Como o Pisa revela uma década de estagnação do ensino no Brasil

Embora o país tenha obtido leve melhora em relação à edição de 2015, notas de 2018 em áreas de aprendizagem não apresentaram evolução em dez anos. Nexo ouviu dois especialistas em educação sobre o resultado do exame

    As notas do Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes) de 2018 divulgadas na terça-feira (3) revelam que, na última década, o Brasil ficou estagnado nas últimas posições em leitura, matemática e ciências, áreas de aprendizagem avaliadas pelo exame. A mais recente edição da prova foi aplicada a alunos de 15 anos em 79 países. Nas três disciplinas, o Brasil ficou abaixo da média dos participantes.

    O Pisa é feito a cada três anos, desde 2000, pela OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico). Em 2018, foram avaliados 37 países-membros da organização e 42 parceiros, entre os quais o Brasil, que participou de todas as edições desde a sua criação.

    Ao longo de duas décadas, as notas do país só apresentaram evolução significativa até 2009, no período que vai do final do governo de Fernando Henrique Cardoso (PSDB) até o segundo mandato de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Depois, nas gestões de Dilma Rousseff (PT) e Michel Temer (MDB), as pontuações não tiveram alterações significativas do ponto de vista estatístico, segundo a própria OCDE.

    Embora as notas dos estudantes brasileiros tenham apresentado uma leve melhora em relação à última edição, de 2015, elas são praticamente idênticas às de 2009. O Brasil obteve em 2018 413 pontos em leitura (contra 407 em 2015), 384 em matemática (ante 377 edição anterior) e 404 em ciência (401, três anos atrás). Não existem notas mínimas e máximas, e a escala é definida em cada edição. A prova classifica os estudantes em seis diferentes níveis de aprendizado a partir da distribuição das pontuações.

    A China foi o país que obteve as melhores notas nas três disciplinas (555 em leitura, 591 em matemática e 590 em ciência). O Pisa avaliou as províncias de Pequim, Xangai, Jiangsu e Zhejiang. Outros territórios chineses, como Macau e Hong Kong, foram avaliados separadamente por terem administração própria e alguma autonomia.

    Pelo fato de o Pisa trabalhar com amostras da população e haver uma margem de erro diferente para a pontuação de cada um dos países, a posição do Brasil no ranking pode variar. Em leitura, o país fica atrás de mais de 50 países, e em ciência, abaixo de ao menos 65. Em relação à matemática, está no grupo dos dez últimos colocados.

    Como foi feita a prova

    O Pisa é um exame amostral. Em 2018, cerca de 600 mil estudantes de 79 países fizeram a prova. No Brasil, ela foi realizada em maio por 10.691 alunos de escolas públicas e privadas nascidos em 2002.

    Os participantes estavam matriculados a partir do sétimo ano do ensino fundamental (até o terceiro ano do ensino médio) e tiveram até duas horas para responder questões de múltipla escolha e dissertativas.

    Também preenchiam um questionário sobre a vida escolar, familiar e as experiências de aprendizagem. Diretores, professores e pais dos alunos também responderam questionários. O Pisa tem como objetivo verificar se as escolas estão preparando os estudantes para a vida adulta de forma adequada, e não se eles assimilaram os conteúdos ensinados.

    O teste de leitura, matemática e ciências é respondido diretamente no computador, nas próprias escolas do estudantes. Em 2018, 638 colégios realizaram a prova, para até 33 estudantes por unidade de educação. A amostra foi definida pelo Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira), órgão ligado ao Ministério da Educação, que é responsável pela aplicação do Pisa no Brasil.

    68,3%

    dos estudantes brasileiros que participaram do Pisa em 2018 estudavam na rede estadual de ensino, segundo o Inep

    15,6%

    dos participantes estavam matriculados em escolas particulares

    13,7%

    foi a proporção de alunos da rede municipal que fizeram a prova

    2,5%

    estudavam em colégios federais

    Em cada edição, uma das áreas é enfatizada. O foco em 2018 foi em leitura, que por isso teve mais perguntas. Em 2018, pela segunda vez, os estudantes brasileiros também responderam sobre letramento financeiro, que avalia a capacidade de lidar com situações envolvendo dinheiro e investimentos.

    A fala do ministro

    Durante um evento em Brasília, em novembro, o ministro da Educação, Abraham Weintraub, chegou a afirmar que o Brasil estaria no último lugar da América do Sul. “Eu diria que tem uma grande probabilidade da gente estar figurando nas últimas posições dependendo da categoria. Estou supondo com base em números robustos”, disse.

    Ele atacou os governos petistas pelo resultado nas avaliações anteriores e prometeu que o governo de Jair Bolsonaro irá melhorar a qualidade da educação brasileira para as próximas avaliações. “Infelizmente, não vamos conseguir atingir ao final do seu segundo mandato patamares como Coreia, mas vamos colocar sim a educação do Brasil em primeiro lugar na América Latina”, afirmou.

    O Pisa traz dados sobre seis países sul-americanos. Em leitura, o Brasil superou Colômbia, Argentina e Peru. Em ciência, empatou com Argentina e Peru entre os últimos, e em matemática, ficou à frente apenas da Argentina. O Chile é o país mais bem-avaliado entre os vizinhos brasileiros em ciência e leitura e é superado em apenas um ponto pelo Uruguai em matemática.

    A divulgação do resultado do Pisa tem colocado os ministros em situação delicada. Em 2015, Mendonça Filho, que à época comandava a pasta, afirmou que os resultados representavam uma “tragédia”.

    “E confirma exatamente o diagnóstico que fizemos, desde o início da nossa gestão, de que, apesar de termos multiplicado por três o orçamento do Ministério da Educação, em termos reais, o desempenho ficou estagnado ou até retrocedeu, como é o caso específico de matemática”, disse, na época.

    Na terça-feira (3), após a divulgação dos dados, Weintraub também falou em “tragédia” e disse que a culpa pelo desempenho do Brasil era “integralmente do PT” e da “doutrinação esquerdófila sem compromisso com o ensino”. Segundo ele, os governos anteriores queriam “discutir sexualidade”, mas não “ensinar a ler e escrever”.

    O que diz o Pisa 2018

    Metade abaixo da média mínima

    A prova classifica os estudantes em seis níveis de proficiência em cada uma das três áreas (leitura, matemática e ciência). Os resultados de 2018 revelam que apenas 2% dos brasileiros alcançaram os maiores níveis de proficiência (5 e 6) em ao menos uma disciplina (a média da OCDE é de 16%). Já 43% dos alunos no Brasil ficaram abaixo da média mínima da prova (nível 2) nas três disciplinas. Isso significa que não conseguem identificar a ideia principal de um texto, resolver problemas com números inteiros e entender um experimento científico simples. Em média, apenas 13% de todos os estudantes ao redor do mundo que prestaram a prova ficaram nessa situação.

    Aumento do fosso em leitura

    Em 2009, a distância entre os alunos com as melhores notas e os com as piores em leitura foi de 84 pontos (era de 87 na média da OCDE). Já na edição de 2018, o fossos entre os dois grupo pulou para 97 pontos (enquanto a média da OCDE ficou em 89 pontos). Dentro do grupo que obteve um quarto das melhores notas, apenas 10% são estudantes com os níveis socioeconômicos mais baixos (a média da OCDE é de 11%). No grupo dos estudantes com o desempenho mais alto em leitura, 6% eram de alunos com maior nível socioeconômico e nenhum com baixo nível.

    Aumento de alunos sem prejudicar nota

    Ao tornar a educação básica obrigatório, o Brasil teve uma expansão entre 2000 e 2012 no número de estudantes cursando o ensino médio. Por isso, o percentual de alunos representados pelas amostras do Pisa pulou de 55% (2003) para 65% (2018). Segundo a OCDE, o país foi um dos que conseguiu aumentar a quantidade de estudantes de 15 anos matriculados nas escolas sem que a média na prova caísse.

    A concentração de alunos

    Os estudantes com os melhores níveis socioeconômicos têm maiores chances de se concentrarem em certas escolas, o que sinaliza para a existência de “ilhas de excelências” na educação. Já os estudantes com status socioeconômico mais baixo têm apenas 18% de chance, em média, de estarem matriculados nas escolas daqueles que pertencem ao grupo que obteve 25% das melhores notas em leitura (a média é de 17% na OCDE).

    Meninas são melhores em leitura

    As meninas superam os meninos em leitura por 26 pontos (enquanto a média da OCDE é de 30 pontos). Já em matemática, a vantagem dos meninos é de nove pontos em relação às meninas (a média da OCDE é de cinco pontos). Em ciência, os dois grupos têm desempenho similar. Na média da OCDE, as meninas superam levemente os meninos por dois pontos.

    Educação superior

    Entre os alunos com baixo nível socioeconômico, 10% dizem não esperar concluir o ensino superior. Apenas 4% têm essa expectativa no grupo dos estudantes com maiores níveis socioeconômicos. Entre os alunos com alto desempenho em matemática e ciência, um em cada três meninos diz esperar trabalhar como engenheiro ou em outra profissão ligada à ciência quando adulto. Já entre as meninas, dois quintos dizem que vão trabalhar na área da saúde (enquanto um quarto dos homens pretende atuar na mesma área).

    Bullying nas escolas

    Cerca de 29% dos estudantes disseram ter sofrido bullying algumas vezes no mês, enquanto a média entre os países da OCDE foi de 23%. A maioria dos alunos (85%) concorda que é positivo ajudar colegas que não conseguem se defender sozinhos.

    O silêncio em sala de aula

    Cerca de 41% dos estudantes brasileiros disseram que na maioria das aulas de língua os professores têm que aguardar por muito tempo para que a sala fique em silêncio. Os que descreveram que essa situação é frequente em suas escolas obtiveram 19 pontos a menos em leitura dos que os que reportaram que isso nunca ou raramente acontece.

    Entusiasmo dos professores

    A maioria dos estudantes brasileiros (83%) afirmou que seus professores demonstram alegria ao ensinar. A média é de 74% nos países da OCDE. Na maioria dos países, incluindo o Brasil, alunos obtêm melhor desempenho quando percebem maior entusiasmo e interesse dos professores no assunto.

    Duas análises sobre os dados do Pisa

    O Nexo ouviu dois especialistas em educação para discutir o resultado da prova de 2018.

    • Gregório Grisa, doutor em educação e professor do IFRS (Instituto Federal do Rio Grande do Sul).
    • Camila Pereira, diretora de educação da Fundação Lemann.

    Como explicar essa estagnação em uma década?

    GREGÓRIO GRISA As análises dos resultados do Pisa precisam ser precedidas de inúmeros alertas relativos aos limites que as avaliações em larga escala têm de captar plenamente e detalhadamente a qualidade da educação. O Pisa é feito em uma idade específica, os países participantes variam, as amostras dentro dos países também variam, toda comparação tem de ser cautelosa.

    A perspectiva de estagnação pressupõe que se estaria analisando sempre a mesma coisa, em proporção, quantidade e qualidade. O Brasil tinha uma taxa de escolarização líquida no ensino médio em 2009 (50%) diferente dos que chegavam em 2018 (68%). Com mais alunos, manter a qualidade é sempre desafiador, portanto, a estagnação pode ser relativizada de alguma forma. Dito isso, mesmo que 22% dos estudantes que fizeram a prova em 2018 estivessem no ensino fundamental, a maioria estava na etapa do ensino médio que realmente se mostra mais desafiadora. O Ideb [Índice de Desenvolvimento da Educação Básica] também indica que não se conseguiu avanços na aprendizagem como no fundamental.

    O Brasil nunca conseguiu promover uma ação coordenada para oferta do ensino médio. Internamente, temos realidades muito diferentes. Quando pensamos na implementação do Plano Nacional de Educação anterior e do vigente, falamos de algo que não foi perseguido em conjunto pelas gestões dos três entes federados, e que em grande medida virou letra morta da lei. Ainda não há políticas públicas articuladas. Questões estruturais também não foram encaminhadas: 1) valorização docente e maior atratividade da carreira, para que mais jovens com bom desempenho no ensino médio queiram ser professores; 2) uma rigorosa formação para a profissão (hoje mergulhada de forma perigosa na oferta de ensino a distância).

    A aprendizagem depende muito da qualidade dos anos iniciais do ensino fundamental. Temos casos de sucesso no Brasil nessa fase, mas a desigualdade ainda é muito forte, basta olhar os indicadores das redes federais e particular em comparação com as outras. Outro aspecto a se salientar é que o investimento por aluno no Brasil é em média três vezes menor do que a média da OCDE. Esperar que iremos nos aproximar desses países em avaliações como essas é ingenuidade.

    CAMILA PEREIRA Os países que estão no topo do ranking do Pisa e os países que estão melhorando muito nos últimos anos têm um ponto em comum: apostam numa agenda sistêmica e integrada, com foco total na aprendizagem. Ou seja, um conjunto de políticas e ações que estão alinhadas entre si e que focam na sala de aula. O Brasil demorou bastante para ir nessa direção, mas deu um passo muito importante com a Base Nacional Comum Curricular. É uma política nacional, que foca totalmente no que os alunos devem aprender e a partir da qual o Brasil poderá alinhar outras políticas como formação de professores, materiais didáticos e avaliações. Se bem implementada, tem o potencial de nos ajudar a deixar pra trás essa estagnação.

    Quanto tempo é necessário para sair desse patamar? E qual seria o papel do Ministério da Educação nisso?

    GREGÓRIO GRISA As mudanças em educação são lentas, geracionais. Envolvem esforços combinados, diretividade política e técnica, investimento e elaboração de políticas que ao mesmo tempo acolha e dê suporte prático e teórico para os profissionais da educação, defina metas e exija resultados factíveis. Tudo o que o governo não conseguiu apresentar este ano, inclusive conforme relatório da comissão de avaliação externa do MEC formada por diferentes deputados.

    A comparação mesmo com os países vizinhos não me parece que deva ser a prioridade, muito menos querer ser o melhor em uma prova específica, que é importante, mas não pode definir toda e qualquer ação educacional. Do contrário, corremos o risco de desenvolver uma fixação por indicadores a ponto de fazermos “qualquer coisa” para alcançá-los. A educação brasileira tem problemas de fundo, de infraestrutura, de gestão, de investimento. Ela não está alheia a nossa profunda desigualdade social e ao nosso histórico recente de universalização do acesso à escola.

    O peso do MEC é enorme, a União precisa aumentar seu investimento na educação básica, precisa coordenar políticas cientificamente embasadas e politicamente construídas, não impostas. Infelizmente, não temos visto que esse caminho está sendo trilhado. As universidades federais, que são parceiras estratégicas dessa construção, estão sendo tratadas como inimigas, e a prevalência de polêmicas tangenciais marcam essa gestão.

    CAMILA PEREIRA Uma transformação sistêmica não acontece no curtíssimo prazo e, por isso, é importante que ela seja consistente e sobreviva a diferentes governos. E isso aconteceu nos países que vão bem na Ásia, Chile, Portugal e Peru, para citar alguns exemplos. No nível dos estados e municípios, temos exemplos importantes de redes no Brasil que conseguiram transformações profundas, com ganhos expressivos em períodos relativamente curtos, de quatro anos. É possível fazer e há exemplos disso. O MEC, sem dúvida, é essencial para que essa transformação aconteça em escala nacional, especialmente num país com as dimensões do Brasil e desigualdades de recursos e capacidade técnica que ainda observamos. Não há como 5.500 municípios fazerem esse salto sozinhos. As políticas de estímulo ao professor, de formação, de currículo coerente dependem bastante do governo federal.

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