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Quais os impactos regionais da vitória da direita no Uruguai

Chegada de Lacalle Pou ao poder move pêndulo econômico e ideológico no continente, com consequências que vão além do pequeno país ao sul do Brasil

    O Uruguai é o segundo menor país da América do Sul – à frente apenas do Suriname –, mas o resultado de sua eleição presidencial, realizada no dia 24 de novembro, provoca um impacto que vai muito além de seu pequeno território.

    O novo presidente, Luis Lacalle Pou, teve sua vitória confirmada na quinta-feira (28), pela Corte Eleitoral. A margem sobre o adversário Daniel Martínez foi tão apertada, de cerca de 1%, que obrigou os órgãos eleitorais do país a fazerem uma recontagem de parte dos votos, o que retardou em quatro dias a confirmação do resultado final.

    Proclamada a vitória de Lacalle Pou, a direita, que passou 15 anos na oposição, pôde enfim comemorar a volta à Praça da Independência, onde fica a sede da Presidência, no centro antigo de Montevidéu. Em discurso neste sábado (30), o presidente eleito disse estar orgulhoso da tranquilidade que permeou os dias que antecederam o anúncio da sua vitória e clamou por unidade nacional. A posse será no dia 1º de março.

    Do lado contrário, o candidato governista, Daniel Martínez, aceitou a derrota, felicitou o vencedor e anunciou um encontro entre ambos. O clima amistoso – mesmo com a incerteza e a tensão da recontagem de votos – contrastou com os violentos distúrbios que marcam a política de países vizinhos, como Venezuela, Chile, Bolívia, Equador e Peru, recentemente.

    O Uruguai terá papel importante no destino de alguns desses países. Independentemente de seu tamanho territorial, de sua população (a terceira menor do continente) e de sua economia (o nono PIB entre 12 países), o Uruguai terá um voto, assim como todos os outros países, na hora de pressionar por soluções políticas em impasses intrincados que vêm marcando o momento político na região.

    O caso da Venezuela

    O primeiro item da pauta política internacional do novo presidente será a Venezuela. Até agora, uruguaios e mexicanos faziam um papel de contenção às ideias mais radicais de intervenção estrangeira no impasse instalado entre o presidente venezuelano, Nicolás Maduro, e o líder da oposição, Juan Guaidó.

    Ambos clamam ser presidentes legítimos do país – Maduro por ter vencido a eleição de maio de 2008 e Guaidó por considerar que a eleição foi fraudada portanto cabe a ele, como presidente da Assembleia Nacional, assumir interinamente o cargo (ainda que a própria legitimidade da Assembleia, presidida por Guaidó, também seja questionada por Maduro).

    A principal pressão regional sobre a Venezuela vem do Grupo de Lima, que apóia Guaidó contra Maduro. O grupo foi criado em agosto de 2017 e é formado originalmente por 12 países das Américas. Sob a presidência de Tabaré Vázquez, o Uruguai não reconheceu a reivindicação presidencial de Guaidó até agora, mas a posição tende a mudar com Lacalle Pou no poder.

    “Vamos chamar os ditadores de ditadores, sem contemporizar” disse Lacalle Pou no discurso da vitória deste sábado (30), ao falar das relações exteriores do país.

    O Grupo de Lima espera que o novo governo uruguaio some esforços no reconhecimento da legitimidade do líder opositor venezuelano e contribua para o isolamento cada vez maior de Maduro. Essa mudança de rumo contribuiria para os interesses dos líderes regionais que têm interesse de tirar Maduro do poder a qualquer custo.

    O pêndulo ideológico sul-americano

    Uma possível mudança de postura em relação à crise venezuelana seria resultado de um movimento ideológico mais amplo que marca a troca de poder no Uruguai, à medida que a esquerda dá lugar à direita.

    Essa pendulação ideológica também ocorre em outros países da região. Depois de um longo período de hegemonia de governos de esquerda, no início dos anos 2000, a América do Sul passou a ver a ascensão, em seguida, de diversos presidentes de direita, e até de extrema direita, como no caso de Jair Bolsonaro no Brasil.

    Embora seja considerada obsoleta ou acessória por alguns cientistas políticos, essa divisão entre direita e esquerda ainda pesa no discurso dos próprios governantes sul-americanos. A região foi profundamente marcada pelas disputas da Guerra Fria (1945-1991) e o processo de redemocratização vem sendo pautado muitas vezes por reedições dessas divisões ideológicas persistentes.

    Em março, o presidente chileno, o direitista Sebastián Piñera, lançou uma iniciativa sul-americana chamada Prosul (ou Prosur, em espanhol). A ideia é substituir a Unasul, lançada em 2008 por uma maioria de governos de esquerda na região. Nessa nova união, o protagonismo maior é de Piñera e de Bolsonaro, além do presidente da Colômbia, Iván Duque; do presidente do Paraguai, Mario Abdo Benítez e, agora também do presidente do Uruguai, Lacalle Pou, todos ligados à direita.

    Do lado oposto, os presidentes de esquerda – como o recém eleito Alberto Fernández, na Argentina – aglutinam-se ao redor de uma iniciativa mais ampla, que também inclui ex-ministros, artistas e escritores, chamada Grupo de Puebla, que tenta reorganizar um setor ideológico autodenominado “progressista”.

    A defesa da democracia

    Embora Lacalle Pou seja um presidente de direita, economicamente liberal e com uma agenda diferente da esquerda que governou o Uruguai por 15 anos, ele vem reafirmando o compromisso com a alternância política, a estabilidade e o respeito à democracia em seu país.

    Essa reafirmação de princípios, que poderia parecer redundante ou desnecessária anos atrás, tornou-se relevante num contexto em que o Brasil, país mais influente da região, é governador por políticos que frequentemente mencionam o risco de reedição de medidas repressivas do tempo da ditadura militar, como o AI-5, que, em 1968 praticamente tornou ilegal qualquer dissidência aos militares no governo.

    Lacalle Pou diz e dá mostras de querer se afastar dessa corrente. O exemplo mais claro apareceu ainda durante a campanha eleitoral uruguaia, em outubro, quando ele recusou o apoio público dado por Bolsonaro – percebido como uma ingerência indevida em assuntos internos. “O Uruguai, por sorte, não decide o que os brasileiros pensam, decide apenas o que acontece e do que precisam os uruguaios”, afirmou.

    Em seguida, já no segundo turno, quando o general uruguaio reformado Guido Manini Ríos divulgou em suas redes um vídeo pedindo que os eleitores não votassem na esquerda, Lacalle Pou disse que “coisas assim não podem ocorrer no Uruguai”.

    A preocupação em preservar a institucionalidade e a democracia veio não apenas de Lacalle, mas também do rival dele, Daniel Martínez. Depois de reconhecer a derrota numa apuração lenta e cheia de expectativa, o candidato governista publicou no Twitter a seguinte mensagem: “Seguiremos defendendo a democracia com mais força que nunca.”

    João Paulo Charleaux é repórter especial do Nexo e escreve de Paris

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