Ir direto ao conteúdo

O que o PIB do 3º trimestre diz sobre a recuperação da economia

Investimento, serviços e indústria são os destaques dos números divulgados pelo IBGE. O ‘Nexo’ ouviu de especialistas o que os resultados indicam sobre a retomada após a crise

    O PIB (Produto Interno Bruto) do Brasil cresceu 0,6% no terceiro trimestre de 2019, em relação ao trimestre anterior, divulgou o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) na terça-feira (3).

    O PIB é o resultado da soma de todos os novos bens e serviços produzidos no país em certo período. Por ser um indicador do quanto e como a economia produziu no determinado período observado, o PIB aponta se a economia se expandiu, encolheu ou se manteve igual na comparação com outros momentos. Em sua metodologia, o IBGE contabiliza apenas os produtos finais, para evitar contagem dupla de valores.

    Até agora em 2019, o PIB teve pouca variação: cresceu pouco menos de 1% até setembro. No primeiro trimestre de 2019, o resultado foi basicamente de manutenção do mesmo nível do final de 2018 – na prática, um pouco abaixo. No segundo trimestre do ano, o crescimento foi de 0,5%, ritmo parecido ao observado agora.

    RECUPERAÇÃO LENTA

    Crescimento trimestral do PIB brasileiro. Positivo, mas ainda abaixo de 1%

    O crescimento de 0,6% da economia entre julho e setembro foi superior ao esperado pelo mercado, onde a média da expectativa era de crescimento de 0,4%. Os principais destaques dos resultados do PIB do terceiro trimestre de 2019 foram o aumento do investimento na comparação com o mesmo período do ano anterior, e o crescimento da indústria, que veio pelo segundo trimestre consecutivo.

    Mais investimentos e demanda privada

    O crescimento do PIB no trimestre foi puxado pela demanda privada. Do ponto de vista do consumo das famílias, houve um aumento de 0,8% em relação ao segundo trimestre e de 1,9% em relação ao terceiro trimestre de 2018.

    O governo, por sua vez, gastou menos entre julho e setembro do que entre abril e junho. Como um todo, a queda dos gastos públicos foi de 0,4% na comparação entre esses dois momentos.

    Já o investimento – computado pelo IBGE como “formação bruta de capital fixo” – teve alta de 2% na comparação com o trimestre anterior. Mas a série que mais se destacou foi a que compara o investimento no trimestre com o mesmo período do ano anterior.

    Nessa ótica, o investimento chegou ao oitavo trimestre consecutivo de crescimento. Isso ocorre após uma sequência de catorze trimestres seguidos de encolhimento – três anos e meio, entre 2014 e 2017.

    Na comparação com o acontecia antes da crise, o investimento segue em um nível baixo, mas está consolidado em uma trajetória levemente positiva.

    RETOMADA GRADUAL

    Evolucao do investimento no Brasil desde 2013. 14 periodos consecutivos de queda forte entre 2014 e 2017, seguidos de 8 trimestres de leve alta

    A situação da indústria e dos outros setores

    O setor que mais cresceu no terceiro trimestre de 2019 foi o de agropecuária, com avanço de 1,3% em relação ao segundo trimestre. O setor de serviços também cresceu, com 0,4% de avanço, puxado por comércio, atividades financeiras e pela área de informação e comunicação, que abarca empresas de telecomunicações e informática.

    CRESCIMENTO POR SETOR

    Variacao por setor no terceiro trimestre de 2019. De maior para menor: agropecuaria, industria, servicos

    A indústria, por sua vez, cresceu 0,8% no trimestre, em comparação ao trimestre anterior. A alta marca o segundo semestre consecutivo de aumento da atividade industrial, algo que não ocorria desde o final de 2017.

    ALTAS CONSECUTIVAS

    Crescimento trimestral da industria.  Resultados pouco expressivos, mas primeira sequencia de dois trimestres positivos desde 2017

    O crescimento não foi simétrico dentre as diferentes atividades da indústria. O setor de extração teve destaque ao crescer 12% no período – melhor resultado para um trimestre desde o final de 2003. A alta se deve à recuperação da mineração após a tragédia ocorrida em Brumadinho em janeiro de 2019.

    Além disso, o setor de construção civil avançou 1,3%, mantendo a tendência de crescimento observada no segundo trimestre do ano. Já as indústrias de transformação e o segmento que reúne eletricidade, gás, água, esgoto e atividades de gestão de resíduos encolheram cerca de 1%.

    Duas análises sobre o PIB do terceiro trimestre

    O Nexo conversou com dois especialistas sobre a leitura que pode ser feita da economia no terceiro trimestre e sobre a inserção do atual cenário no quadro de crise.

    • Guilherme Mello, professor de economia da Unicamp
    • Carlos Lopes, economista do Banco Votorantim

    Até que ponto o resultado do PIB do terceiro trimestre pode ser considerado um passo em direção à recuperação econômica? É possível afirmar que o Brasil superou a crise?

    Guilherme Mello ​​​A crise que a gente está vivendo tem diferentes fases. Em 2015 e 2016 houve uma grande recessão. E a partir de então, em 2017, 2018 e 2019, o que vemos é uma lentíssima recuperação, o que é uma coisa muito rara na história. Geralmente depois de grandes recessões há uma rápida recuperação. No caso brasileiro, esse cenário de grande recessão somado a lentíssima recuperação – uma semi estagnação – cria um cenário que pode ser chamado de depressão. O Brasil está em depressão há pelo menos cinco anos.

    Os resultados de agora do PIB repetem uma trajetória que vemos desde 2017. Se olharmos o PIB em 2017 e 2018, ele cresceu 1,3%; o acumulado no ano [de 2019] muito provavelmente vai repetir esse resultado, o que confirma esse cenário de semi estagnação que estamos chamando aqui de depressão.

    Quando você olha os últimos dois trimestres em particular, há uma pequena aceleração do crescimento. Ela está puxada por vários fatores. Um deles (e muito importante) é o que chamamos de base de comparação. Se eu ganho 100 reais por mês e tenho um aumento salarial de 10 reais, meu salário aumentou 10%. Se eu ganho mil reais por mês e ganho os mesmos 10 reais de aumento salarial, meu salário só aumentou 1%. Então a base inicial [que era baixa] importa muito para entendermos essa taxa de variação. Algumas coisas que às vezes parecem muito dinâmicas não o são na realidade.

    Outra coisa que chama atenção é a qualidade desse crescimento. Mesmo pequeno, esse crescimento tem uma qualidade bastante frágil. Ele é baseado em um nível muito baixo e concentrado em alguns setores menos intensivos em tecnologia, que geram empregos de pior qualidade. É um crescimento lento em um cenário de depressão, o que para o trabalhador, particularmente, não é uma boa notícia. Isso também preocupa.

    Carlos Lopes Depende do que você entende por superar a crise. Eu diria que ainda estamos longe da normalidade. Se você olhar o PIB em nível de produção, estamos produzindo algo pŕoximo ao que produzíamos em 2012. Ainda estamos abaixo da média de 2014, no período pré-crise. Então nesse sentido não dá para dizer que a crise foi superada, porque ainda não recuperamos o nível de produção anterior.

    Mas já é possível começar a afirmar que sim no sentido de superar o período de estagnação. Este PIB foi importante para consolidar um processo de recuperação. Até agora, víamos uma atividade em recuperação em ritmo moderado – foi o que vimos nos últimos dois anos. Mas era muito irregular, oscilando e com uma dificuldade muito grande de consolidar de fato uma tendência de aceleração da economia.

    Tivemos um impacto negativo grande do lado do consumo público – o governo ainda está dificultando um pouco essa retomada, dada a contração fiscal. Há também o setor externo, onde tivemos uma contribuição negativa importante. Mesmo assim, com essas duas contribuições negativas, tanto o consumo quanto o investimento sustentaram essa recuperação. Do lado da produção, vimos um crescimento da agricultura, indústria e serviços.

    Para o ano que vem [2020], temos [no Banco Votorantim] uma projeção de 2% [de crescimento do PIB], que não é tão animadora como algumas outras pessoas do mercado têm, de 2,5% ou acima. A razão por essa cautela é o setor externo.

    Quanto às políticas do governo Bolsonaro, é fundamental que tenhamos um ambiente de recuperação de confiança, que é o que tem ocorrido. Acho que as reformas que vieram sendo feitas desde o governo Temer mas agora também no governo Bolsonaro são importantes para garantir essa base de estabilização na expectativa da economia. As reformas que já foram feitas são suficientes para que tenhamos um crescimento razoável.

    O que explica o oitavo período consecutivo de alta do investimento, na comparação ano com ano?

    Guilherme Mello Um dos pontos que explica é exatamente o nível muito baixo [de comparação]. Quando o nível do investimento é realmente muito baixo, qualquer pequena variação aparece como uma taxa de crescimento razoavelmente alta.

    Um segundo fator importante são os setores de petróleo e de construção civil. O setor de petróleo e gás está ligado muito à Petrobras, que, pelo menos até 2016 e 2017, ficou totalmente no olho do furacão da Lava Jato; travada. Ela também tinha endividamento maior, e agora começa a retomar alguns investimentos no setor de petróleo e gás. Isso é uma coisa que puxa a taxa de investimento porque a Petrobras sempre foi uma empresa muito importante para explicar investimento no Brasil.

    Há também a questão da construção civil, que começou a mostrar sinais de recuperação, muito pelo deslocamento da riqueza para fundos imobiliários. Quem tinha investimentos em títulos públicos colocou uma parte deles em fundos imobiliários, porque os títulos públicos estão rendendo pouco hoje em dia. E esses fundos imobiliários se valorizam e passam a demandar novos empreendimentos. É um determinante quase financeiro puxando a demanda por construção civil.

    Agora, mesmo essa demanda não é uma coisa muito significativa, porque as obras de infraestrutura ainda estão muito lentas. O investimento em infraestrutura está em um nível historicamente muito baixo, e é o que realmente aceleraria mais rapidamente construção civil.

    Carlos Lopes O que explica isso na verdade é a própria queda que o investimento teve. Olhando só investimentos, ainda estamos bem abaixo do nível pré-crise, mesmo com essa recuperação de 8 trimestres seguidos. É natural, assim como tivemos vários trimestres consecutivos de contração, termos agora essa recuperação linear do investimento.

    Como podemos enxergar a alta observada na indústria?

    Guilherme Mello A indústria tem esse padrão que é um pouco preocupante. Se olhar a participação da indústria manufatureira no PIB, ela é a menor em décadas, e vem em queda. A indústria manufatureira é importante porque ela é o tipo de produção industrial que gera melhores empregos, que absorve melhor avanços tecnológicos, que demanda serviços mais sofisticados, que faz mais inovação e pesquisa etc. Ela é, digamos assim, o setor mais dinâmico da indústria.

    O que compensou é justamente a indústria extrativa – mineração, petróleo e gás. E essa indústria extrativa é muito competitiva no caso do Brasil, mas é um setor menos intensivo em tecnologia, que gera menos empregos (em particular a mineração, com empregos de pior qualidade).

    O padrão de crescimento industrial vem confirmando uma tendência que estamos vendo há algum tempo de reprimarização. O país fica mais desindustrializado; serviços e agricultura crescem mais que indústria, então a participação relativa da indústria no PIB cai. Mas mais do que desindustrialização: o que sobrou de indústria é cada vez mais extrativo, primário, o que é uma característica de países subdesenvolvidos. Quando olhamos a qualidade do crescimento, o caso da indústria é muito preocupante.

    Algo similar acontece nos serviços. O que cresce acaba sendo comércio, serviços de baixa qualificação e baixa produtividade. Cresceu, mas quando olhamos a qualidade, preocupa.

    Carlos Lopes Dentro da indústria, tivemos uma alta importante da indústria extrativa, recuperando as quedas que tivemos no primeiro e segundo trimestre, com Brumadinho. Já retomamos o nível pré-Brumadinho; esse evento na indústria extrativa ficou para trás.

    Do outro lado, tivemos também uma recuperação na construção civil, que é um setor de destaque na economia. Falando setorialmente, há o impacto positivo da construção civil, inclusive na parte dos serviços com o reflexo nas atividades imobiliárias e aluguel.

    É um setor que está tendo um impulso importante para a economia neste momento, também porque sofreu muito no passado e agora está recuperando mais rápido, similar ao investimento. O destaque negativo acaba sendo o consumo do governo que caiu. Isso também tem um reflexo em serviços de administração pública, como saúde e educação, que também recuaram bem nesse trimestre.

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa Equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project. Saiba mais.

    Mais recentes

    Você ainda tem 2 conteúdos grátis neste mês.

    Informação com clareza, equilíbrio e qualidade.
    Apoie o jornalismo independente. Junte-se ao Nexo!