Os processos contra João de Deus um ano após o escândalo

Líder espiritual está preso desde dezembro de 2018, quando centenas de mulheres o acusaram de abuso sexual

    Acusações em série de abuso sexual contra o líder espiritual João de Deus vieram a público em dezembro de 2018. Ele atuava em Abadiânia, pequeno município no interior de Goiás, onde a economia girava em torno da Casa Dom Inácio de Loyola, fundada por ele em 1976.

    João de Deus costumava atender milhares de pessoas por mês, vindas de várias partes do Brasil e do exterior em busca de cura e espiritualidade e exercia grande influência local, sendo conhecido nacional e internacionalmente.

    Após a divulgação dos primeiros relatos na imprensa, centenas de mulheres contataram a força-tarefa instituída pelo Ministério Público de Goiás para apurar os casos, apresentando-se como vítimas.

    Mulheres, crianças e adolescentes que buscaram atendimento espiritual, ex-funcionárias e a filha do médium estão entre as que o acusam de violência sexual.

    Os casos datam desde a década de 1970 e pessoas relatam ter sido ameaçadas de morte caso rompessem o silêncio. A vulnerabilidade física e emocional de quem procurava João de Deus associada ao temor de confrontar uma figura poderosa e ajudaram a retardar as denúncias.

    A descoberta de outros relatos de mulheres que dizem ter sido vítimas de João de Deus – e a ideia de que, em conjunto, teriam maior chance de ser ouvidas – acabou sendo determinante para que mulheres decidissem tornar as acusações públicas naquele momento em particular.

    João de Deus foi preso preventivamente em 16 de dezembro de 2018 e segue encarcerado no Complexo Prisional de Aparecida de Goiânia, na Região Metropolitana da capital. Ele chegou a ficar foragido quando sua prisão foi decretada, mas se entregou dois dias depois. O líder espiritual nega os crimes.

    Os processos e os novos relatos

    A primeira condenação de João de Deus aconteceu em novembro de 2019, por posse ilegal de armas de fogo. A juíza Rosângela Rodrigues determinou que a pena de quatro anos fosse cumprida em regime aberto, mas o médium continuou detido em razão de mandados de prisão provisória.

    As acusações de crimes sexuais, falsidade ideológica e corrupção de testemunhas somam em dezembro de 2019, um ano depois que o escândalo veio à tona, 13 denúncias, 11 delas por crimes sexuais.

    Essas 11 somam 57 vítimas cujos casos não prescreveram e estão aptos a julgamento.

    No total, se forem considerados os que já prescreveram, o número de vítimas que formalizaram queixa contra João de Deus sobe para 144. As 87 mulheres cujos casos já prescreveram participam dos processos como testemunhas.

    Dois dos processos envolvendo crimes sexuais já tiveram as audiências concluídas e esperam a sentença, segundo promotoras do caso. Além disso, uma outra denúncia deve ser apresentada ainda em 2019.

    Na segunda-feira (2) o Ministério Público do Estado de Goiás entrou com a mais recente denúncia contra João de Deus, a 11ª contra ele por crimes sexuais, na qual ele é acusado de cometer estupro de vulnerável contra quatro mulheres, durante atendimentos espirituais em Abadiânia, entre 2010 e 2016.

    Outras sete vítimas — cujos casos já prescreveram, pois teriam ocorrido entre 1976 e 2008 — também foram citadas pela promotoria, que fez um novo pedido de prisão cautelar contra o acusado.

    Para o Ministério Público, a reclusão dele é importante para que as vítimas continuem se apresentando, já que muitas ainda temem represálias.

    As denúncias contra outros líderes espirituais

    Antes do surgimento das denúncias contra João de Deus, em setembro de 2018, o guru brasileiro conhecido como Prem Baba foi acusado de abusar sexualmente de duas de suas seguidoras, entre 2008 e 2010.

    Após o caso do médium de Abadiânia, emergiram ainda outros casos envolvendo acusações do tipo contra líderes espirituais. Diógenes Mira, o especialista em terapia tântrica e yoga conhecido como Ananda Joy, foi denunciado por abusar sexualmente de três mulheres. O caso está sendo investigado pelo Ministério Público de São Paulo.

    Uma outra investigação conduzida em sigilo pelo MP-SP desde 2017 apura denúncias contra Antônio Alves Marques Júnior, conhecido como Gê Marques, dirigente da igreja Reino do Sol, sediada no município de Mairiporã, em São Paulo. O caso foi noticiado pela BBC Brasil em janeiro de 2019. A reportagem entrevistou 11 mulheres, incluindo três que depuseram ao Ministério Público, e recebeu relatos escritos de mais quatro que alegam ter sido abusadas sexualmente por Marques.

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