Ir direto ao conteúdo

Como o emprego (e a falta dele) afetam a saúde mental, segundo este livro

Pesquisa lista sintomas relacionados ao trabalho, que vão da insegurança à ansiedade em corresponder a expectativas sociais. O ‘Nexo’ conversou com o orientador do estudo sobre o assunto

No livro “Trabalho e sofrimento psíquico”, publicado em novembro de 2019, os pesquisadores Thatiana Cappellano e Bruno Carramenha mostram que não é só o fato de estar empregado ou não que gera prejuízos à saúde mental.

Na pesquisa, feita a partir de encontros, entrevistas e questionários online com cerca de 800 pessoas, os autores identificaram uma série de transtornos que transcendem a segurança com o emprego.

O principal dado levantado é que, para 78% dos entrevistados, o trabalho contribui ou contribuiu para o surgimento de algum tipo de doença. Dentre as mulheres negras entrevistadas, o percentual é ainda maior: 85% fizeram a afirmação.

Segundo 75% dos entrevistados, o trabalho é causa de sintomas como ansiedade, estresse, dor nas costas, desânimo e algo apresentado como “Síndrome do Fantástico”, a tristeza e desânimos presentes nas noites de domingo, próximo ao horário que o programa da TV Globo é exibido.

A pesquisa também apontou que todos os grupos de entrevistados se sentem obrigados a criar um “semblante do trabalho”, uma máscara social para lidar com o emprego — ou a falta dele.

Aqueles que estão afastados do trabalho por motivo de saúde sentem que precisam provar constantemente que estão doentes, se privando de uma vida social, temendo o rótulo de “vagabundos”. Já grande parte dos desempregados relatou que procura mostrar o tempo todo que está em busca de recolocação no mercado.

Segundo o estudo, os semblantes sociais são criados como uma forma de corresponder às próprias expectativas, às da família e de outros círculos sociais.

Para entender melhor os efeitos do emprego e do desemprego na saúde mental dos trabalhadores, o Nexo entrevistou Ruy Braga, chefe do Departamento de Sociologia da USP e orientador da pesquisa de Cappellano e Carramenha.

A pesquisa apontou que a falta de trabalho causa sofrimentos psíquicos, mas demonstrou que a presença do trabalho também é fonte de ansiedade e depressão. Por que isso acontece? O que há em comum nos efeitos que essas duas situações distintas têm nas pessoas?

O mercado de trabalho brasileiro está passando nos últimos anos, desde 2015 principalmente, por um momento de mudanças agudas, relacionadas ao aumento do desemprego e da informalidade.

Naturalmente, a questão da insegurança do trabalho assume um plano saliente na vida de todo mundo, e isso até mesmo em quem tem um trabalho formal. Mesmo quem está empregado, está empregado em condições que causam sofrimento psíquico, porque esses trabalhadores vivem sob a pressão do possível desemprego e da deterioração das condições de trabalho.

É um momento em que temos uma desconstrução da proteção do trabalho que produz uma generalização da insegurança social, que por sua vez repercute no indivíduo através dessa ideia da angústia, do sofrimento e do adoecimento geralmente ligado à condições psicológicas.

E os desempregados, os desocupados, os desalentados e os informais também estão em um contexto de aguda transformação e de desconstrução da proteção do trabalho, e se sentem muito fragilizados, individualmente falando, e consequentemente isso repercute na saúde mental de cada um deles.

Os que têm emprego se sentem fragilizados e inseguros, e os que não têm emprego estão expostos de uma maneira mais clara às formas de violência social e simbólica relacionadas ao trabalho.

De acordo com a pesquisa, o trabalho e a falta dele causam mais sofrimento em mulheres negras. Como os efeitos na saúde mental variam entre grupos diferentes, e por quê?

RUY BRAGA Historicamente, as mulheres e as mulheres negras são colocadas no interior da classe trabalhadora nos setores mais submissos, submetidos às condições mais extremas de dominação e de exploração.

É natural que o aumento da insegurança se distribua de forma desigual e atinja mais fortemente aqueles que se encontram em situações mais precárias de trabalho, que no caso do mercado de trabalho brasileiro são as mulheres, que historicamente recebem menos, encontram-se em posições subalternas, não alcançam níveis superiores de qualificação, vivem sob diversas formas de segregação e de discriminação.

Algumas empresas ao redor do mundo estão realizando experimentos para a adoção de novos modelos de trabalho que fogem das tradicionais 40 horas semanais. Como você avalia essas iniciativas para se repensar o trabalho?

RUY BRAGA Não temos um problema de falta de trabalho. É evidente que tem trabalho, ainda mais numa sociedade como a brasileira que é carente em trabalho, com muita gente procurando emprego.

Uma das questões é a diminuição da jornada de trabalho sem a diminuição do salário. Temos que criar empregos a partir de um processo de redistribuição do emprego existente. E também temos que ter políticas públicas focadas na garantia do emprego.

O Estado tem que garantir o emprego. Em vez de isentar empresas do pagamento de imposto, é necessária a criação de um fundo público para que o Estado, em articulação com governos estaduais e municípios, possa desenvolver políticas públicas de assalariamento direto de quem está disponível e quer trabalhar. Isso seria uma forma de abrir frentes de trabalho, que vão desde a limpeza pública até construção civil, investimento em infraestrutura e serviços. Seriam políticas de garantia de emprego, que serviriam como uma espécie de seguro.

A reestruturação do trabalho é uma questão que precisamos debater. São três frentes: ciência e educação, partilha do trabalho e garantia do trabalho. Assim podemos reconstituir o mercado de trabalho, deixando ele mais estruturado, mais civilizado e ao mesmo tempo apostando no aumento da produtividade como uma saída para a crise do emprego.

Até que ponto os efeitos do trabalho nos funcionários são responsabilidade de empresas e empregadores? Como políticas públicas podem contribuir para mitigar os problemas de saúde mental causados pelo trabalho?

RUY BRAGA A melhor maneira de mitigar o adoecimento, o sofrimento psíquico e a angústia é aumentando a segurança do emprego.

Historicamente, o Brasil tem uma economia muito marcada pela informalidade. A informalidade gera insegurança de renda e de emprego. Por isso, precisamos de políticas públicas capazes de dar conta da formalização da informalidade, que pode vir pela contratação com algum nível de proteção, pela regularização de pequenos negócios, ou de qualquer forma que garanta uma renda mínima para esses setores que hoje estão na informalidade. Essa é a melhor maneira de lidar com a insegurança.

Já no mercado de trabalho formal, que no Brasil também é marcado por inseguranças, você tem que ter uma atuação mais efetiva por parte do Estado. Você tem que ter uma lei contra a demissão imotivada. As empresas não podem ajustar suas contas prioritariamente, ou exclusivamente, sobre os ombros de quem trabalha. É necessária uma atuação mais forte do poder público e da legislação brasileira, com maneiras de coibir esses altos índices de rotatividade.

Sem uma decisão muito clara do Estado no sentido de enfrentar a insegurança, não há forma de mitigar o adoecimento psíquico e o sofrimento. A não ser por políticas da área de saúde pública, que tendem a diminuir, mas não solucionar os problemas.

Um estudo da consultoria Oxford Economics de junho de 2019 apontou que cerca de 20 milhões de trabalhadores do mundo todo podem ser substituídos por robôs até 2030. Quais podem ser os efeitos desse cenário de automação em massa na saúde mental de trabalhadores?

RUY BRAGA No caso brasileiro, é evidente que não devemos subestimar o impacto que a automação vai causar, em especial nas atividades repetitivas em setores de serviços.

Mas eu diria que na realidade brasileira, pelo fato do mercado ser muito informal, das empresas não terem um comportamento de investimento em tecnologia, o efeito da automação no emprego vai ser menor do que em países mais desenvolvidos.

Aqui no Brasil, as empresas tendem a atrasar, a protelar o investimento mais massivo em tecnologias, porque aqui o trabalho é muito barato e é muito flexível. Vivemos num país em que ainda hoje existem cobradores de ônibus, uma ocupação que do ponto de vista tecnológico já poderia ter sido eliminada há muitos anos, mas que continua por aí como uma ocupação comum no sistema de transporte público.

O atraso da economia brasileira acaba fazendo com que a adoção de tecnologias mais desenvolvidas tenham um atraso. Mas isso é mais um problema do que uma solução, porque tende a reproduzir ocupações e funções que são pouco produtivas e pouco qualificadas, o que por sua vez tende a reproduzir segregações, baixos salários e outras dominações do mercado de trabalho.

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa Equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project. Saiba mais.

Mais recentes

Você ainda tem 2 conteúdos grátis neste mês.

Informação com clareza, equilíbrio e qualidade.
Apoie o jornalismo independente. Junte-se ao Nexo!