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Por que Jack Dorsey quer descentralizar o Twitter

Cofundador da empresa disse que vai financiar o projeto ‘Blue sky’, que pretende criar um protocolo para redes sociais similar ao usado por emails

    Jack Dorsey, cofundador do Twitter, anunciou na quarta-feira (11) que a empresa vai financiar um projeto para descentralizar a rede social.

    A ideia do empresário é criar um protocolo aberto que possa ser usado para diferentes redes sociais. No futuro, o Twitter seria uma das plataformas que fazem parte desse ambiente. Um exemplo seria o sistema de emails: não há uma única empresa que administre todos os emails, mas vários serviços diferentes oferecidos aos usuários.

    O projeto ganhou o nome de “Blue sky” (céu azul), e seus detalhes técnicos ainda estão nebulosos — Dorsey não deu uma previsão de lançamento nem se aprofundou em dizer quais tecnologias seriam aplicadas em seu desenvolvimento.

    O que se sabe sobre o projeto

    O projeto será desenvolvido por uma pequena equipe independente, de no máximo cinco pessoas, financiada pelo Twitter, segundo Dorsey. Entre os profissionais envolvidos estarão engenheiros, designers e arquitetos da informação especializados em softwares de código aberto.

    Na ciência da computação, protocolos são um conjunto de regras que possibilitam a comunicação, a transferência de dados e a conexão entre dois ou mais dispositivos diferentes. O email usa um protocolo chamado SMTP, e diferentes empresas criam serviços que trabalham a partir desse conjunto de regras — como o Gmail, do Google, e o Outlook, da Microsoft.

    A ideia de Dorsey é criar um protocolo como esse só que para redes sociais, que poderia ser adaptado por serviços diferentes, criados por terceiros. O Twitter seria um deles.

    Em seu perfil no Twitter, o executivo deu algumas justificativas para a mudança de mentalidade dentro da empresa. “Serviços centralizados estão enfrentando novos e difíceis desafios. Por exemplo, uma política única e centralizada para conter o assédio online e a proliferação de desinformação tem dificuldades para ser ampliada no longo prazo sem colocar um fardo grande em pessoas”, afirmou.

    A divulgação de notícias falsas, conteúdo impróprio e ataques online se tornaram problemas para o Twitter — e para outras redes sociais — nos anos recentes. Embora muitas redes usem o trabalho de moderadores (no geral, terceirizados com salários e benefícios muito distantes do que ganham os funcionários das empresas), dado o volume de usuários nas plataformas, medidas para conter esses fenômenos precisam ser automatizadas.

    A automação, por sua vez, traz outros problemas, já que as inteligências artificiais que aplicam essas políticas podem remover publicações que não são inapropriadas por engano ou deixar passar conteúdo que de fato é abusivo ou falso. A discussão sobre a responsabilidade de empresas de redes sociais atuarem para evitar a circulação de notícias falsas é antiga e ganhou força durante campanhas eleitorais recentes em vários países.

    Dorsey também destacou que os modelos atuais de redes sociais como o Twitter dependem de algoritmos de recomendação de conteúdo e do incentivo a conversas que causam controvérsia e sentimentos inflamados — essa receita é responsável por gerar engajamento, compartilhamentos (mesmo que de indignação) e discussões acaloradas.

    Esses fatores são essenciais para que o usuário passe mais tempo na rede social, o que permite que mais dados sejam coletados e consequentemente mais anúncios direcionados apareçam para o usuário. A venda de publicidade é a principal fonte de receita das redes hoje.

    Segundo Dorsey, o projeto “Blue sky” vai fazer com que surjam serviços que favoreçam a “conversa e a discussão saudável na internet”, em vez de se sustentarem em técnicas para prender a atenção de seus usuários.

    O executivo afirmou que o único papel do Twitter no projeto será o financiamento e que o time terá liberdade para desenvolver o “Blue sky” como acreditar ser melhor.

    Sem se aprofundar em detalhes, Dorsey dá a entender que o novo protocolo vai usar tecnologias de blockchain, já adotadas por criptomoedas no mundo todo.

    O blockchain (ou “cadeia de blocos”) é geralmente apresentado como um grande banco de dados descentralizado e seguro. É possível imaginá-lo também como uma grande planilha compartilhada ou ainda um enorme livro de registros aberto, acessível de diferentes computadores (chamados de “nós”).

    Ele funciona registrando dados (ou transações), dando a eles uma identificação própria e agrupando-os em blocos, que por sua vez são interligados e formam uma cadeia. Esses dados ou transações devem ser aprovados por cada “nó” associado ao blockchain. Assim, qualquer alteração em um desses registros afeta toda a cadeia e é, por isso, facilmente percebida por qualquer pessoa (ou “nó”) que monitore esse sistema, garantindo maior segurança.

    As reações ao projeto

    Casey Newton, colunista do site especializado The Verge, afirmou que o projeto é um retorno do Twitter às suas origens.

    Nos primórdios da rede social, era possível desenvolver serviços terceirizados para acessar a plataforma e realizar tarefas dentro dela. Isso mudou por volta de 2012, quando esse tipo de desenvolvimento foi proibido e a rede se tornou uma plataforma centralizada e comandada unicamente pela empresa Twitter.

    Newton conversou com funcionários de dentro da companhia que se sentiram otimistas com a iniciativa, mas que acreditam que o “Blue sky” vai levar anos para de fato ver a luz do dia.

    Klint Finley, jornalista especializado da revista Wired, viu a iniciativa com bons olhos, mas apontou que o Twitter seguirá centralizado caso a maior parte dos usuários permaneça usando somente a plataforma original.

    Alex Stamos, ex-chefe de segurança do Facebook que deixou a empresa criticando os rumos que a rede social tomou nos últimos anos, respondeu a Dorsey no Twitter dizendo que o foco inicial do projeto deve ser estabelecer formas de criar serviços terceirizados que auxiliem o usuário na hora de evitar ataques digitais e outras formas de assédio virtual.

    Segundo Stamos, o modelo ideal seria a abertura para a criação de sistemas externos que, atrelados ao perfil do usuário, ajudem a mitigar os riscos de mensagens abusivas ganharem algum tipo de proteção na plataforma.

    Ele vai além e diz que acredita que boa parte dos problemas do Twitter seriam resolvidos se não houvesse a possibilidade de excluir tuítes e se houvesse 100% de transparência em todas as interações dos usuários.

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