A morte de ídolos do K-pop. E a saúde mental dos artistas

Três casos registrados em três meses levantam debate sobre pressões e abusos no ambiente da indústria que alimenta esse fenômeno musical coreano

    Em menos de três meses, três cantores de K-pop morreram na Coreia do Sul. Em outubro de 2019, Sulli, de 25 anos, foi encontrada morta em seu apartamento. Choi Jin-ri, seu nome de nascença, fez parte do f(x), um dos primeiros grupos a alcançar reconhecimento internacional quando tocou no festival South by Southwest em 2013. Depois de um ano sabático para cuidar da saúde física e mental, ela abandonou o grupo e seguiu uma carreira solo na TV e na música.

    Sulli ficou conhecida por discutir publicamente saúde mental, cyberbullying e direitos das mulheres, todos assuntos tabu na sociedade coreana. Nas palavras de um crítico não-identificado pela BBC, “as artistas de k-pop precisam ser fofas, amáveis e obedientes à críticas. Ela [Sulli] levantava sua voz e se fazia ser ouvida”. Por conta disso, a artista sofreu muitos ataques de trolls que a atormentavam por publicar, por exemplo, fotos com o namorado ou sem sutiã.

    Em novembro, Goo Hara, de 28 anos, foi encontrada morta em seu apartamento. A cantora fez parte do grupo Kara até 2015, seguindo posteriormente carreira solo no Japão. Meses antes, ela havia ajudado uma jornalista a expor um escândalo sexual na indústria K-pop que culminou com a prisão e renúncia de diversas celebridades. Hara teve um vídeo íntimo gravado sem seu consentimento e divulgado pelo namorado. Ela lutava contra depressão e também recebia comentários maldosos pelas redes sociais.

    No dia 3 de dezembro, Chan In Ha, de 27 anos, foi encontrado morto em sua casa. O cantor fazia parte do Surprise U, grupo que reunia diversos atores da TV.

    A polícia confirmou que Sulli se suicidou. Já a causa de morte de Goo Hara segue em aberto, embora os indícios de suicídio também sejam fortes: um bilhete escrito à mão com uma mensagem pessimista foi encontrado na sala de estar e, em maio de 2019, ela havia protagonizado uma tentativa de suicídio. O motivo da morte de Chan In Ha ainda não foi confirmado. Antes dos três, um infarto e um suicídio já haviam levado dois outros cantores em 2017 e 2018.

    Desafios antes, durante e depois da fama

    A indústria cultural coreana é controlada por agências. São delas que saem as principais estrelas do K-pop. Elas selecionam e custeiam todo o tipo de retoques estéticos e aulas para os novos artistas. Primeiro, são selecionados como trainees e, depois de alguns anos treinando, debutam em grupos prontos para fazer sucesso internacional — com cada um dos membros fluentes em uma língua diferente, por exemplo.

    Kim Dong Wan, um ex-membro do grupo Shinhwa disse no Instagram que os ídolos “lutam uma guerra consigo mesmos, testando quanto sofrimento podem aguentar para continuar trabalhando; tudo pelo bem que o dinheiro e fama podem proporcionar.”

    De “testes” do limite humano a preocupações estéticas, o Nexo lista algumas das principais imposições aos quais os artistas do K-pop são submetidos.

    Treinamento intensivo

    Com o sucesso do K-pop pelo mundo, muitos jovens romantizam a carreira dos grupos musicais. No entanto, para chegar ao posto de grupos como BTS ou BlackPink são anos de treino competindo contra centenas de outros trainees por poucas vagas. Com isso, a pessoa pode ficar até 10 anos antes de conseguir debutar. E se conseguir, já que as agências podem descartar o trainee se ele não se adequar mais aos padrões de uma estrela.

    Como ídolos com mais de 30 anos são considerados velhos, o processo com os trainees começa muito cedo. Assim, é comum que os pretendentes abandonem os estudos para se adequar a uma rotina de canto, dança, atuação e aprendizado de línguas que começa às 5 da manhã e pode passar da meia-noite.

    Fora a competição, erros durante os ensaios podem ser penalizados com violência física. E a repetição praticamente robótica, segundo Jay Park ex-membro do 2PM, “mata a paixão, criatividade e individualidade”.

    Quando estão prestes ou mesmo após debutar, os treinos se intensificam. Um dos casos mais famosos é o do grupo CandyPop, cujas integrantes foram obrigadas a vestir um saco de areia de 5 kg em torno de cada perna durante os ensaios para ficarem “mais leves” em apresentações.

    Obsessões estéticas

    Para parecerem perfeitos, vários ídolos são incentivados a passar por procedimentos cirúrgicos seguindo a ideia de que beleza física traz sucesso. E como as artistas são seguidas por milhões de pessoas, o poder de influência, inclusive servindo de garotas propaganda de algumas clínicas, é crescente para moças cada vez mais jovens.

    Além disso, os ídolos são obrigados a seguir dietas rígidas, especialmente antes de alguma performance. Algumas chegam a ser absurdas, como uma caixa de leite de soja por dia ou a “dieta do copo de papel”, que consiste em comer apenas o que cabe em um copo descartável para que nunca se fuja da proporção estabelecida.

    Agenda sobre-humana

    A rotina dos trainees é ampliada quando o grupo é formado, afinal, além dos treinos desgastantes, será preciso gravar álbuns e clipes, viajar em turnês, e divulgar o trabalho na mídia. Para não haver atrasos, os grupos vivem juntos em apartamentos próximos à agência, em cômodos apertados, quando não todos juntos em um mesmo quarto.

    Após longas horas diárias de atividade física submetidos a regimes de alimentação limitadíssimos, são comuns os casos de ídolos que desmaiam no meio de um show e precisam ser levados às pressas para o hospital. A agenda lotada em um mesmo dia também gera acidentes fatais no trânsito, com empresários já condenados por dirigir acima da velocidade.

    Contratos abusivos

    O cumprimento dessas agendas também é protegido por contrato. Prince Mak, ex-membro do JJCC afirmou que mesmo quando esteve com o pé quebrado ou com uma infecção no ouvido, ele precisou continuar performando, se apresentando em todos os shows, dando todas as entrevistas e participando de encontros com fãs: “não vi minha mãe por quatro anos.”

    Para evitar dispersões na rotina e manter o fascínio das fãs, os ídolos também são proibidos de assumir relacionamentos amorosos, sendo as vezes até impedidos de deixar o apartamento nas horas vagas. Um dos casais mais famosos foi HyunA e E'Dawn, que foram demitidos em agosto de 2018 após revelarem um namoro.

    E isso se estende a qualquer problema que possa afetar a imagem pública dos artistas e da empresa, como escândalos sexuais ou uso de drogas; ainda que nem sempre por motivação escusa. Em 2014, um ídolo foi afastado de aparições públicas depois que entrou no país com drogas. Mesmo explicando que elas tinham prescrição médica, no final do mesmo ano, seu grupo acabaria sendo desmembrado.

    O principal problema, no entanto, é financeiro. Se o artista não faz parte de uma das principais agências, o salário costuma voltar para a agência para custear alimentação, acomodação, treinos e outros gastos. Ou seja, abandonar a empresa antes do fim do contrato pode ainda gerar altas dívidas. E isso porque a fatia dos ganhos empresa / artista pode chegar a 90 / 10%, ainda dividida entre todos os membros do grupo.

    Falta de privacidade

    Como no Ocidente, é inevitável que as estrelas sejam muito visadas pelo público. Na Coreia, no entanto, isso atinge outros níveis com as fãs “sasaeng”, grupos compostos por meninas de 13 a 22 anos cuja obsessão já levou a prisões.

    Elas muitas vezes abandonam o colégio para acompanhar seus ídolos 24 horas diariamente. Há casos em que moças recorreram à prostituição para ganhar dinheiro e continuar sua perseguição. Instalar câmeras nas casas dos ídolos; hackear celulares das pessoas com quem eles conversam; invadir quartos de hotel para pegar lingeries; e atacar outros fãs que encostaram nos artistas são só alguns dos atos já atribuídos às “sasaeng”.

    Vida após a saída de um grupo

    A maior parte dos ídolos tenta continuar no mundo do entretenimento mesmo após deixar os grupos, seja cantando em carreiras solo, atuando ou apresentando programas televisivos. Outros voltam a estudar ou procuram trabalhos regulares.

    No entanto, como a qualificação acadêmica é normalmente baixa, parte caminha para um submundo, participando de jantares para “entreter” executivos ou de filmes eróticos com contratos também abusivos. E quando reconhecidas são ainda mais marginalizadas nas redes sociais.

    Como doenças mentais são discutidas na Coreia

    A Coreia do Sul tem as maiores taxas de suicídio dentre os países da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico). Em 2016, foi a maior causa de morte de pessoas entre nove e 24 anos. Ao mesmo tempo, é o que o menos usa antidepressivos.

    95%

    da população coreana é estressada. Um terço deles, em estado crônico

    28%

    da população idosa da Coreia é depressiva. Nos EUA, esse número cai para 10 a 15%

    Segundo o neurologista Ryu Sang-ho, a culpa é da sociedade coreana como um todo, que vê quem procura ajuda contra depressão como uma falha de caráter moral.

    “Muitas pessoas com problemas de saúde mental relutam em tomar remédios por medo de serem taxadas de ‘fracos’, afirma. Há também um fator de alta competitividade na Coreia especialmente entre os jovens pressionados a serem bem-sucedidos academicamente.

    Frente a esse cenário e aos suicídios de colegas da indústria, o grupo BTS advogou fortemente durante a turnê dos álbuns da série “Love yourself” (2017-18) pelo diálogo aberto.

    “Eu realmente quero dizer que todos no mundo estão sozinhos e tristes. Espero que nós possamos criar um ambiente onde possamos pedir ajuda, falar que as coisas são difíceis quando forem, e dizer que sentimos falta de alguém quando assim sentirmos”, afirmou um dos membros do grupo.

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