Por que mesmo na crise a bolsa de valores só registra alta

Índice Ibovespa segue trajetória de alta desde o início de 2016. O ‘Nexo’ conversou com economistas para entender o que está por trás do movimento

    A bolsa de valores atingiu um novo recorde na quarta-feira (4). O Ibovespa, principal índice da bolsa de São Paulo, subiu 1,23% no dia e fechou a sessão acima dos 110 mil pontos pela primeira vez na história. O movimento de alta da bolsa está inserido em uma trajetória que, entre uma oscilação e outra, teve início em 2016.

    Entre os motivos apontados como responsáveis pela mais recente alta, o principal é a possibilidade de acordo entre China e EUA, algo que poderia dar fim à guerra comercial travada entre as duas maiores economias do mundo. Além disso, os resultados do PIB brasileiro do terceiro trimestre e da produção industrial de outubro vieram acima do esperado pelo mercado, contribuindo com o clima positivo.

    Outro fator que ajudou a impulsionar o Ibovespa foi o bom desempenho da estatal Petrobras, motivado pelo aumento do preço do barril de petróleo e pela apresentação do plano de desinvestimentos, com redução de custos e vendas de ativos previstas para os anos de 2020 a 2024.

    Como funciona o índice

    O QUE É O IBOVESPA

    É um índice que reúne as principais ações da bolsa brasileira, um pacote de ações pensado para representar o mercado no Brasil. No final de 2019, são 68 empresas selecionadas, cada uma com peso diferente, de acordo com sua importância. As que têm mais peso no índice são Itaú, Vale, Petrobras e Bradesco. A composição do Ibovespa é reavaliada a cada quatro meses.

    O QUE É A PONTUAÇÃO

    Em 1968, quando se criou o índice com as empresas que na época eram as maiores da bolsa, estabeleceu-se que elas valiam 100 pontos. A partir desse número, o resultado foi variando de acordo com o desempenho das ações das empresas. Durante os anos 1980 e 1990, com a hiperinflação, foram feitos acertos no índice para que ele não fosse um número gigantesco.

    IBOVESPA NÃO É A BOLSA

    O Ibovespa é comumente usado como sinônimo da bolsa brasileira, mas é só um índice. A bolsa é compostas por mais empresas. Então, quando se diz que a bolsa subiu 1%, quer dizer que o valor do Ibovespa em pontos aumentou 1%. Saiu, por exemplo, de 100 mil para 101 mil pontos.

    A trajetória nos últimos anos

    O Ibovespa chegou aos 110 mil pontos pela primeira vez no início de dezembro de 2019, mas já está em alta contínua desde o início de 2016, quando o país enfrentava uma crise econômica e política que culminou, naquele ano, no impeachment de Dilma Rousseff e chegada do vice, Michel Temer, ao comando do Brasil.

    ALTA DESDE 2016

    Evolucao do Ibovespa, em pontos. Estável entre 2010 e 2015, alta desde 2016 até o final da série, no final de 2019

    Nos anos anteriores, o Ibovespa permaneceu estável, com exceção do período mais crítico da crise financeira de 2008. Entre 2010 e 2015, após a estabilização financeira, a bolsa teve uma trajetória de leve queda.

    Mas as coisas mudaram no início de 2016, quando o Ibovespa começou uma guinada para cima. Mesmo com as oscilações pontuais – normais para a bolsa de valores –, a trajetória nos últimos quatro anos é praticamente uma linha reta ascendente.

    Uma pessoa que comprou no começo de 2016 ações que renderam na mesma proporção do Ibovespa teve um rendimento nominal de 185%. Isso significa que para cada R$ 1 investido, ela ganhou R$ 1,85 a mais, além do retorno do próprio investimento original.

    Quando descontamos a inflação do período, vemos que o rendimento real de quem investiu no começo de 2016 foi de multiplicar o que investiu por quase 2,5. Nesse período, portanto, a bolsa rendeu bons retornos para quem pôs dinheiro em ações, mesmo se descontarmos a corrosão da inflação.

    Duas análises sobre a alta da bolsa

    O Nexo conversou com dois economistas para entender o que levou a bolsa a crescer por tanto tempo até chegar ao recorde atingido no final de 2019.

    • Giácomo Diniz, professor de finanças do Ibmec-SP
    • Rodrigo Lanna, professor de economia da Unicamp

    Por que a bolsa cresce praticamente sem parar desde 2016?

    Giácomo Diniz A primeira explicação é uma lenta mudança de expectativa. A segunda é o efeito substituição por conta da queda da taxa de juros.

    Temos que fazer uma retrospectiva econômica. Em 2016, a expectativa da economia como um todo estava muito ruim. Estávamos com inflação, juros e desempregos altos, e crescimento pífio. À medida que os agentes começaram a perceber um aumento na probabilidade de melhora, eles começaram a aumentar sua posição em renda variável.

    A primeira leva de investidores foi daqueles mais qualificados, que conseguem enxergar além da tempestade. E à medida que essas expectativas foram se consolidando, mais gente foi vindo para a bolsa.

    Mas creio que o ponto de mudança foi o momento em que os juros começaram a cair mais fortemente [virada de 2016 para 2017]. O brasileiro é uma pessoa que está acostumado com juros de 1% ao mês e agora não está ganhando quase nada [com juros], então está procurando investimentos mais rentáveis. Naturalmente a bolsa começa a entrar no radar.

    Rodrigo Lanna A bolsa começa a ter um movimento mais ascendente a partir de meados de 2016, com a entrada do governo Temer após o impeachment de Dilma. Em 2017 houve um ganho de cerca de 30%; em 2018, de pouco mais de 15%; em 2019, pouco mais de 20%. Ou seja, [houve] crescimento contínuo a partir de 2017.

    A questão que está por trás de tudo isso é que, mesmo com uma economia que não apresentava e não apresenta bons indicadores, o fator principal é a questão das expectativas. Em todo esse período, apesar de as projeções de crescimento irem diminuindo mês após mês ou semestre após semestre —, há um quadro em que os agentes de mercado visualizavam e visualizam ainda uma perspectiva de médio a longo prazo de melhora da economia. Esse é o fator principal que explica esse aumento contínuo do Ibovespa ao longo desses últimos anos.

    Por que o ponto de virada da bolsa foi justamente o início de 2016?

    Giácomo Diniz O primeiro [investidor] que vê é aquele que enxerga além da tempestade. Esse é o investidor internacional. Os primeiros que geraram a alta foram os investidores qualificados, internacionais. E depois eles foram substituídos pela pessoa física e investidores menos qualificados.

    Eles [os investidores internacionais] viram que a bolsa já estava no fundo do poço. Então a probabilidade de melhora daquele ponto em diante era maior do que a probabilidade de piora. Até mesmo que politicamente já havia um clamor por uma mudança de perfil. Isso também foi precificado.

    Rodrigo Lanna O que acontece é que há uma mudança de governo, de perfil de agenda econômica. Desde Temer, o governo aponta para uma agenda econômica marcada por privatizações, concessões, reformas e enxugamento do estado.

    Isso ganhou aderência diante dos agentes de mercado, que visualizaram isso com bons olhos. E forneceu as bases para uma expectativa de crescimento econômico no médio e longo prazo.

    Como a bolsa permaneceu em alta expressiva em um momento em que a economia brasileira tem caminhado a passos lentos?

    Giácomo Diniz Houve um efeito substituição. Na medida em que os estrangeiros viram que a recuperação estava indo muito mal, eles começaram a sair. Mas, por conta da queda dos juros, eles começaram a ser substituídos pelos investidores domésticos. O investidor doméstico não olha com tanto critério o crescimento [econômico] quanto os profissionais.

    De qualquer forma, a bolsa está precificando a melhora dos indicadores. A visão depende de uma visão de velocidade. Se olharmos os dados macroeconômicos do último ano, por exemplo, já houve melhora.

    Os dados macro estão melhorando devagar, mas os dados empresariais estão melhorando em uma velocidade melhor. Só que para que eles [os dados empresariais] continuem melhorando, é preciso haver melhora dos dados macro.

    Rodrigo Lanna Em primeiro lugar, precisamos entender que os preços que estão por trás no mercado de ação não se baseiam necessariamente pelo que a empresa apresenta hoje. E sim pela expectativa que os agentes de mercado colocam nelas amanhã. Então, se tenho uma empresa que tem boas expectativas, tem um bom apontamento para o futuro, é muito provável que o preço das ações cresça ao longo do tempo.

    O que se percebe é que nesse período [2016 a 2019] esses agentes, ao olharem a economia brasileira, pensaram: há um quadro de reformas, privatizações e enxugamento do Estado que é muito possível que ocorra, e isso muito provavelmente vai gerar crescimento econômico no médio a longo prazo. Portanto, essas expectativas de longo prazo levaram a esse crescimento do Ibovespa nestes anos.

    Associado a isso, observamos ao longo deste período uma queda muito forte no nível da taxa de juros. A Selic começa, no final de 2016, na casa dos 13,75% ao ano, e chega em 2019 com cenário de 5% para menos. Isso leva os investidores a olhar o mercado de renda fixa e pensar duas vezes antes de investir lá. Eles começam a migrar para a renda variável, que é o mercado de ações.

    O quadro de investidores da bolsa triplicou nos últimos três anos. Ainda que o brasileiro não tenha uma cultura de investimento em ações e uma porção pequena dos brasileiros invista em ação, o que percebemos é que tem havido uma migração para a renda variável por conta da queda das taxas de juros, o que favorece esse aumento da rentabilidade. Quanto maior a procura, maior a chance de haver elevação de preços.

    Qual a expectativa para a bolsa a partir de agora? Existe risco de queda ou a tendência é continuar em alta?

    Giácomo Diniz Do ponto de vista doméstico, temos que realmente ter uma materialização de crescimento econômico. Os resultados recentes das empresas de capital aberto melhoraram substancialmente. Esse é um ponto positivo.

    Se isso continuar, temos instrumentos para a bolsa continuar crescendo. O que poderia atrapalhar é termos uma redução na velocidade de melhora dos resultados das SAs [Sociedades Anônimas]. O mercado vai continuar acompanhando todas as entregas trimestrais. Enquanto estiver melhorando, está tudo bem. Se começar de forma combinada uma desaceleração – o PIB não decolar, o consumo não aumentar –, isso pode ser um problema.

    O que pode, eventualmente, afetar negativamente é o cenário externo. Sabemos que a questão entre EUA e China está caminhando, mas não está resolvida ainda. Se tivermos uma deterioração mais severa lá fora, isso certamente poderia impactar na bolsa aqui.

    Rodrigo Lanna Ao longo deste período [2016 a 2019], tudo era muito expectativa. Hoje, começamos a verificar alguns bons indicadores da economia, apesar, ainda, de haver uma taxa de desemprego muito elevada e de uma taxa de crescimento econômico que está aquém do que se esperava dois anos atrás.

    Os últimos indicadores do PIB deste terceiro trimestre superou as expectativas e o crescimento industrial de outubro também. Hoje, já se começa a ver um quadro de crescimento mais consistente da economia, apesar de vários outros indicadores sociais serem lastimáveis.

    Já há a efetivação de algumas expectativas que outrora estavam sendo formadas. E existem ainda algumas expectativas em relação à reforma administrativa, à reforma tributária, que ainda estão no radar desses agentes de mercado. No meu ponto de vista, avalio que ainda teremos um quadro de crescimento do Ibovespa ao longo de 2020, dado que é muito possível que tenhamos um quadro de crescimento econômico ao longo do ano.

    Mas há fatores que podem abalar isso. Existem questões importantes no mercado internacional, onde qualquer problema, especialmente em relação aos EUA, pode afetar aqui dentro. Então, por exemplo, se o acordo entre China e EUA não avançar, isso pode interferir aqui. E até mesmo condições políticas internas [podem impactar]. Se tivermos um quadro de deterioração da política interna em relação à não aprovação de algumas dessas medidas, e se isso trouxer para baixo as expectativas de crescimento econômico, isso poderá fazer com que o Ibovespa não tenha grandes avanços ao longo de 2020.

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