Para além de Greta: os jovens que protestam pelo clima

O ‘Nexo’ selecionou seis ativistas que, inspiradas pela sueca ou anteriores a ela, pedem justiça climática em seus países de origem

    A ativista sueca Greta Thunberg desembarcou nesta sexta-feira (6) na cidade de Madri, na Espanha, para participar da COP 25, encontro da ONU (Organização das Nações Unidas) que debate a crise do clima, e se juntar à greve de estudantes que acontece nesta sexta para pressionar os líderes no evento a agir frente à emergência climática.

    Aos 16 anos, a adolescente, que se notabilizou por ter iniciado em 2018 o movimento juvenil Fridays for Future — que consiste em greves escolares às sextas-feiras para cobrar ação diante da crise do clima —, deu à pauta ambiental repercussão inédita, inspirou milhões de crianças e adolescentes a se mobilizar contra o agravamento do aquecimento global e se tornou a principal referência do ativismo climático.

    Amplificando demandas de jovens em todo o mundo, Thunberg pede que os governos interrompam as emissões de poluentes que têm causado perturbações no clima e comprometido ecossistemas. Antes de ir à COP 25, a ativista esteve na Cúpula do Clima, evento da ONU em setembro em Nova York, e fez um discurso que repercutiu por dias.

    “Estamos no início de uma extinção em massa e tudo o que vocês falam gira em torno de dinheiro e um conto de fadas de crescimento econômico eterno. [...] Vocês ainda se aproximam de nós, os jovens, para ter esperança. Como ousam?”

    Greta Thunberg

    ativista sueca, em discurso na Cúpula do Clima, em setembro de 2019

    Apesar de ser o principal rosto do Fridays for Future, Greta Thunberg diz que não deseja o protagonismo do movimento e que diversos outros jovens se engajaram para que o ativismo climático se tornasse relevante em outros países. A greve global pelo clima de 20 de setembro de 2019, na mesma semana da cúpula da ONU, reuniu mais de 4 milhões de crianças e adolescentes em 185 países, segundo contagem própria.

    Além de realizar greves escolares, jovens em diversos lugares do mundo têm tentado pautar a crise climática organizando encontros entre ativistas, travando diálogos com autoridades ou realizando ações de cidadania, como o plantio de árvores em áreas urbanas. Alguns casos mostram que, em lugares como Colômbia e Estados Unidos, crianças e adolescentes têm inclusive processado os governos locais por não cumprir os compromissos firmados no Acordo de Paris para o clima.

    Abaixo, o Nexo fez uma pequena seleção de ativistas, todas meninas, que vêm da América do Norte, da América Latina, da Ásia e da África. Inspiradas por Greta Thunberg ou anteriores à sueca, elas têm ganhado destaque no debate sobre o clima em seus países. Uma parte das ativistas estará ao lado de Thunberg até 13 de dezembro na COP 25.

    Alexandria Villaseñor

    A americana Alexandria Villaseñor, de 14 anos, se juntou às greves pelo clima no fim de 2018 e logo se tornou uma das principais referências do movimento. Ela é fundadora da organização Earth Uprising, criada para pedir ação climática, e foi uma das mais jovens organizadoras da greve global de estudantes em setembro de 2019 nos Estados Unidos.

    A nova-iorquina diz que passou a se interessar pela mudança climática após uma visita à Califórnia em 2018, na mesma época em que uma série de incêndios de proporções inéditas no estado deixou dezenas de mortos e desaparecidos, segundo reportagem do Los Angeles Times. A fumaça chegou à cidade onde ela estava e atacou sua asma.

    “Relacionei a onda de incêndios na Califórnia à mudança climática porque é ela que estimula [de modo geral] que haja mais focos”

    Alexandria Villaseñor

    ativista pelo clima, em entrevista ao site americano Mashable

    Inspirada por um discurso de 2018 de Greta Thunberg, que havia iniciado as greves pelo clima na Suécia em agosto daquele ano, Villaseñor quis fazer o mesmo em seu país. “Sou muito jovem para votar. Quando vou às greves, sinto que tomo de volta o controle sobre meu futuro”, disse a adolescente, segundo reportagem da BBC.

    Ao lado de Greta, a adolescente está entre os 16 jovens que em setembro de 2019 assinaram uma denúncia contra Brasil, Argentina, França, Alemanha e Turquia no Comitê sobre os Direitos da Criança na ONU. Eles sustentam que esses países estão agindo de modo contrário ao que se comprometeram a fazer no Acordo de Paris pelo clima, violando a chamada Convenção sobre os Direitos da Criança.

    A denúncia narra efeitos concretos da crise do clima sobre os jovens, como asma por poluição do ar e incidência de doenças como dengue e chikungunya em lugares onde antes não existiam. Outros Estados não foram incluídos na denúncia porque não assinaram o Acordo de Paris, de 2015, ou a Convenção sobre os Direitos da Criança, de 1989.

    Jamie Margolin

    Autora de um livro sobre ativismo climático, a americana Jamie Margolin, de 17 anos, fundou o movimento de estudantes This Is Zero Hour em meados de 2017, um ano antes de Greta Thunberg iniciar as greves às sextas-feiras. Ao lado de outros jovens, Margolin organiza protestos e ações para pressionar políticos nos EUA a combater a crise do clima.

    A ativista, que é filha de imigrantes colombianos, se notabilizou por um mote que também norteia a organização que fundou: “chegar às raízes da crise climática”. Margolin defende que a crise está relacionada a antigos sistemas de opressão, como o colonialismo, o racismo e o patriarcado, e que para enfrentá-la é preciso atacá-los também.

    “As nações que foram colonizadas emitem a menor quantidade de poluentes, mas sentem os piores efeitos da crise do clima”, disse Margolin em conferência TEDx de junho de 2019. Pela mesma lógica, mulheres e populações não brancas são as mais afetadas pela crise. Por isso, ela diz, o ativismo deve ter como foco os mais vulneráveis.

    As empresas americanas economizam dinheiro explorando trabalhadores na Índia [país que emite muitos poluentes] e poluindo o ar e a água das pessoas que vivem ali. Enquanto as comunidades pobres se envenenam, as pessoas ricas nos Estados Unidos compram esses produtos e aproveitam seus luxos sem sentir os efeitos tóxicos de produzi-los. [...] O colonialismo nunca acabou, apenas evoluiu

    Jamie Margolin

    ativista do clima, em conferência TEDx de junho de 2019

    A adolescente destaca que deve haver apoio aos povos indígenas, especialmente na América Latina, onde eles mantêm a conservação ambiental que ajuda a regular o clima. “Na Colômbia, país natal da minha família, há uma grande luta pela proteção da Amazônia”, disse ela, segundo o site americano Vox. “A América Latina é a casa da maior parte da biodiversidade global, e por esse motivo há também altas taxas de assassinatos e perseguições a ativistas ambientais locais.”

    Artemisa Xakriabá

    A indígena brasileira Artemisa Barbosa Ribeiro (ou Artemisa Xakriabá), de 19 anos, foi um dos destaques do país na Cúpula do Clima da ONU, em setembro de 2019, e ao lado de ativistas como Greta Thunberg participou da greve geral em Nova York durante a semana do evento.

    “Meu entusiasmo é pelo que vim fazer aqui [nos EUA, em setembro], que é lutar pela existência não só do meu povo, mas de todo mundo. [...] O importante é estarmos aqui para unir forças”

    Artemisa Xakriabá

    ativista indígena, em entrevista de setembro de 2019 ao site G1

    A ativista, que vem de uma aldeia na cidade de São João das Missões, no norte de Minas Gerais, tornou-se ativista aos 16 anos, na tentativa de chamar a atenção para demandas dos povos indígenas. Ainda em 2019, ela participou da Primeira Marcha das Mulheres Indígenas no Brasil e, nos EUA, conversou com congressistas sobre propostas dos povos originários para proteção de florestas e desenvolvimento sustentável.

    Ao site G1, Xakriabá afirmou, quando esteve nos EUA, que se emocionava por receber apoio internacional, “já que o nosso apoio lá dentro [no Brasil] não tem”. Ela comentou, na época, que lamentava que o governo federal acusasse os povos indígenas na Amazônia pela onda de incêndios que atingiu a floresta no segundo semestre do ano.

    Seu povo, os Xakriabá, têm uma longa trajetória de luta por seus direitos desde o contato violento com bandeirantes, pecuaristas e garimpeiros em Minas Gerais. As terras do grupo foram ocupadas por fazendeiros no passado, e hoje eles tentam recuperar parte do que perderam e ampliar a demarcação de territórios no estado.

    Autumn Peltier

    A indígena canadense Autumn Peltier, de 15 anos, nascida na chamada reserva Wiikwemkoong Unceded, tornou-se uma conhecida ativista ambiental ao cobrar de líderes de seu país a conservação da água e o respeito à sacralidade da água limpa para os povos originários.

    A adolescente decidiu recorrer à política após ter conhecimento, ainda na infância, de que inúmeras populações indígenas no Canadá não podiam mais beber água pura em suas terras, pois havia risco de o líquido estar contaminado. “O Canadá não é um país de terceiro mundo, mas aqui os povos indígenas vivem em condições de terceiro mundo”, disse Peltier na Cúpula do Clima da ONU em setembro de 2019.

    “De onde eu venho, tenho tanta sorte que ainda posso beber a água do lago. Mas às vezes me questiono — não muito longe de onde vivo, há comunidades que vivem com água sob risco de contaminação. Me pergunto: por que é assim? Por que na minha província? Por que no meu país?”

    Autumn Peltier

    ativista climática, em discurso em setembro de 2019

    A canadense é ativista desde antes do movimento Fridays for Future. Aos 12 anos, em 2016, ela ganhou projeção internacional após dizer, em um encontro com o primeiro-ministro do Canadá, Justin Trudeau, que estava infeliz com as políticas de Estado relativas à conservação da água. Em resposta, Trudeau disse que protegeria os lagos do país.

    Ao se apresentar em eventos, Peltier diz se inspirar em sua tia avó Josephine Mandamin, uma ativista indígena que anos atrás percorreu os cinco Grandes Lagos entre o Canadá e os EUA para conscientizar a população sobre a conservação da água. A adolescente explica que, para seu povo, a água é sagrada, pois “se nasce a partir da água”.

    “Talvez nós precisemos de mais idosos e mais jovens sentados à mesa quando as pessoas tomam decisões sobre nossas terras e nossas águas”, disse Peltier na Cúpula do Clima de 2019. Ela afirmou na ocasião que “não se pode comer dinheiro, nem beber petróleo” e pediu o fim do uso de plástico a fim de se ter um mundo mais sustentável.

    Howey Ou

    A adolescente Howey Ou, de 16 anos, é precursora das greves às sextas-feiras na China. Ela faz parte de uma crescente minoria de estudantes chineses que tentam pressionar o país, que é o maior poluente do mundo, a cortar poluentes que provocam a crise do clima.

    A ativista fez seu primeiro protesto em maio de 2019, em frente a escritórios do governo na cidade de Guilin, na região sul da China. A ação durou dias até que as autoridades dissessem que ela deveria parar o ato por não ter autorização policial — exigência chinesa desde 1989, ano de protestos estudantis que sofreram violenta repressão.

    “A questão é que as pessoas aqui não podem protestar e fazer algo em relação ao clima. Mesmo aqueles que querem mudar as coisas pensam que fazer ativismo na China não dará certo e o custo será muito alto”

    Howey Ou

    ativista climática, em entrevista ao The Guardian em setembro de 2019

    Após ser impedida de protestar nas ruas, Ou decidiu que às sextas-feiras passaria a plantar árvores em áreas degradadas na região onde vive. Ela diz, em vídeo publicado no Twitter, que o continuará fazendo até que a China invista em políticas alinhadas com seus compromissos feitos no Acordo de Paris. A sueca Greta Thunberg chamou a chinesa de “verdadeira heroína” em maio de 2019.

    Ou foi uma dos dois únicos chineses a receber um “selo verde” da ONU para jovens que estão fazendo a diferença pelo clima. A convite da organização Earth Uprising, ela também foi chamada a participar da Cúpula do Clima de 2019. A adolescente, no entanto, quase teve de deixar de comparecer ao evento, pois sua acompanhante temia que ela não seguisse o “roteiro” do governo chinês enquanto estivesse lá.

    Por causa da maneira como o governo controla o debate sobre o assunto, grande parte da população chinesa subestima a crise climática e o empenho do país para combatê-la. “As pessoas na China não sabem da situação e pensam que o governo chinês está fazendo muito e que está tudo ótimo”, disse Ou ao jornal The Guardian em setembro.

    Leah Namugerwa

    A ativista Leah Namugerwa, 15, é uma das principais lideranças do movimento Fridays for Future em Uganda, seu país de origem. Inspirada por Greta Thunberg, de quem ouviu falar pela primeira vez em 2018, a adolescente faz greves às sextas-feiras desde fevereiro de 2019.

    Namugerwa diz que decidiu que se tornaria ativista após assistir a uma reportagem em uma TV local. A matéria contava que as pessoas que viviam ao norte de Uganda estavam passando fome devido a secas prolongadas e deslizamentos de terra no país, que não pouparam vidas. A causa dos eventos era a crise climática, segundo a reportagem.

    “Uganda está passando por mudanças no tempo, suas estações chuvosas não são mais previsíveis e os mosquitos estão se espalhando mais rápido do que antes. Secas prolongadas, desertificação e perda de biodiversidade são todos indicadores de que o clima está mudando”

    Leah Namugerwa

    ativista climática, em texto publicado no site Earth Day

    A adolescente lidera a campanha #BanPlasticUG, que pede que o presidente ugandês, Yoweri Museveni, ordene o banimento de sacolas plásticas no país, afetado pelo acúmulo de lixo nas ruas. Apesar do ativismo dos jovens, ela conta, as autoridades de Uganda dão respostas duras aos protestos às sextas-feiras, às vezes expulsando os estudantes que se manifestam em frente a escritórios do governo.

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