Ir direto ao conteúdo

A tarifa de Trump sobre o aço brasileiro. E o impacto da medida

Presidente americano anuncia a volta de encargos sobre metais. Especialistas apontam choque no mercado siderúrgico e mudança na relação entre os dois países

O presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou na segunda-feira (2) a imposição de tarifas sobre aço e alumínio vindos do Brasil e da Argentina. Segundo Trump, a medida é uma reação à desvalorização das moedas locais nos dois países, que estaria sendo feita de modo proposital, prejudicando a concorrência de produtos agrícolas e manufaturados americanos.

O anúncio pegou de surpresa as autoridades brasileiras. À Rádio Itatiaia o presidente Jair Bolsonaro afirmou que não entender a medida como uma retaliação. A tendência é que o governo brasileiro não revide. Bolsonaro afirmou que vai procurar o diálogo com o presidente americano:

“Eu vou conversar com o Paulo Guedes [ministro da Economia]. Se for o caso, ligo para o Trump. Eu tenho um canal aberto com ele”

Jair Bolsonaro

presidente da República, algumas horas após o anúncio de Trump pelo Twitter

As tarifas anunciadas por Trump vêm sob o pretexto de que a alta do dólar no Brasil e na Argentina teria sido proposital. Na Argentina, o dólar disparou durante o processo eleitoral que colocou o peronista Alberto Fernández na Casa Rosada.

No Brasil, o mês de novembro viu a moeda americana ultrapassar a cotação de R$ 4,20 e atingir o maior patamar nominal de sua história. Especialistas ouvidos pelo Nexo apontaram que a alta está relacionada à diminuição do diferencial de juros entre Brasil e EUA, à frustração com o leilão do petróleo ocorrido no início de novembro, à desaceleração da economia mundial e às turbulências da política econômica brasileira. A fala do ministro Paulo Guedes em referência ao AI-5 – ato institucional da ditadura militar que reforçou perseguições políticas, torturas, assassinatos e censura – também foi outro fator que reforçou a tendência de alta do dólar no final do mês de novembro.

O histórico de tarifas

Não é a primeira vez que o presidente dos EUA toma medidas protecionistas no mercado de aço e alumínio.

Em março de 2018, Trump havia anunciado tarifas de 10% sobre as importações de alumínio e 25% sobre as importações de aço. Os únicos países que escapariam das sobretaxas seriam Canadá e México, parceiros comerciais da América do Norte.

A medida visava proteger a indústria siderúrgica americana, que teria sido gravemente afetada pela concorrência internacional. Outro argumento utilizado é que as tarifas eram importantes para defender a segurança nacional. Isso porque havia risco dos EUA se tornarem dependentes demais de importações desses produtos.

Em agosto de 2018, o presidente americano decidiu aliviar as taxas para países como Brasil, Argentina e Coreia do Sul. Pelas novas medidas, as empresas americanas que comprovassem falta de matéria-prima poderiam comprar aço desses países sem ter de pagar os 25% estipulados em março daquele ano.

No início de dezembro de 2019, no entanto, Trump voltou atrás. Ainda não foram divulgadas regras e taxas exatas que serão cobradas de cada produto, mas sabe-se que elas terão efeito imediato.

As exportações do Brasil aos EUA

Os EUA são o segundo maior comprador de produtos brasileiros, segundo dados do Ministério da Economia; o primeiro é a China.

Nos primeiros dez meses de 2019, o país liderado por Trump foi responsável por comprar US$ 24,2 bilhões em produtos brasileiros. O valor representa um aumento de 2,04% em relação aos dez primeiros meses de 2018.

13,1%

foi a participação dos EUA nas exportações brasileiras entre janeiro e outubro de 2019

A categoria de produtos mais exportados pelo Brasil são óleos brutos de petróleo. Mas logo na sequência aparecem produtos semimanufaturados de ferro ou aço – são aqueles intermediários entre o metal bruto e o bem finalizado.

PERFIL DAS EXPORTAÇÕES

Os dez produtos mais exportados aos EUA em 2019. Em ordem descrescente: Óleos brutos de petróleo; Produtos semimanufaturados de ferro ou aços; Aviões; Demais produtos manufaturados; Celulose; Gasolina; Aparelhos p/ terraplanagem; Motores e turbinas para aviação; Café cru em grão; Etanol.

Como um todo, produtos relacionados ao alumínio e ao aço costumam girar em torno de 13% das exportações brasileiras aos EUA.

13,9%

é a participação dos dois metais nas exportações brasileiras nos dez primeiros meses de 2019

AÇO E ALUMÍNIO

Participação do aço e do alumínio nas exportações aos EUA. Sempre em torno dos 13%, somados, mas com participação significantemente maior do aço.

Duas análises sobre os impactos das tarifas

O Nexo conversou com dois especialistas para entender as consequências das tarifas impostas por Trump – tanto no curto como no longo prazo. Roberto Dumas, professor de economia do Insper, e Vinícius Vieira, professor de relações internacionais da FGV (Fundação Getulio Vargas) e da USP (Universidade de São Paulo), falaram sobre dois pontos que poderão ser impactados pelas tarifas.

O setor siderúrgico

Dumas e Vieira apontaram que o setor siderúrgico será o que mais sofrerá impactos. As tarifas tendem a dificultar a concorrência dos produtos brasileiros no mercado internacional, o que deve afetar, em especial, as regiões que mais dependem da exportação de aço. Alguns exemplos são as regiões das cidades de Ipatinga, em Minas Gerais, e Cubatão, em São Paulo.

Dumas também aponta que o principal efeito das tarifas americanas será pelo viés da incerteza. Afinal, a terceira mudança nas regras de exportação dos metais para os EUA em menos de dois anos deixa o mercado siderúrgico em uma situação de instabilidade.

“Risco é uma coisa que todo empresário sabe correr. O que ninguém sabe correr é incerteza. A incerteza acaba impactando investimento – e investimento é o que o Brasil mais precisa para ter um crescimento sustentável”

Roberto Dumas

professor de economia do Insper, em entrevista ao Nexo

Já Vieira lembra que as tarifas de Trump não são o primeiro golpe sofrido pelo setor. A crise na Argentina – historicamente o maior importador de automóveis brasileiros – e a retomada lenta da economia brasileira, com recuperação gradual do consumo, também são outros fatores que influenciam negativamente o segmento siderúrgico.

“Se nenhuma dessas três condições for revertida [Argentina, mercado interno e tarifas], podem transformar-se, em conjunto, em uma espécie de tempestade perfeita para um setor que já vinha enfrentando problemas nos últimos anos, como toda a indústria.”

Vinícius Vieira

professor de Relações Internacionais da FGV (Fundação Getulio Vargas) e da USP (Universidade de São Paulo), em entrevista ao Nexo

As relações entre Brasil e EUA

Dumas e Vieira apontam também para uma mudança no cenário do comércio internacional entre EUA e Brasil. Apesar da tentativa de aproximação de Bolsonaro com Trump, as tarifas sobre aço e alumínio não são o primeiro caso em que os EUA deixam de lado a amizade entre os países.

Um primeiro caso é o do suspenção da importação de carne brasileira não congelada ou processada, iniciada em 2017, após a deflagração Operação Carne Fraca. Em março de 2019, uma inspeção americana aos frigoríficos brasileiros frustrou o governo ao decidir pela manutenção do veto.

Mais recentemente, em outubro de 2019, os EUA deixaram de cumprir a promessa de inclusão do Brasil na OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico). A decisão foi mais uma a decepcionar as tentativas de Bolsonaro de se aproximar de Trump.

Segundo os especialistas ouvidos pelo Nexo, a volta das tarifas sobre aço e alumínio pode ser um momento de virada na relação entre os dois países, com o Brasil adotando uma posição mais objetiva.

“O governo atual tem uma pauta de relação muito ideológica com os EUA. Vê tudo pelo filtro de que o Brasil deve se alinhar automaticamente aos EUA. Espera-se que isso [o anúncio das tarifas] faça o Brasil adotar uma linha mais pragmática nas suas relações com os EUA.”

Vinícius Vieira

professor de Relações Internacionais da FGV (Fundação Getulio Vargas) e da USP (Universidade de São Paulo), em entrevista ao Nexo

“Agora fica bem claro que Trump nunca mentiu: America first [EUA em primeiro lugar, em inglês].”

Roberto Dumas

professor de economia do Insper, em entrevista ao Nexo

Colaboraram Caroline Souza e Gabriel Zanlorenssi com os gráficos

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa Equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project. Saiba mais.

Mais recentes

Você ainda tem 2 conteúdos grátis neste mês.

Informação com clareza, equilíbrio e qualidade.
Apoie o jornalismo independente. Junte-se ao Nexo!