Por que Greta Thunberg foi eleita a Pessoa do Ano da Time

Ativista sueca de 16 anos ganhou destaque no ano de 2019 por advogar por atitudes concretas para conter as mudanças climáticas

    Um dia depois do presidente Jair Bolsonaro chamar Greta Thunberg de “pirralha”, a revista Time anunciou a jovem ativista como a Pessoa do Ano em 2019.

    Alvo constante de ataques, Greta ganhou projeção internacional durante o ano por se mobilizar em prol do meio ambiente, demandando mudanças por parte de governos e empresas para conter os efeitos da mudança climática.

    Edward Felsenthal, editor-chefe da Time, justificou a escolha de Greta afirmando que a jovem se tornou “a maior voz no maior problema global, e o rosto de uma mudança geracional que ecoa desde as universidades em Hong Kong até os corredores do Congresso americano”.

    O que é o título

    O título de Pessoa do Ano da Time começou a ser dado em 1927, originalmente com a alcunha de “Homem do Ano”.

    Os eleitos são escolhidos pelos editores da Time, e sempre são pessoas que “para o bem ou para o mal, mais influenciaram os eventos do ano”. Figuras como Martin Luther King Jr., o Papa João Paulo 2º, Adolf Hitler e Josef Stalin já receberam o título.

    Todos os presidentes americanos, com exceção de Calvin Coolidge (1923-1929), Herbert Hoover (1929-1933) e Gerald Ford (1974-1977), foram eleitos a Pessoa do Ano da Time.

    Além de indivíduos específicos, grupos de pessoas já foram eleitos pela revista, como os cientistas americanos, em 1960, e “os pacifistas”, em 1993, representados por Nelson Mandela, Frederick W. de Klerk, Yitzhak Rabin e Yasser Arafat. A tecnologia do computador pessoal recebeu o título de “Máquina do Ano”, em 1982.

    Quem é Greta Thunberg

    Greta Tintin Eleonora Ernman Thunberg nasceu em Estocolmo, na Suécia, em 2003.

    Em entrevistas, ela conta que teve seu primeiro contato com o tema das mudanças climáticas em 2011, quando tinha 8 anos de idade. O ativismo de Greta começou dentro de casa: a garota fez os pais se tornarem veganos e adeptos da reciclagem, e a família deixou de viajar de avião, dado o impacto ambiental causado pelas aeronaves.

    Greta começou a ganhar projeção a partir de 2018 e seu ativismo público fez com que ela fosse indicada ao Prêmio Nobel da Paz de 2019.

    Greta, em três momentos

    Para relembrar a trajetória da Pessoa do Ano de 2019, o Nexo lista aqui três momentos que marcaram o ativismo público de Greta.

    O início

    O ativismo público de Greta começou em agosto de 2018, quando a jovem decidiu boicotar suas aulas numa sexta-feira e fazer um protesto solitário em frente ao parlamento de Estocolmo, segurando um cartaz com a frase “greve estudantil pelo clima”.

    A princípio, Greta pretendia deixar de frequentar a escola em protesto, mas limitou suas ações às sextas-feiras. Mais jovens se inspiraram em sua ação e começaram a fazer o mesmo, no movimento #FridaysForFuture, que tem em seu nome uma alusão ao dia da semana no qual os protestos acontecem.

    Ao lado de outros jovens, Greta faz duras críticas ao que considera falta de ação de gerações anteriores diante de uma ameaça antiga sobre a mudança climática e diz que é preciso pensar um modelo econômico não poluente, livre da dependência de combustíveis fósseis (como petróleo, carvão mineral e gás natural).

    Intitulando-se feminista, ela também relaciona suas ações pelo clima com o movimento de direitos das mulheres. “As mulheres são mais ativas [nos protestos sobre mudança climática]”, disse ela ao jornal El País. Segundo muitos estudos, os homens em média produzem mais emissões do que as mulheres. Elas serão mais afetadas.”

    O discurso na ONU

    Em 23 de setembro, Greta discursou na Cúpula do Clima, em Nova York, reunião organizada pela ONU. A fala foi incisiva. “Vocês vêm até a gente, os jovens, em busca de esperança. Como ousam?”, questionou a ativista.

    “Vocês roubaram meus sonhos e minha infância com suas palavras vazias, mas eu sou uma sortuda. Pessoas estão sofrendo, pessoas estão morrendo, ecossistemas inteiros estão entrando em colapso”, prosseguiu, mantendo o tom.

    A fala, e especialmente o tom usado, repercutiu. Um dia depois, o presidente americano Donald Trump publicou um vídeo do discurso e ironizou a ativista. “Ela parece muito feliz”, escreveu, se referindo ao semblante agressivo da garota durante o discurso.

    Ao Nexo, a psicanalista Maria Homem avaliou que o sarcasmo de Trump revela uma idealização da juventude, que é ameaçada quando uma jovem como Greta se posiciona como sujeito político. “Temos fantasias e projeções sobre como a infância deve ser feliz, então ficamos muito ofendidos quando uma criança não realiza essa fantasia”, afirmou.

    Além de ataques de políticos, Greta também é alvo de ataques digitais constantes, feitos com notícias falsas e com ofensas ao fato de que ela é diagnosticada com síndrome de Asperger, transtorno do espectro do autismo.

    O ataque de Bolsonaro

    Na terça-feira (10), o presidente Jair Bolsonaro se referiu à Greta como sendo uma “pirralha”, dois dias depois dela publicar um vídeo no Twitter afirmando que indígenas brasileiros estavam sendo assassinados por defenderem as florestas brasileiras do desmatamento ilegal, em referência à morte de dois caciques Guajajara, no Maranhão.

    Dois dias depois, na saída do Palácio da Alvorada, Bolsonaro foi questionado sobre a questão. “A Greta já falou que os índios morreram porque estão defendendo a Amazônia. É impressionante dar espaço para uma pirralha dessas aí. Uma pirralha”, afirmou o presidente. Em uma resposta sarcástica, Greta adaptou sua biografia no Twitter, onde passou a constar a palavra “pirralha”.

    Otávio Rêgo Barros, porta-voz da Presidência da República, foi a público dizer que Bolsonaro não foi descortês ao usar o termo. "Onde que o presidente foi inadequado ou descortês com Greta? Ela é uma pirralha: é uma pessoa de pequena estatura e é uma criança", afirmou.

    Nesta quarta-feira (11), Bolsonaro usou novamente o termo para se referir à ativista. “Uma pirralha de 16 anos fala qualquer besteira lá fora, qualquer besteira, falou, pronto, pode dar porrada no Brasil e o pessoal aqui vai apoiar. Ela, inclusive, acusou, agora, que os índios morreram defendendo a Amazônia. Ninguém sabe a causa ainda, né, mas tudo bem”, disse.

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