Os fãs que pagam milhares de reais em bonecos de luxo

Entusiastas encaram horas de filas e investem quantidades significativos de dinheiro nos itens colecionáveis com personagens de filmes, séries, games e quadrinhos

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    Em convenções de cultura pop, como a Comic Con Experience, realizada em São Paulo entre os dias 5 e 8 de dezembro, a paixão por séries, filmes, histórias em quadrinhos, games e desenhos animados está por todos os lados e se manifesta de diversas formas.

    É essa paixão que fez cerca de 120 pessoas se posicionarem em uma fila que começou cedo na quinta-feira (5), antes do sol raiar, às cinco horas da madrugada, em busca de action-figures – bonecos, para usar um termo simples, mas rejeitado por parte de seus entusiastas – e estatuetas, de seus personagens favoritos.

    Para além do tempo investido na espera para entrar no estande, que anualmente traz para a Comic Con Experience peças limitadas e exclusivas, é necessário fazer um investimento de dinheiro que pode ser significativo.

    Há bonecos em todas as faixas de preço. As miniaturas fabricadas pela empresa americana Funko custam cerca de R$ 100 e trazem versões caricaturizadas de personagens de filmes, séries de TV, HQs e videogames. Há também bonecos em uma faixa de preço intermediária. A Iron Studios, principal empresa nacional do ramo, tem diversas peças na casa dos R$ 600 a R$ 700. E, por fim, há os bonecos de luxo, que ultrapassam a casa dos milhares de reais.

    Um desses é uma réplica de Thanos, o vilão de “Vingadores: ultimato”, filme da Marvel que estreou em abril de 2019 e se consagrou a maior bilheteria de todos os tempos. A estatueta tem escala 1/4, com cada centímetro dela equivalente a 4 cm da criatura em tamanho real. Ela será lançada em meados de 2020, mas já pode ser reservada pelo valor de R$ 6.500.

    "Eu coleciono para ter coisas que me lembrem da época que eu era criança, coisas que fizeram parte da minha infância", afirmou ao Nexo Tatiane de Oliveira, analista de marketing natural da cidade de Campinas, no interior paulista. Ela chegou na fila ainda na madrugada.

    Oliveira estava na Comic Con Experience 2019 em busca de comprar estatuetas de Cable, um dos heróis dos X-Men, e de Apocalipse, um dos vilões do Superman. Ambas as peças tiveram uma fabricação limitada e eram exclusivas do evento – ao todo, o valor delas chega a R$ 1.368.

    Brendo Wesley, estudante universitário de Brasília, também chegou na fila na madrugada em busca das estatuetas de Cable e Apocalipse. Ele cita a nostalgia como um fator para ir atrás das action-figures. "Eu sempre gostei do Superman e dos X-Men, desde muito jovem", afirmou ao Nexo.

    A cultura do colecionismo

    No livro "Cultures of Collecting“ (Culturas do Colecionismo, em tradução livre), Roger Cardinal e John Elsner, professores de História da Arte nas Universidades de Kent e Oxford, ambas no Reino Unido, afirmam que o colecionismo surge do instinto natural do ser humano em criar métodos, sistemas que classificam as posses acumuladas.

    Cardinal e Elsner afirmam que a figura de Noé, presente no Antigo Testamento da Bíblia, pode ser considerada um caso extremo de colecionismo, já que, de acordo com a mitologia cristã, ele precisou reunir dois espécimes de cada espécie animal que existia na época.

    Analisando os mecanismos psicológicos da prática, Werner Muensterberger, professor de psicologia na Universidade de Basileia, na Suíça, concluiu que o colecionismo, de qualquer tipo de objeto, começa ainda na infância, como uma forma da criança exercer alguma forma de controle no mundo externo, se atraindo por determinados tipos de objeto e coletando-os.

    Apesar do evidente consumismo presente em diversos tipos de coleção, incluindo as action-figures, Muensterberger afirma no livro "Collecting: an unruly passion" (Colecionar: uma paixão desregrada, em livre tradução) que a prática surge de uma ligação emocional profunda entre o colecionador e o tipo de objeto que será colecionado – uma das definições da palavra "objeto“ no dicionário Littré da língua francesa é "tudo aquilo que é causa, sujeito e motivo de um sentimento, de uma paixão".

    Segundo Muensterberger, tal ligação se transforma em um impulso de acumulação, satisfação pela aquisição e desejo de exibir tudo o que foi colecionado até o momento.

    O fenômeno do colecionismo não é recente. Os tesouros de faraós do Antigo Egito e as bibliotecas da Antiguidade já demonstram o impulso do ser humano em colecionar. Na contemporaneidade, o colecionismo apenas tomou outras formas, seguindo tendências culturais das épocas recentes, em diferentes esferas do conhecimento e da produção artística.

    No livro "O sistema dos objetos", o filósofo francês Jean Baudrillard afirma que o colecionismo parte do princípio da atribuição de significados aos objetos, que deixam de ser um artefato meramente produzido por uma estrutura tecnológica e passa a ter um sentido que surge das experiências pessoais e da cultura na qual o colecionador se insere.

    Esses novos significados acentuam as paixões envolvidas entre o colecionador e o objeto colecionado, motivando a presença deles em longas filas e um investimento que, para os menos familiarizados, pode parecer apenas um luxo descabido e exorbitante.

    A história dos bonecos de luxo

    O mercado dos bonecos de luxo de personagens da cultura pop tem raízes na década de 1970. Em 1977, chegou aos cinemas "Star Wars", filme de George Lucas que seria uma revolução dentro do entretenimento de massa. À época, uma diversidade de bonecos com personagens do longa começaram a pipocar pelos EUA e, posteriormente, em outros países.

    Esses bonecos não contavam com muitos detalhes, e eram vendidos a preços módicos em grandes lojas de varejo. Isso mudou a partir do ano de 1994, quando duas empresas surgiram nos Estados Unidos: a McFarlane Toys e a Sideshow Collectibles.

    A McFarlane Toys foi fundada pelo quadrinista Todd McFarlane, a principal figura na editora Marvel durante a década de 1990. Em 1994, ele estava negociando um contrato com a fabricante de brinquedos Mattel para a produção de bonecos baseados em seus personagens. Ambas as partes não conseguiram chegar a um acordo em relação à qualidade das peças, e McFarlane acabou criando sua própria empresa.

    A Sideshow foi fundada em 1994 e desenvolvia peças para empresas como a Mattel e a Wild Planet. Em 1999, seus fundadores lançaram uma própria linha de bonecos colecionáveis, desenvolvidos e fabricados por eles. A partir de 2000, uma terceira empresa ganhou proeminência nesse mercado: a chinesa Hot Toys.

    As três fabricantes investiram, desde o começo, em produtos para adultos, produzindo bonecos altamente detalhados que, muitas vezes, têm quantidades limitadas, o que torna o preço deles mais elevado.

    As três fabricantes trabalham licenciando as propriedades intelectuais diretamente com estúdios, canais de TV, editoras e desenvolvedoras de games, lançando anualmente peças com personagens das obras mais populares do momento.

    Os cuidados e os leilões

    Para os colecionadores, há uma série de hábitos e cuidados para se preservar as action-figures e estatuetas, de luxo ou não. Parte da comunidade compra as peças e não chega a abrir a caixa já que danificar a embalagem desvaloriza os bonecos que, no fim das contas, são peças de arte.

    Outro hábito presente dentro da comunidade é a iluminação especial para a preservação das peças, já que exposição à luz do sol e raios ultravioleta podem danificar a pintura das action-figures.

    No mundo dos leilões de action-figures raras, os valores podem ultrapassar as centenas de milhares de dólares. Em outubro de 2019, uma casa de leilão americana colocou o protótipo de um boneco de Boba Fett, um dos personagens de "Star Wars", à venda. Os lances ultrapassaram os US$ 146 mil.

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