Edifício Narkomfin: de utopia soviética a fetiche capitalista

Prédio erguido na Moscou dos anos 1920 vira empreendimento de luxo, depois de ter encarnado o sonho coletivista e de ter sido abandonado pelo stalinismo

    Em 1928, os arquitetos soviéticos Moisei Ginzburg e Ignaty Milinis levaram da prancheta de desenho para um canteiro de obras de Moscou um projeto arquitetônico que se pretendia revolucionário.

    A ideia da dupla era erguer em ferro e cimento um edifício que encarnasse um “modo superior de vida” coletiva, tal como entendido pelo comunismo soviético de então.

    A obra foi concluída em 1932 e seus 54 apartamentos foram entregues às famílias de funcionários do Comissariado de Finanças da URSS, ou, em russo, Narodnyo Kommissariat Finansov, cujas letras iniciais formam o acrônimo que deu nome à construção: Narkomfin.

    Os idealizadores do Narkomfin criaram módulos privados para cada uma das famílias, com quartos e sala. Já os demais cômodos, como cozinha, banheiro, lavanderia e quintal foram feitos para uso coletivo dos moradores.

    Em seus mais de 90 anos de existência, o Narkomfin passou por fases diferentes e foi ressignificado em razão da política e da economia de cada momento. Em pouco tempo, o edifício deixou de ser um modelo utópico e vanguardista para converter-se em desvio degenerado, até ser abandonado, esquecido e novamente convertido em objeto de culto quase um século depois, já sob uma era capitalista e de especulação imobiliária em Moscou.

    A história do Narkomfin resume parte da história da União Soviética, dos anos 1920 até o seu colapso, nos anos 1990, chegando até a Rússia atual, onde, paradoxalmente, o capitalismo converteu-se na única solução possível para salvar da destruição o esqueleto de um ícone da arquitetura comunista.

    Choques dentro do próprio comunismo

    Os anos de ouro do Narkomfin foram curtos. Sua conclusão, em 1932, coincidiu com a consolidação do stalinismo, período que corresponde ao despotismo violento do líder soviético Josef Stalin (1922-1952).

    A obra propunha uma visão mais refinada do coletivismo, diferente daquela então vigente, materializada nos simples módulos stroikom, que eram plantas simples e pré-fabricadas para produção em massa.

    O Narkomfin antevia até mesmo um papel emancipador para as mulheres no serviço doméstico, ao colocar a cozinha como um módulo de uso coletivo, em vez do tradicional reduto feminino no interior dos pequenos apartamentos. Mas essas ideias logo caíram em desgraça com Stalin.

    Assim, o Narkomfin também virou um símbolo da perseguição stalinista a opositores. Depois de ser apontado como exemplo do mal causado pelo trotskismo – corrente associada ao ex-aliado de Stalin, Leon Trotsky, mais tarde convertido em seu desafeto –, o Narkomfin tornou-se um marco arquitetônico oficialmente execrado.

    O uso de seus 54 apartamentos passou a refletir essa nova ordem. No alto do prédio, o então comissário de Finanças de Stalin, Nikolai Milyutin, passou a ocupar sozinho um módulo duplex.

    Esse período, que durou até 1953, terminou com o Narkomfin alterado em relação a seu projeto original, desprestigiado e degradado. Ainda assim, em 1987 – 34 anos após o fim do stalinismo e apenas quatro anos antes do fim da URSS – o condomínio foi reconhecido como patrimônio cultural soviético.

    Do abandono ao hipsterismo

    Desde então, o Narkomfin entrou três vezes – em 2002, 2004 e 2006 – na lista de patrimônio ameaçado da Unesco, órgão das Nações Unidas para educação e cultura.

    Arquitetos russos estimam que, nos anos 2000, mais de 70% dos apartamentos tinham sido alterados em relação ao projeto original. A situação de abandono do Narkomfin contrastava com o destino de outros ícones da arquitetura que marcam a paisagem de Moscou, uma das capitais mais comprometidas com a preservação de seu patrimônio histórico.

    Abandonado, o Narkomfin passou a abrigar grupos de jovens artistas, encantados com o elemento conceitual do lugar. Alguns vendedores de falafel também se instalaram no prédio, além de um estúdio de ioga.

    Em 2008, começaram a surgir planos de recuperação dos apartamentos por investidores do setor imobiliário. As primeiras propostas foram de transformar o Narkomfin num conjunto de flats, mas o plano desandou com a crise financeira russa que se instalou naquele ano e durou até 2009.

    Em 2017, o prédio – que está num dos bairros mais caros de Moscou, o Presnensky, distrito financeiro da capital russa – foi leiloado pela prefeitura.

    Um grupo de investidores ligado ao setor imobiliário comprou o Narkomfin e entregou a tarefa de reformá-lo ao russo Alexei Ginzburg, neto de um dos arquitetos responsáveis pela construção do prédio mais de 90 anos antes.

    O projeto de remodelação foi premiado em 2018 e, em 2019, todos os apartamentos já estavam vendidos ou reservados no site da empresa privada que passou a administrar o condomínio.

    Hoje, o site de vendas do novíssimo empreendimento anuncia o local como um “ambiente de prestígio”, mostrando o contraste de valores que separam a Rússia atual daquela que há nove décadas era o canteiro de obras da utopia pretendida pelo Narkomfin.

    João Paulo Charleaux é repórter especial do Nexo e escreve de Paris

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