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Como o cosplay pode impactar positivamente a psique

Entusiastas confeccionam fantasias e interpretam personagens. Prática pode ajudar com problemas como depressão e ansiedade

    O cosplay é uma prática que envolve a aquisição ou a confecção de fantasias de personagens de filmes, séries, quadrinhos e games, e também a interpretação dessas figuras, a partir da imitação de trejeitos, personalidade e voz. Além da diversão ligada à homenagem de personagens desses universos fantásticos, a prática tem efeito psicológico positivo sobre seus adeptos, segundo especialistas.

    Presente na Comic Con Experience 2019, evento de cultura pop realizado entre 5 e 8 de dezembro em São Paulo, Iago Garcez dos Santos, de 29 anos, devidamente caracterizado como o personagem Gênio, interpretado por Will Smith no filme "Aladdin", afirma que aderiu ao cosplay em 2014.

    "Eu gosto bastante do Will Smith, faço todos os personagens dele", afirmou ao Nexo. Santos viu no cosplay a oportunidade de vencer sua timidez. "O cosplay me ajudou com isso, em eventos como esse você precisa lidar diretamente com o público e tirar fotos com os visitantes, então me ajudou com isso", disse.

    A paixão de Santos pelo cosplay virou profissão, e atualmente ele trabalha como cosplayer profissional, sendo convidados para eventos, festas, convenções corporativas e pré-estreias de filmes e séries.

    A advogada Emily Barbosa, 34 anos, foi à Comic Con caracterizada como uma versão feminina do Capitão América, um dos super-heróis dos filmes da Marvel. Segundo ela, estar com a fantasia faz com que ela se sinta mais empoderada.

    "Eu sou uma pessoa introvertida, com que o cosplay libera alguma coisa em mim, eu me sinto mais forte, uma heroína. É muito empolgante", afirmou ao Nexo.

    Barbosa comparece anualmente na Comic Con Experience desde a primeira edição, em 2014. No primeiro ano, ela não se caracterizou, mas se inspirou nos visitantes da convenção e, desde 2015, cria fantasias para ir ao evento.

    Os efeitos do cosplay

    A psicóloga americana Robin S. Rosenberg, professora da Universidade da Califórnia, enxerga a prática do cosplay como uma forma de seus adeptos vencerem travas sociais e lidarem com seus próprios problemas internos.

    "A psicologia sabe que interpretamos personagens diferentes ao longo do dia. Eu, por exemplo, sou psicóloga, esposa e mãe. Eu fiquei curiosa nessas pessoas que interpretam um personagem verdadeiramente, e no quê vem à tona quando elas estão usando essas fantasias", afirmou Rosenberg ao site americano Huffington Post.

    Na mesma entrevista, a psicóloga cita como exemplo os cosplayers que se caracterizam como o Batman, que nos quadrinhos e no cinema é o alter-ego do bilionário Bruce Wayne.

    Wayne decidiu se tornar um vigilante na cidade de Gotham como uma forma de lidar com o trauma causado pelo assassinato de seus pais, quando ele ainda era criança. "Ele sobreviveu e encontrou um sentido e um propósito para a própria vida, e isso é inspirador para os cosplayers. Muitos deles já falaram sobre suas próprias experiências traumáticas", afirmou Rosenberg.

    Adam Geczy, doutor em práticas artísticas pela Universidade de Sidney, na Austrália, publicou um artigo investigando a psicologia do cosplay na Revista de Cultura Popular da Ásia-Pacífico.

    No artigo, Geczy argumenta que os cosplayers, no momento da caracterização, os adeptos da prática "matam“ a si mesmos, incorporando os personagens e, consequentemente, deixando ansiedades e problemas de lado durante a interpretação dos personagens.

    Selin Santos, psicólogo clínico na cidade de Bell County, no estado americano do Texas, afirmou ao canal local KcenTV que o cosplay ajuda a mitigar os efeitos de problemas como a ansiedade e da depressão porque seus adeptos se sentem parte de uma comunidade.

    "É uma atividade divertida, criar uma fantasia, colocar ela e ir para uma Comic Con. Diminui a isolação social, porque você está num evento social, e diminui a desesperança porque você está junto de pessoas que gostam das mesmas coisas que você. Ajuda as pessoas a se sentirem parte de uma comunidade, de uma família, e a achar um sentido que talvez não tivessem encontrado em outro lugar", disse.

    A história do cosplay

    Os bailes de máscara do século 16 são os avós do cosplay, por serem eventos sociais que demandam a presença de fantasias.

    O cosplay como conhecemos hoje tem origem nos primeiros anos do século 20. Em 1908, o americano William Fell, da cidade de Cincinnati, no estado de Ohio, se tornou a primeira pessoa a comparecer em um evento fantasiado como um personagem ficcional, confeccionando uma fantasia de Mr. Skygack, o protagonista de uma série de tirinhas de ficção científica que começou a ser publicada pelo quadrinista americano A.D. Condo em 1907.

    Uma comunidade cosplayer começou a se formar a partir do final da década de 1930. Em 1939, aconteceu, nos Estados Unidos, a primeira edição do evento Convenção Mundial de Ficção Científica, no qual vários visitantes compareceram munidos de suas fantasias.

    No Brasil, o cosplay começou a se popularizar a partir da década de 1980, quando cidades como São Paulo e o Rio de Janeiro começaram a sediar pequenos eventos para entusiastas de RPG e de séries de ficção científica, como a popular "Jornada nas estrelas".

    A partir da década de 1970, o cosplay ganhou um corpo de entusiastas mais significativo, que comparecem nos mais diversos eventos caracterizados como seus personagens favoritos.

    A confecção das roupas

    A confecção das roupas é parte importante do processo de criação do cosplay. O processo da criação da roupa de Gênio de Iago Garcia dos Santos durou cerca de um mês. A fantasia de Capitão América usada por Emily Barbosa foi feita em dois meses, no tempo livre da advogada.

    O processo de confecção das fantasias envolve uma concepção visual da roupa que se quer, a busca pelos tecidos ideais para aquele projeto, a tirada de medidas dos cosplayers e, por fim, a confecção, que pode ser feita por profissionais especializados ou pelos próprios adeptos da prática.

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