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Por que o Irã vive a maior onda de protestos desde 1979

Manifestantes saem às ruas contra aumento da gasolina, mas movimento cresce e passa a pregar o fim do regime dos aiatolás

    Pelo menos 180 pessoas foram mortas em duas semanas no Irã desde que teve início uma onda de protestos contra o governo do presidente Hassan Rohani.

    As manifestações tiveram como mote inicial o rechaço a um aumento de US$ 0,50 no preço da gasolina, anunciado no dia 15 de novembro, e rapidamente se alastraram por todo o país, expandindo a pauta para assuntos diversos, ligados à corrupção, ao desemprego e ao custo de vida.

    Em algumas marchas, manifestantes pedem o fim do regime que governa o país desde a Revolução de 1979, o que representa a maior afronta ao sistema teocrático iraniano em 40 anos.

    Há relatos de que forças leais ao governo dispararam armas de fogo contra multidões. O país é fechado, sem imprensa livre, e os relatos que emergem são incertos e carentes de confirmação. O jornal americano The New York Times afirma que, na cidade de Mahshahr, no oeste do Irã, a polícia cercou e disparou contra um grupo de manifestantes, matando entre 40 e 100 pessoas de uma vez.

    Grupos da sociedade civil que se opõem ao governo iraniano e que realizam seu trabalho de monitoramento com base no exterior afirmam que o número de feridos passa de 2.000 e o de presos, de 7.000, segundo os relatos colhidos até agora. Alguns relatos chegam a afirmar que há 450 mortos no país.

    “O uso de força letal contra a população no país não tem precedentes, mesmo comparando com os recordes de violência do governo do Irã”

    Omid Memarian

    diretor do Centro para os Direitos Humanos no Irã, baseado em Nova York, em entrevista ao The New York Times

    Protestos anteriores

    Embora o Irã viva sob um regime teocrático e fechado desde 1979, o país já vivenciou ondas de manifestações semelhantes no passado recente, embora não da mesma envergadura.

    Em 2009, por exemplo, 72 pessoas foram mortas numa onda de protestos que contestavam a reeleição do então presidente Mahmoud Ahmadinejad.

    O cenário, desta vez, é agravado ainda mais pelo fato de o presidente americano, Donald Trump, ter imposto uma série de sanções e embargos à economia iraniana. A rodada mais recente de punições teve início em 2017, como forma de pressão diante da retomada do programa atômico do Irã e o rompimento do acordo que havia sido firmado com os EUA e potências europeias em 2015, ainda durante o mandato de Barack Obama.

    Protestos em outros países

    As manifestações no Irã são concomitantes com outros movimentos semelhantes na região do Oriente Médio. O principal deles ocorre desde o dia 1º de outubro no vizinho Iraque, onde, no domingo (1º), o parlamento local aceitou a renúncia do primeiro-ministro Adel Abdul Mahdi.

    Irã_Iraque

    No Iraque, uma das causas dos protestos é justamente a interferência que o governo iraniano exerce no país. Há hoje pelo menos 125 mil milicianos iranianos presentes no Iraque, e muitos membros do atual governo são ligados ao regime iraniano por afinidades políticas, econômicas e religiosas.

    Além do Irã e do Iraque, também ocorreram no mês de outubro protestos no Líbano, onde a população começou a sair às ruas depois que o governo decidiu cobrar um imposto pelo uso do aplicativo de mensagens WhatsApp.

    Além das manifestações de rua, a região do Oriente Médio convive com conflitos armados em andamento na Síria, no Iêmen e em Israel, em relação aos territórios palestinos ocupados.

    Resposta dura

    No caso iraniano, a resposta aos protestos têm sido duras. O regime depende do estrito controle sobre a população para seguir existindo nos moldes atuais.

    Embora o país seja presidido por um líder eleito, Hassan Rohani, quem tem o poder de fato é o aiatolá Ali Khamenei, que dirige tanto assuntos de ordem política quanto religiosa.

    O Irã tem uma arquitetura intrincada de poder, com representantes eleitos e indicados. Todo o sistema, no entanto, obedece ao “líder supremo do Irã”, que é também a maior autoridade clerical do país.

    O aiatolá culpa agentes externos, ligados aos EUA, tanto pelo bloqueio econômico ao país quanto pelas manifestações de rua, que desafiam o poder central.

    A mídia estatal diz que 50 bases militares iranianas foram atacadas por manifestantes, em protestos que se espalharam por 29 das 31 províncias do país.

    O xiismo e a estabilidade da região

    O Irã é a maior potência xiita do mundo. O xiismo é uma corrente do islã fundada ainda no século 7, após a morte do profeta Maomé. Ela difere da corrente sunita por uma questão interna da religião – os dois blocos divergiam à época sobre quem deveria levar adiante o islamismo depois da morte do seu fundador.

    Sunitas e xiitas disputam poder e influência no Oriente Médio. Nesse sentido, o maior adversário dos iranianos na região é a Arábia Saudita, país governado por uma corrente fundamentalista do sunismo, e que também é o maior aliado dos EUA na região.

    O Irã busca aumentar sua capacidade de influência municiando grupos armados na Síria, no Iraque, no Líbano e no Iêmen. A Arábia Saudita faz o mesmo no sentido contrário. A desestabilização iraniana interessa, portanto, a muitos atores regionais, e especialmente ao atual governo americano.

    João Paulo Charleaux é repórter especial do Nexo e escreve de Paris

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