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‘As golpistas’: um olhar feminista para filmes de strippers

Longa estrelado por Jennifer Lopez e Constance Wu conta história real de dançarinas na crise financeira de 2008. Resultado é elogiado por dar perspectiva feminina a um tema que costuma privilegiar o desejo masculino

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    Depois da crise financeira de 2008, a clientela dos clubes de strip de Nova York, formada em parte por homens que trabalham no mercado financeiro, rareou. Strippers passaram a buscar clientes em bares, atraindo-os para os clubes e ficando com uma comissão informal sobre seus gastos no estabelecimento.

    Em meio à disseminação dessa prática, um grupo de mulheres foi além: passou a drogar esses clientes, aplicando neles uma espécie de “boa noite, cinderela”, e a subtrair milhares de dólares de suas contas bancárias sem seu conhecimento. A história é real e foi contada em 2015 por uma reportagem da revista The Cut, que chamou atenção da roteirista e diretora americana Lorene Scafaria. Ela a transformou no filme “As golpistas”, que estreou no Brasil na quinta-feira (5).

    O longa é protagonizado por Jennifer Lopez e Constance Wu (do filme “Podres de ricos”), e conta com as performances de Julia Stiles (do filme “O sorriso de Monalisa”), Keke Palmer (da série “Pânico”), Lili Reinhart (da série “Riverdale”) e participações das cantoras Lizzo e Cardi B.

    Lopez vem sendo especialmente elogiada por sua interpretação de Ramona, a stripper que foi mentora dos crimes, fazendo surgir especulações sobre a possibilidade de a estrela pop receber uma indicação ao Oscar.

    Várias das críticas sobre o filme enfatizam o empoderamento e a solidariedade entre suas personagens e também a quebra de paradigma de algumas escolhas feitas por Scafaria. A diretora é creditada por reinventar a categoria dos “filmes de stripper” (como “Showgirls” e “Striptease”), nos quais essas personagens são retratadas apenas como objetos do desejo masculino.

    O olhar feminino de ‘As golpistas’

    Assim como outros filmes centrados em strippers, “As golpistas” contém cenas em que atrizes dançam seminuas ao redor de uma barra de pole dancing. Mas a amizade que se desenvolve entre Ramona (Jennifer Lopez) e Destiny (Constance Wu) é o que dá sustentação à trama.

    Não há nenhum personagem masculino relevante, um contraste provocador em relação à maior parte dos filmes de Hollywood, nos quais personagens homens costumam ter maior destaque e personagens femininas muitas vezes sequer têm nome ou falas.

    Com isso, o filme “fala de mulheres que ganham a vida atendendo aos desejos masculinos, mas que só são verdadeiramente enxergadas umas pelas outras”, escreveu a crítica Alison Willmore para a revista Vulture.

    Isso fica claro na já famosa cena que introduz ao público a personagem de Lopez, na qual ela dança no palco a música “Criminal”, de Fiona Apple. A coreografia é sexy, o figurino mostra quase todo seu corpo, mas em nenhum momento a câmera enquadra partes específicas dele. A ideia, segundo Scafaria, foi enfatizar o poder, a força e o atletismo da personagem durante o pole dancing.

    Além disso, quando um corte leva a câmera de Ramona para quem a olha, não é a plateia masculina que entra em foco, mas o olhar fascinado de Destiny, que a vê pela primeira vez. Uma série de outras sequências reforçam essa perspectiva, colocando a câmera do ponto de vista das personagens femininas e não de seus clientes.

    ‘As golpistas’ é o primeiro – e talvez o único – filme contemporâneo sobre strippers que chega ao público com um olhar nitidamente feminino, um filme sobre mulheres feito para mulheres”, escreveu Kate Erbland no Indiewire.

    Essa ideia de um olhar feminino regendo a maneira de filmar se relaciona à crítica da imagem no cinema como produzida tradicionalmente pelo e para o olhar masculino, feita pela teórica do cinema e feminista Laura Mulvey.

    “Em um mundo ordenado pela desigualdade sexual [o termo ‘gênero’ ainda não era usado quando o texto foi escrito], o prazer de olhar se dividiu em ativo/masculino e passivo/feminino. O olhar masculino determinante projeta sua fantasia na forma feminina, que é estilizada de acordo com ele. Em seu papel tradicionalmente exibicionista, as mulheres são simultaneamente olhadas e expostas, com sua aparência codificada em função de um forte impacto erótico e visual”, escreveu Mulvey em seu ensaio “Prazer Visual e Cinema Narrativo”, publicado pela primeira vez em 1975, que é um marco dos estudos fílmicos.

    Há ainda uma ausência de julgamento por parte do filme com relação às ações de suas personagens. Ele não está interessado em discutir se elas estão certas ou erradas, mas em retratar a realidade das vidas dessas mulheres.

    Os percalços da produção

    Por se tratar de um filme sobre a crise de 2008, o projeto foi oferecido a Martin Scorsese e Adam McKay – diretores de “O lobo de Wall Street” e “A grande aposta”, respectivamente, que declinaram a proposta –, antes de ser assumido por Lorene Scafaria.

    Em 2016, a produtora Gloria Sanchez Productions encomendou a Scafaria o roteiro do filme. Ela também demonstrou interesse em dirigir o longa, mas “foi um longo processo convencê-los”, segundo disse Scafaria ao site Business Insider.

    Mesmo após vencer essa etapa, a diretora enfrentou dificuldades para financiar o longa. Uma empresa chamada Annapurna Pictures, que entrou para financiar e distribuir o filme, desistiu. Determinada a viabilizar o projeto, Scafaria continuou trabalhando no roteiro até conseguir que outra empresa, a STX Entertainment, se interessasse pelo filme.

    “Como fazer um filme sobre enganar homens brancos ricos em uma indústria controlada por homens brancos ricos?”, indaga uma reportagem sobre os bastidores do projeto publicada pelo site Vulture.

    Ao site, Scafaria e a produtora Elaine Goldsmith-Thomas falaram sobre a experiência de tentar vender o filme aos executivos do cinema – homens, em sua grande maioria. “É a única circunstância em que realmente me sinto como uma mulher”, disse Scafaria. “Não sinto isso quando estou no set. Só sinto quando o assunto é dinheiro”.

    O roteiro provocava desconforto. Parte da dificuldade em viabilizá-lo era o preconceito existente em torno das strippers.

    Goldsmith-Thomas compara a experiência de oferecer o filme a executivos ao seu tema. “Foi como dançar para um grupo de homens enquanto explicávamos para eles ‘sim, as mulheres drogam os homens, não, eles não são todos maus e sim, elas fazem coisas ruins””.

    Ela aponta que, se por um lado os executivos eram capazes de louvar “O lobo de Wall Street”, que retrata as ações imorais e muitas vezes ilegais de profissionais do mercado financeiro, eles precisavam ser convencidos de que protagonistas femininas que se comportam mal eram dignas de ter sua história contada na tela.

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