Ir direto ao conteúdo

Como o Bumba meu boi se tornou patrimônio da Unesco

Unindo-se à capoeira, frevo e mais três expressões brasileiras, celebração maranhense de mais de 300 anos ganhou das Nações Unidas título de patrimônio cultural imaterial

O Bumba meu boi, festa tradicional do estado do Maranhão, foi eleito patrimônio cultural imaterial da humanidade pela Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura). A celebração já era considerada Patrimônio Cultural do Brasil desde 2011.

A festa é celebrada durante as festas juninas e reúne performances dramáticas, musicais e coreográficas, além de elementos materiais como artesanato, bordados, e confecção de instrumentos e indumentárias típicas.

A Unesco justificou a escolha afirmando que “o Bumba meu boi maranhense constitui um complexo cultural que compreende uma variedade de estilos, multiplicidade de grupos e, principalmente, porque estabelece uma relação intrínseca entre a fé, a festa e a arte, fundamentada na devoção aos santos juninos, nas crenças em divindades de cultos de matriz africana e na cosmogonia e lendas da região”.

Só o Bumba meu boi do Maranhão entrou na lista da Unesco. A festa também é comemorada, durante as festas juninas, no Amapá, Amazonas, Pará, Rondônia e Roraima, com o nome de Boi-bumbá. Em alguns estados, o ciclo acontece no período natalino. Cada região pode dar características um pouco diferentes à celebração, mas todas elas dizem respeito a uma expressão de origem semelhante.

Nos estados do Sul do país, por exemplo, ao invés de percussão, prevalecem instrumentos como sanfona, harmônica ou gaita de fole. Já em alguns estados do Nordeste, a última etapa da celebração é modificada, e partes do boneco do boi são distribuídos entre os presentes.

O que é o Bumba meu boi

A origem do Bumba meu boi é incerta. O culto à imagem do boi é forte em diversas partes do mundo. No Brasil, alguns estudos relacionam a festa ao ciclo do gado, nos séculos 17 e 18. Já no Maranhão, a tradição remonta às fazendas de engenhos, onde era praticada por pessoas escravizadas.

De acordo com Marla Silveira, pesquisadora e professora do Instituto de Educação, Ciência e Tecnologia do Maranhão, “para não dar pretexto a perseguições e repressão de que sempre foi vítima, o [Bumba meu] boi, embora uma manifestação religiosa, foi denominado de ‘brincadeira’”.

A festa faz um relato dramatizado com elementos de comédia, drama, sátira e tragédia das relações sociais entre patrão e subalternos. Celebra a devoção a santos católicos, em especial São João, São Pedro e São Marçal, mas congrega também influências indígenas e africanas. Como parte da expressão, orixás, voduns e encantados requisitam o boi como obrigação espiritual.

Na lenda, Mãe Catirina está grávida e conta ao marido, Pai Francisco, que está morrendo de desejo de comer a língua de um boi vistoso. Francisco, um trabalhador da fazenda, então atende aos pedidos da esposa e mata o boi. O fazendeiro pede então que um pajé ressuscite o boi, perdoando o empregado, e celebrando a saúde do animal com uma grande festa.

As etapas do Bumba meu boi

Como tradição das cidades, o Bumba meu boi segue anualmente calendário e ritos constantemente transformados em um processo de assimilação e sincretismo. A seguir, o Nexo explica as quatro etapas do Bumba meu boi.

Ensaios

Como o nome sugere, os ensaios antecedem a celebração, servindo para que os tocadores entrem em harmonia e as novas toadas possam ser decoradas por quem participa. Eles costumam começar no Sábado de Aleluia, sábado anterior ao da semana da Páscoa, e atrai turistas às sedes dos organizadores, quintais de casas e ruas de bairros.

Batismo do boi

No dia de São João, um boi — representado por um boneco —, até então considerado pagão, recebe as bênçãos do santo, que se estende a toda a comunidade em forma de permissão e proteção pela temporada que se inicia.

O ritual pode acontecer nas sedes, igrejas católicas, casas de culto afro-brasileiro e se estenderam a cada vez mais localidades conforme o decorrer dos anos. Ele é realizado por rezadeiras, que cantam ladainhas em latim, ao redor de velas, flores, galhos de erva e imagens de santos, acompanhadas pelo povo em coro.

Por fim, o boi recebe um nome, que pode mudar todo ano, cunhado em referência aos santos padroeiros e ao universo místico-religioso de cada região. O ritual vem ganhando tamanha proporção, que diversos padres fazem questão de também abençoar os vários bois de seus estados.

Apresentações

Feito o batismo, o boi sai de seu terreiro e se apresenta nas ruas, praças, arraiais e casas de famílias, em uma dinâmica participativa com quem assiste. Uma das formas mais comuns de apresentação são os chamados “circos”, espécie de curral com uma porteira montada nas ruas, no qual o boi circula.

Os arraiais oficiais ocorrem até a madrugada e são bem intensos durante o ciclo junino e ofertados como pagamento de promessas a santos. Em vários lugares, são financiadas pelos órgãos estatais. Alguns grupos acabam sendo contratados para se apresentar fora de época em diversos lugares do Brasil e do mundo.

Morte

O ritual da morte do boi marca o fim do ciclo festivo, podendo ocorrer do final de julho até novembro. É o momento mais simbólico de todo o festejo e quando a população agradece aos santos protetores pelo sucesso da temporada.

A etapa, que pode durar até uma semana, começa quando o boi, pressentindo seu fim, foge e se esconde em uma casa da comunidade. O grupo percorre as casas enquanto canta toadas exclusivas para este momento, que são repetidas todos os anos.

Quando é finalmente capturado, o boi é envolto em galhos, ramos de mato e flores silvestres, e dança em volta de um dos ícones mais importantes de todo o ritual: um tronco de árvore enfeitado com papel de seda, lembranças e alimentos, chamado mourão. Quanto mais colorido e recheado de presentes estiver o mourão, maior será o prestígio de quem o ofertou ao boi.

O boi é então laçado, amarrado na árvore e sacrificado. O sangue dele, representado por vinho tinto, é derramado numa bacia e distribuído aos presentes como símbolo de comunhão. Ao fim, o grupo acende velas e faz orações ao pé da árvore, que é arrancada no dia seguinte.

Como a Unesco elege um patrimônio cultural imaterial

São classificados patrimônios culturais imateriais pela Unesco:

  • Expressões e tradicionais orais, incluindo línguas;
  • Artes performáticas;
  • Práticas sociais, rituais e eventos festivos;
  • Conhecimentos e práticas a respeito da natureza e universo;
  • Artesanato tradicional.

Frente à globalização, a Unesco considera os patrimônios culturais imateriais frágeis se comparados com os patrimônios culturais da humanidade — que são áreas físicas tombadas —, já que muitas expressões são transmitidas de geração para geração dentro de minorias étnicas.

Um comitê com membros proporcionais ao número de estados signatários da Unesco se reúne anualmente desde 2003 para avaliar e eleger expressões indicadas.

Aprovadas, elas podem ser alocadas em três categorias: a lista representativa comporta a maior parte dos patrimônios; a lista que requer medidas urgentes de salvaguarda reúne patrimônios em risco de extinção; e a lista de boas práticas de salvaguarda inclui projetos e atividades que promovam a preservação de patrimônios.

458

é o número de expressões na lista representativa de patrimônio cultural imaterial da humanidade pela Unesco

124

é o número de países com expressões na lista representativa da Unesco

A China, com 40 patrimônios nas três categorias, é o país com mais expressões listadas pela Unesco. Já o Brasil, agora com o Bumba meu boi, tem seis patrimônios na lista representativa, um na lista de urgência (Ritual Yaokwa do povo indígena Enawene Nawe) e outros dois projetos na lista de boas práticas (Programa nacional de patrimônio imaterial e Museu vivo do Fandango).

Outros patrimônios culturais imateriais brasileiros

ARTE KUSIWA

Foi a primeira expressão brasileira a integrar a lista de patrimônios culturais imateriais da humanidade, em 2003. A arte Kusiwa é um sistema de representação gráfica dos povos indígenas Wajãpi, do Amapá. São pinturas corporais e artes gráficas produzidas por mais de mil índios de 48 aldeias a fim de representar a organização social, o uso da terra e o conhecimento tradicional.

SAMBA DE RODA

Presente em toda a Bahia, mas principalmente no Recôncavo Baiano, o samba de roda é uma expressão musical, coreográfica e poética que mescla tradições negro-africanas e portuguesas, como o uso da viola e do pandeiro. Influenciou diversas outras expressões de samba pelo Brasil como o samba carioca.

FREVO

Surgido no final do século 19 no carnaval de Recife, o frevo é também uma forma musical, coreográfica e poética caracterizado pelo jogo de braços, pernas e dança frenética. Em sua composição, assimilou expressões de bandas militares, escravos libertos, capoeiristas e da classe operária urbana.

CÍRIO DE NOSSA SENHORA DE NAZARÉ

Instituído em 1793, no segundo domingo de outubro, a procissão de cinco quilômetros reúne mais de dois milhões de pessoas anualmente no Belém do Pará. A lenda em torno da manifestação envolve o achado da imagem de Nossa Senhora de Nazaré por um caboclo em 1700.

RODA DE CAPOEIRA

Remontando ao período de escravidão, a capoeira mistura dança e luta, desenvolvendo-se como rito social e de solidariedade entre os escravos. Praticado em mais de 160 países, a expressão reúne canto, instrumentos, dança, golpes, jogo, brincadeira, símbolos e rituais africanos transmitidos por gerações nas rodas de capoeira.

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa Equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project. Saiba mais.

Mais recentes

Você ainda tem 2 conteúdos grátis neste mês.

Informação com clareza, equilíbrio e qualidade.
Apoie o jornalismo independente. Junte-se ao Nexo!