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Por que os dados econômicos do governo estão em xeque

Erro da Secretaria de Comércio Exterior leva a desconfiança do mercado. O ‘Nexo’ ouviu um economista para entender as consequências da mudança

    A Secretaria de Comércio Exterior do Ministério da Economia anunciou em 28 de novembro uma revisão dos números da balança comercial brasileira para aquele mês. A mudança nos valores foi expressiva – quase de US$ 4 bilhões – e transformou o saldo das primeiras quatro semanas do mês de negativo para positivo.

    A justificativa oficial apresentada pela secretaria foi de que houve um erro humano no momento da transmissão dos dados. A falha teria ocorrido por um descumprimento das recomendações pelo Serpro (Serviço Federal de Processamento de Dados) no momento da coleta de dados de exportações enviados por empresas. O erro atingiu somente as exportações, sem haver necessidade de revisar os números das importações.

    Conforme apurou o Financial Times, o erro levou agentes do mercado a desconfiarem da credibilidade dos dados econômicos brasileiros. O jornal britânico mostrou que a reputação de transparência e precisão dos números divulgados pelo governo brasileiro pode ter sido abalada.

    A aparente deterioração das contas externas brasileiras havia sido apontada como um dos fatores por trás da alta histórica atingida pela cotação do dólar no final de novembro. A moeda americana ultrapassou a marca dos R$ 4,20. Analistas ouvidos pelo Financial Times apontaram que o erro da Secretaria de Comércio Exterior pode ter levado investidores a tomarem decisões que resultaram em perdas.

    A revisão da balança

    O primeiro resultado divulgado para as primeiras quatro semanas de novembro era de que as exportações tinham atingido o valor de US$ 9,7 bilhões. Mas a revisão adicionou US$ 3,8 bilhões a esse número, levando o resultado a ser de US$ 13,5 bilhões.

    VENDAS BRASILEIRAS AO EXTERIOR

    Exportações nas primeiras quatro semanas de novembro. Antes da revisão era pouco menos de 10 bilhões de dólares. Depois, mais de treze.

    O novo valor foi alto o suficiente para reverter o quadro inicial apresentado da balança comercial brasileira. Se antes os números mostravam que as importações haviam superado as exportações, os dados novos mostram o contrário. O saldo passou de um deficit de US$ 1,1 bilhão para um superavit de US$ 2,7 bilhões.

    SALDO BRASILEIRO

    Balança comercial nas primeiras quatro semanas de novembro. Saldo negativo antes da revisão, positivo depois.

    Após a revisão feita sobre o mês de novembro, a Secretaria de Comércio Exterior divulgou que as exportações de setembro e outubro também foram corrigidas. Ao todo, o resultado dos três meses aumentou significantemente, com a maior discrepância concentrada em novembro.

    US$ 6,5 bilhões

    foi o aumento no valor conjunto das exportações de setembro, outubro e novembro após a revisão da Secretaria de Comércio Exterior

    Outro fator que levou à desconfiança sobre os dados foram os números do setor externo divulgados pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) na conta do PIB (Produto Interno Bruto) do terceiro trimestre. Segundo contabilizado e divulgado pelo instituto, houve uma redução considerável das exportações entre julho e setembro de 2019, na comparação com o trimestre anterior. É o terceiro trimestre consecutivo de queda registrada nas exportações.

    2,8%

    foi a queda nas exportações no terceiro trimestre de 2019, segundo o IBGE

    O número do IBGE vai na contramão da própria revisão feita pela Secretaria de Comércio Exterior, que indica que o resultado das exportações foi mais positivo do que se esperava.

    A balança comercial nos indicadores econômicos

    A balança comercial é o saldo de todos os bens que são exportados e importados por um país. As exportações são contabilizadas com sinal positivo, uma vez que representam a entrada de dinheiro do exterior; da mesma forma, por indicarem a saída de recursos, as importações são computadas com saldo negativo.

    As exportações e importações de um país entram na conta do PIB. Isso porque a compra e venda de produtos do exterior retratam a relação comercial mantida com outros países. As importações refletem a demanda nacional por bens estrangeiros e as exportações refletem a demanda internacional por bens locais. Dessa forma, um erro no cálculo das exportações pode indicar um crescimento diferente do correto, distorcendo o resultado do PIB.

    A balança comercial também é uma parte importante do balanço de pagamentos, que soma todas as entradas e saídas de dinheiro (dólares) de um país. No balanço de pagamentos, além da balança comercial, são computados investimentos estrangeiros e prestação de serviços de firmas de fora. Se a balança comercial está equivocada, isso afeta o cálculo da entrada e saída de dólares do país.

    A revisão da balança sob análise

    O Nexo conversou com Carlos Cabral, professor de economia da PUC-SP, para entender os efeitos da revisão feita pela Secretaria de Comércio Exterior.

    A explicação oficial dada pelo Ministério da Economia é que o problema na balança comercial foi causado por um erro na transmissão dos dados à Secretaria de Comércio Exterior. Na sua visão, essa justificativa faz sentido? A que se deve essa discrepância de dados?

    CARLOS CABRAL Me parece que a desculpa não é cabível. Tanto é que isso tem gerado uma apreensão no mercado, e ontem mesmo uma matéria do Financial Times questionou a credibilidade dos dados a respeito da economia brasileira, o que é muito perigoso e muito ruim. Agora, a versão oficial que nós temos é essa e ponto.

    A revisão das exportações foi de setembro, outubro e novembro, sendo que em novembro foi um dado bastante exorbitante, de mais de US$ 3 bilhões. Causa estranheza, sim, mas, por enquanto, paro por aí. Fato é que a versão oficial não conseguiu suprir esse erro.

    O episódio pode afetar a credibilidade dos dados econômicos brasileiros?

    CARLOS CABRAL Com certeza. Como é uma coisa pontual, acredito que seria precipitado considerar como sendo um problema generalizado. Se essa situação perdurar e tivermos outras revisões, com certeza vai gerar um problema de credibilidade nos dados da economia brasileira – o que, diga-se de passagem, é um problema que afeta muitos países do mundo e é um grave problema.

    A perda da credibilidade de dados econômicos costuma ser um sinal forte de perda de credibilidade de governos em países em crise de legitimidade, como ocorre na Venezuela e como já ocorreu na Argentina. Até que ponto o episódio indica um risco semelhante no Brasil?

    CARLOS CABRAL Isso também chegou a ocorrer com o Brasil na década de 1980. Ainda é precipitado colocarmos no mesmo patamar. Temos que aguardar novos fatos da economia brasileira para ver se de fato foi algo pontual ou se vai ser um problema com o qual tenhamos que nos acostumar. Aí sim, a coisa muda de patamar e começamos a entrar no rol desses países citados.

    Por enquanto, enxergamos como um problema pontual, mas que, no mínimo, merece mais atenção do governo do ponto de vista das explicações dadas. Ele [o governo] foi muito sucinto na explicação, pouco detalhado.

    É normal que os dados econômicos sejam revisados no Brasil? Há antecedentes de revisões e disparidades tão fortes entre os números?

    CARLOS CABRAL Temos que colocar em dois patamares. Uma coisa é a revisão da metodologia de cálculo das contas nacionais. Por exemplo, os índices de inflação, como o IPCA, que é o índice oficial que o governo utiliza para o sistema de metas de inflação. Periodicamente, a metodologia de cálculo desse índice é revisada, o que é normal. Assim como o cálculo do PIB, que recebe ajustes do IBGE de tempos em tempos. E esses ajustes são normais: são situações de revisão em virtude de um aperfeiçoamento da mensuração das contas nacionais.

    Outro problema é não haver revisão metodológica e haver ajuste os dados. Esse é um problema gravíssimo. O que aconteceu nos dados das exportações se encaixa neste segundo caso. Foi um erro interno que não tem a ver com a mudança metodológica, e é aí que causa apreensão. As mudanças metodológicas, via de regra, são esperadas pelo mercado, o que não foi o caso deste acontecimento a respeito das exportações.

    É com certeza excepcional, estranhíssimo. Principalmente pelo vácuo de informações deixado pelo Planalto.

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