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Quais são as acusações de corrupção contra a oposição venezuelana

Dois escândalos colocam Guaidó na defensiva e reavivam divisões antigas entre opositores de Maduro

    Dois casos de corrupção revelados no mês de novembro fizeram a oposição venezuelana passar do papel de acusadora a acusada. Os casos envolvem pelo menos nove parlamentares da linha de frente de oposição ao presidente Nicolás Maduro.

    O primeiro caso diz respeito à ação de parlamentares opositores para livrar empresários de um processo de investigação sobre superfaturamento na venda de alimentos ao longo dos últimos anos. O segundo trata de desvio de doações colhidas pela oposição para uma operação humanitária, em fevereiro de 2019.

    A revelação dos dois escândalos tem duas consequências imediatas. A primeira é desacreditar a oposição e fortalecer Maduro. A segunda é exacerbar as divisões que sempre existiram dentro da oposição venezuelana, e que agora ressurgem com força redobrada.

    Maduro foi reeleito presidente em 20 maio de 2018 e tomou posse em 10 janeiro de 2019. A vitória eleitoral, no entanto, é contestada pela oposição, que acusa o presidente de fraude e de perseguição a adversários políticos.

    O presidente da Assembleia Nacional, Juan Guaidó, foi proclamado presidente interino por seus pares em 23 de janeiro de 2019, e reconhecido como tal por um grupo de mais de 50 países. Maduro não reconhece a autoridade de Guaidó, e vice-versa. A Venezuela vive, desde então, um impasse que agrava ainda mais a crise econômica e humanitária instalada no país.

    Tráfico de influência e corrupção

    O primeiro caso veio a público a partir de uma reportagem publicada pelo site venezuelano Armando.info. De acordo com o site, nove parlamentares, membros dos partidos Avanço Progressista, Primeiro Justiça, Novo Tempo e Vontade Popular – este último, partido de Guaidó – intercederam em favor de empresários acusados de corrupção.

    Esses parlamentares – a maioria, membros da Comissão de Controle, que é responsável pela fiscalização dos gastos públicos – fizeram contatos com os governos dos EUA, da Colômbia e da União Europeia para proteger o empresário colombiano Carlos Lizcano.

    Esse empresário é acusado de superfaturar a compra de alimentos usados no principal programa de distribuição de itens de cesta básica à população pobre da Venezuela, os chamados Clap (Comitês Locais de Abastecimento e Produção).

    Lizcano é dono da Salva Food. De acordo com o site Armando.info, ele agia como testa de ferro de outros dois empresários colombianos, Álvaro Pulido e Alex Saab – ambos acusados na Justiça americana de lavagem de dinheiro.

    Os parlamentares em questão mandaram mensagens pedindo que Lizcano fosse poupado das acusações no exterior. A revelação levou a renúncias e expulsões dos parlamentares envolvidos na ação, no domingo (1º). Guaidó apressou-se a condenar a prática, mas o estrago estava feito. Desde fevereiro, ainda antes do episódio, ele perdeu 20 pontos de aprovação, de acordo com o instituto Datanalisis. Hoje, 42% dos venezuelanos dizem apoiar Guaidó.

    Desvio de ajuda

    O segundo caso foi revelado por Humberto Calderón Berti, que vinha exercendo o papel embaixador de Guaidó em Bogotá, na Colômbia – um cargo diplomático não reconhecido pelo governo de Maduro.

    Berti convocou a imprensa para dizer que apoiadores de Guaidó desviaram recursos que haviam sido doados para uma operação dita humanitária, que pretendia fazer entrar alimentos na Venezuela pela fronteira com a Colômbia e o Brasil.

    O episódio ficou conhecido como 23F, em referência à data em que aconteceu, o dia 23 de fevereiro de 2019. Nesse dia, a oposição concentrou caminhões com mantimentos na fronteira, que foram impedidos de entrar pela polícia leal a Maduro.

    A operação já havia sido criticada por agências internacionais, dado o caráter político do evento que dizia ser humanitário. Agora, Berti conta que parte do dinheiro arrecadado para o 23F foi gasto “com prostitutas e bebidas”.

    Essas acusações deram ainda mais munição para uma parcela da oposição venezuelana que discorda de Guaidó, e que considera que é necessário radicalizar ainda mais as ações.

    Um dos expoentes dessa oposição mais radical é o coletivo Rumbo Verdad (Rumo Verdade), que critica tanto Maduro quanto Guaidó, e que é visto como um grupo oportunista e de esquerda - posicionamento que não é assumido por seus integrantes. Apesar disso, líderes do Rumbo Verdad vêm sendo recebidos há meses por membros do governo Jair Bolsonaro, no Brasil.

    O mandato de Guaidó, como presidente da Assembleia Nacional, termina no dia 5 de janeiro. Em dezembro de 2020, há novas eleições parlamentares no país. Parte da oposição quer participar da eleição, e parte da oposição quer boicotá-la.

    É nesse cenário de divisão interna que a oposição venezuelana se vê golpeada não apenas por Maduro, mas também por casos de corrupção.

    Antes disso, a Justiça venezuelana abriu em setembro uma investigação contra Guaidó, depois que surgiram votos do deputado ao lado de conhecidos membros de cartéis colombianos de tráfico de drogas.

    Guaidó teria contado com a ajuda deles para transitar na fronteira entre a Colômbia e a Venezuela no 23F. O líder opositor diz, no entanto, que tirou fotos com muitas pessoas naquele dia e não sabiam dos antecedentes de cada uma dela.

    João Paulo Charleaux é repórter especial do Nexo e escreve de Paris

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