quem compra esses papéis geralmente está apostando no aumento dos preços das ações.

    Esse tipo de investimento é mais arriscado e pode proporcionar ganhos muito maiores que a renda fixa, mas também perdas. Por não estarem atrelados a nenhuma taxa específica – nem mesmo a Selic – e flutuarem livremente, esses rendimentos são chamados de variáveis.

    Além das ações, os investimentos mais comuns de renda variável são em moedas estrangeiras. Os investidores vão à bolsa ou ao mercado de câmbio, compram ações (ou, por exemplo, dólares) e esperam os ativos se valorizarem para vender com ganhos.

    O custo de capital

    A Selic também influencia as decisões de investimentos ao servir de referência aos empréstimos que são feitos para as empresas. Se os juros estão mais baixos, a captação de recursos fica mais barata para as empresas.

    A queda da Selic, portanto, torna o custo de capital menor para quem procura investir. Isso pode levar ao aumento dos investimentos, sejam eles financeiros ou produtivos.

    Os investimentos financeiros são aqueles que envolvem ativos financeiros, como títulos de renda fixa ou ações na bolsa de valores. Já os investimentos produtivos são aqueles que resultam em produção de bens ou prestação de serviços. Quando pegam dinheiro emprestado, as empresas no geral optam por colocar esses recursos em ativos financeiros ou em investimentos produtivos.

    A alta da bolsa de valores

    No fim de 2019, a bolsa de valores de São Paulo – principal ponto de investimentos em renda variável no Brasil – estabeleceu novos recordes de alta. A trajetória da bolsa é medida pelo Índice Ibovespa, que reúne as principais ações da bolsa, em um pacote de ações pensado para representar o mercado brasileiro.

    ALTA DESDE 2016

    Evolução do Ibovespa, em pontos. Alta praticamente contínua desde 2016

    O Ibovespa cresceu a um ritmo praticamente constante desde o início de 2016. Em dezembro de 2019, a pontuação do índice passou dos 110 mil pontos pela primeira vez na história. O bom andamento da bolsa ocorre em um momento em que a economia brasileira se recupera a um ritmo lento de crescimento.

    O Nexo conversou com Joelson Sampaio, coordenador do curso de economia da FGV-SP (Fundação Getúlio Vargas de São Paulo), sobre a relação entre a queda dos juros e a alta da bolsa.

    De que maneira a queda recente na Selic se relaciona com a alta histórica da bolsa?

    Joelson Sampaio Existe uma relação forte entre a queda da Selic e o aumento dos investimentos na bolsa, porque a bolsa é um típico investimento de renda variável. A Selic acaba sendo uma taxa referencial de um mercado de renda fixa. E quando vemos uma taxa de juros baixa, como está hoje a Selic, no nível de 4,5% [ao ano], diminui-se bastante a atratividade para esse tipo de investimento e acaba-se empurrando muitos investidores para outros tipos de investimento. Um deles é a bolsa.

    Por que a bolsa tem sido mais atraente do que investimentos produtivos?

    Joelson Sampaio A bolsa tem uma atratividade alta em relação a outros tipos de investimento – até mesmo os produtivos – por algumas características. Uma delas é a liquidez: você consegue comprar ações e depois as vende e já se capitaliza. Isso tudo acaba ajudando a colocar o dinheiro em um investimento que, se você precisar, você retira.

    Se, por outro lado, você abre um negócio ou investe em um projeto que vai demandar tempo de planejamento ou para cuidar de outras frentes, além de empatar o seu dinheiro por mais tempo, isso acaba diminuindo sua liquidez. Ou seja, na bolsa, você consegue fazer algo similar [ter um retorno] colocando recursos em empresas que vão fazer esse investimento produtivo. Só que você pode vender as suas ações na hora em que quiser. E aí você se capitaliza novamente.

    Qual a expectativa para a bolsa agora que a Selic caiu mais uma vez? A trajetória de alta é sustentável?

    Joelson Sampaio A trajetória e a expectativa para a bolsa é positiva com a queda da Selic e, também, respaldada um pouquinho pela melhora da economia. O que esperamos é que a bolsa tenha um 2020 muito bom por conta destes dois fatores: queda da taxa Selic e melhora da economia. Provavelmente, no ano que vem, teremos bons resultados para a bolsa de valores, ou seja, para os investimentos em ações.

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