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Como músicos tentam reduzir o impacto ambiental de sua atividade

Bandas e festivais adotam maneiras de reduzir o impacto ambiental de deslocamento de bandas e público em turnês, abastecimento de energia de casas de show e outros aspectos

    As bandas Massive Attack e Coldplay, ambas inglesas, vêm se mobilizando para reduzir significativamente as emissões de carbono de suas atividades.

    Em uma entrevista publicada pela BBC em 21 de novembro de 2019, Chris Martin, vocalista do Coldplay, declarou que a banda não sairá em turnê de seu novo álbum, “Everyday Life”, até que seja capaz de realizar apresentações neutras em emissões de carbono.

    Atividades humanas emitem grande quantidade de gases formadores do efeito estufa, entre eles o gás carbônico, que causam um desequilíbrio na composição da atmosfera, a camada gasosa no entorno da Terra. Ela é importante porque regula as condições do clima e, consequentemente, afeta a vida na Terra.

    “O mais difícil é a parte de voar [de avião]. Mas, por exemplo, nosso sonho é fazer um show sem plásticos de uso único, e que seja alimentado principalmente com energia solar”, disse.

    Já o Massive Attack adotou outra estratégia: anunciou uma parceria com pesquisadores da Universidade de Manchester, que tem por objetivo mapear por completo a pegada de carbono de uma turnê.

    O Tyndall Centre for Climate Change Research irá analisar dados do cronograma de gravações e shows da banda, dimensionando as emissões de carbono em três áreas chave: produção e viagens da banda, transporte do público e locais de shows.

    O resultado será um “roteiro para a descarbonização”, a ser compartilhado com outros atores do setor, e que auxilie na redução imediata e expressiva das emissões.

    Ao jornal The Guardian Chris Jones, pesquisador do Tyndall Centre, declarou ser mais eficaz fomentar um processo contínuo de redução das emissões em todo o setor do que artistas deixarem individualmente de se apresentar. Ele ressalta que esse processo trará uma grande mudança na forma que a indústria opera atualmente, envolvendo não só as bandas, mas também o público e o restante do negócio.

    A discussão sobre os impactos ambientais da indústria da música e as ações de bandas para minimizá-lo já vem de algumas décadas, mas ganharam urgência no momento atual. Em 2019, houve declarações de emergência climática vindas do parlamento britânico e europeu, greves de jovens pelo mundo em defesa do meio ambiente e prisões de ativistas do movimento Extinction Rebellion no Reino Unido.

    Compensações x redução

    Pelo menos desde a primeira década dos anos 2000, bandas como os Rolling Stones, o Sepultura e o próprio Coldplay adotam modelos de compensação de emissões de carbono – pagando pelo plantio de árvores, por exemplo.

    Em um artigo de opinião publicado pelo jornal The Guardian, o vocalista do Massive Attack Robert Del Naja afirma que, ao longo das últimas duas décadas, a banda chegou a explorar vários desses modelos de compensação.

    Mas Naja os questiona: “o conceito de compensação cria uma ilusão de que atividades com alta taxa de emissão de carbono desfrutadas por indivíduos mais ricos podem continuar, transferindo a carga da ação e do sacrifício para os outros – em geral, aqueles em países mais pobres, no hemisfério sul”.

    Para o músico, “em um contexto de emergência, o ‘business as usual’ – independente de sua natureza, alto nível ou popularidade – é inaceitável”.

    De onde vem as emissões na indústria da música

    Embora muita ênfase seja colocada sobre as viagens aéreas dos músicos durante as turnês, elas são apenas uma das fontes de impacto ambiental da atividade. A energia consumida pelo local onde o show é realizado é em geral a fonte principal de emissões.

    Um exemplo extremo do impacto ambiental que uma turnê pode ter é a estrutura de “garra” de aço do palco da turnê 360° da banda U2, realizada entre 2009 e 2011. Ela exigia 120 caminhões para ser transportada de um local a outro. A pegada de carbono de cerca de 40 shows com essa estrutura (apenas uma fração das apresentações dessa turnê) seria equivalente a uma viagem de volta de Marte. O U2 adotou, desde então, algumas ações para se tornar mais sustentável.

    IMPACTO

    Outras ações

    Radiohead

    A banda inglesa substituiu os refletores convencionais do palco por uma iluminação de LED, que usa uma fração da energia consumida por outros equipamentos de iluminação. Além disso, encoraja fãs a irem de transporte público até seus shows, se desloca em ônibus abastecidos por biocombustível e transporta o equipamento por navio, não avião.

    Billie Eilish

    A turnê de 2020 da cantora e compositora americana Billie Eilish contará com um espaço chamado “Billie Eilish eco-village”, onde os fãs poderão aprender sobre seu papel na crise climática. Aqueles que colaborarem com a organização Global Citizen ganham pontos para concorrer a ingressos de shows já esgotados da artista.

    The 1975

    Considerando o impacto da fabricação de produtos da turnê, a banda inglesa anunciou ter deixado de produzir novas camisetas: em vez disso, estão imprimindo uma nova estampa sobre camisetas remanescentes de turnês anteriores. A cada ingresso vendido, doam £1 para a organização One Tree Planted, que planta árvores em todo o mundo.

    Emergência climática e festivais

    Aproximadamente 60 festivais de música se comprometeram a deixar de usar plástico de uso único (incluindo glitter, canudos e garrafas) até 2021. Em sua edição de 2019, o Festival de Glastonbury baniu a venda de garrafas plásticas de uso único e passou a oferecer centenas de bebedouros.

    Na visão da fundadora da organização A Greener Festival, Claire O’Neill, os principais desafios ambientais a serem enfrentados por esse tipo de evento seguem sendo o transporte, os banheiros e as barracas usadas pelo público.

    O impacto do streaming

    Além das apresentações musicais ao vivo, a reprodução de música gravada também tem impactos ambientais. Realizado por pesquisadores das universidades de Oslo e Glasgow e divulgado em 2019, o estudo “The cost of music” revelou que o custo ambiental de se ouvir música nunca foi tão alto quanto hoje, na era do streaming, mesmo com a redução no uso de plástico com a queda do consumo de música em mídias físicas.

    As altas emissões de carbono da forma majoritária pela qual consumimos música hoje se deve ao fato de a música digital consumida via streaming necessitar de dispositivos que se conectam à internet e usam grande quantidade de energia para armazená-la e processá-la.

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