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Como Lia de Itamaracá se mantém uma artista em renovação

Aos 75 anos, cantora pernambucana conhecida pelas cirandas lança álbum com repertório variado e contemporâneo. O ‘Nexo’ falou com a artista sobre a obra e sua atuação no filme ‘Bacurau’

    “Me convidaram/Pra cantar nessa festinha/No meio dessas mocinhas/Bonitinhas e tão bacanas”, cantou Lia de Itamaracá em “Discoteca de Pracinha”, do seu álbum de 2001. “Elas dançam rock/Cocotá e discoteque/Agora vão dar um breque/Para vir dançar ciranda”.

    Aos 75 anos, a cantora pernambucana Lia de Itamaracá é considerada um patrimônio vivo da música de seu estado graças a seu status de rainha da ciranda. No entanto, Lia se caracteriza por ser uma artista aberta à renovação.

    Seu novo álbum, “Ciranda Sem Fim”, lançado em novembro de 2019, aposta em um repertório variado e roupagens contemporâneas. A produção é do DJ Dolores, figura importante do movimento manguebeat, e responsável pelas trilhas sonoras de filmes como “Narradores de Javé” e “Tatuagem”.

    Uma das ideias de Lia para o disco foi trazer dois boleros clássicos, estilo que ela ainda não tinha gravado. São as faixas “Apenas um Trago (Bom Dia Meu Amor)” e “O Relógio”. A versão original desta última é “El Reloj”, popular na década de 1950 com o cantor mexicano Roberto Cantoral, depois cantada no Brasil por Altemar Dutra. “A gente não deve deixar de escutar música nova, mas eu gosto mesmo é da velha guarda”, explicou Lia ao Nexo.

    Segundo DJ Dolores, Lia gosta de muito do que toca na rádio hoje em dia. “Ela não ficou presa a ser um símbolo da tradicionalidade. O disco reforça Lia como grande cantora”, afirmou DJ Dolores ao Nexo.

    Foto: Reprodução
    ciranda sem fim
    Ciranda Sem Fim tem produção de DJ Dolores, que introduziu elementos eletrônicos na obra da cantora

    “Essas coisas eletrônicas foi Dolores que colocou para ver se vingava. E como vingou”, relatou a cantora. O produtor diz que buscou interferir pouco na estrutura, evitando usar muita programação eletrônica. “Quando aparece, é discreta ou é programação de coisa acústica que você pensa que é tocada. O que traz a cara eletrônica é a presença de alguns sintetizadores para criar atmosfera. Não estão dentro da melodia, tem mais função de criar textura”.

    O álbum apresenta composições de outros artistas, como “Falta de silêncio”, de Alessandra Leão, “Peixe mulher”, de Ava Rocha, e “Desde menina”, de Chico César, em que o músico também participa.

    “Ciranda Sem Fim” é o quarto álbum da carreira de Lia de Itamaracá. Seus discos anteriores são “Rainha da Ciranda” (1977), “Eu Sou Lia” (2000) e “Ciranda de ritmos” (2010).

    História da vida

    Em janeiro de 2019, foi lançado o livro “Lia de Itamaracá: 75 anos cirandando com resistência, sorrisos e simplicidade”, biografia da cantora escrita pelo jornalista Marcelo Henrique Andrade, também nascido em Itamaracá.

    A obra retrata a infância pobre da cantora, a única entre 19 irmãos que se interessou pela música. “Não tem nada fácil na vida, mas você não se entrega às dificuldades, você vai enfrentar”, disse Lia. “Você estuda aquilo e tenta ir em frente.”

    “É um trabalho literário composto de fragmentos reais. É uma espécie de grande reportagem dividida em capítulos. Ao lado de Lia, selecionei os momentos mais marcantes e impactantes da vida e da carreira dela”, afirmou o jornalista Marcelo Henrique Andrade ao Diário de Pernambuco.

    Aparições no cinema

    Lia de Itamaracá foi convidada pelo diretor Kleber Mendonça Filho para atuar em “Bacurau” (2019). Ela afirmou que compartilha da visão crítica que o filme traz do Brasil, embora “como andei viajando muito para tocar, ainda não sentei para ver o filme”.

    Na produção, ela interpreta dona Carmelita, matriarca da cidade do sertão pernambucano. A cantora afirma que se identifica com o personagem. “Carmelita era muito forte, combina comigo”, compara. “Apesar de ser forte eu fiz bonitinho e tô gostando.”

    Lia não é estranha às telas. No papel de si mesma ou encarnando personagens fictícios, a cantora participa de produções desde a década de 1980, quando atuou em “Parahyba Mulher Macho”, de Tizuka Yamazaki. Com o diretor de “Bacurau”, já tinha trabalhado em “Recife Frio”, premiado curta-metragem lançado em 2009.

    A ciranda

    A ciranda é um ritmo e uma dança tradicionais da Ilha de Itamaracá. O município faz parte da região metropolitana do Recife, com a sede situada a cerca de 50 quilômetros da capital.

    Em diversas entrevistas, Lia contou como sua batida simula o vai e vem das ondas do mar. Segundo a sabedoria popular, a ciranda era cantada e dançada pelas mulheres dos pescadores enquanto esperavam os maridos voltarem do oceano.

    A dança da ciranda, de mãos dadas em roda, tem versões por todo o Brasil e é parte do repertório tradicional de danças infantis. Segundo o “Dicionário do Folclore Brasileiro”, de Luís da Câmara Cascudo, a ciranda chegou ao Brasil por intermédio dos portugueses e espanhóis, no século 19.

    Músicos pernambucanos como Chico Science e Lenine incorporaram a ciranda em trabalhos seus. Em 2009, a dança foi declarada patrimônio imaterial de Pernambuco.

    A falta de valorização

    “A ciranda todo mundo vai, é uma cultura boa, não tem aperreio, nunca vi uma briga”, afirmou Lia. A cantora tenta terminar o projeto de um espaço cultural dedicado ao ritmo em Itamaracá. Segundo ela, a verba conseguida está parada na prefeitura local.

    “Só quero que terminem o espaço cultural. Será uma opção para quem visita a ilha. Chega sábado os paredões de som [estruturas de alto-falantes montadas em cima de automóveis] tomam conta da praia”, lamentou. “Quem vai pegar sua família para passar a noite no paredão. Sábado e domingo não tem para onde ir aqui. Iemanjá não gosta desses pagodes não.”

    Na opinião de Lia, o Brasil deveria tratar melhor e apoiar seus artistas. “Mas ninguém incentiva, ninguém chega perto. Lia fica sozinha. Eu toco mais fora de Pernambuco do que aqui, pelos SESCs. Meu parceiro é o SESC, tenho ido muito ao Rio de Janeiro e São Paulo”.

    A cantora ressalta que muitos “mestres da cultura” do país estão precisando de ajuda. “Os mestres já estão prontos, tem muito mestre bom em Recife. Estão esperando os mestres morrer para poder acudir? Eu digo muito que se alguém quer fazer algo por mim que faça agora, não espere eu morrer. Só vai me valorizar depois que eu morrer?”

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