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A Revolta dos Malês contada numa minissérie em streaming

Uma das mais importantes rebeliões de escravos do século 19 é narrada em docudrama de cinco episódios, disponível online no site Sesc TV

    Lançada em novembro de 2019, a minissérie “Revolta dos Malês” leva para as telas com destaque inédito a história da rebelião de escravos muçulmanos ocorrida na Bahia em 1835. A direção é de Jeferson De e Belisario Franca e o roteiro de João Ademir, Cristina Gomes e Francine Barbosa. Os cinco episódios podem ser reproduzidos na íntegra no site do Sesc TV.

    Tendo como pano de fundo fatos e personagens históricos da rebelião, o enredo é centrado no drama ficcional – mas plausível – de Guilhermina (interpretada por Shirley Cruz). Após anos de trabalho árduo que lhe permitiram juntar uma quantia em dinheiro, a malê tenta comprar alforria para si e sua filha. Seu senhor, porém, tem outros planos: mantém a menina cativa e pretende vendê-la em um leilão.

    As gravações também deram origem a um longa-metragem, para o qual foram gravadas cenas adicionais. Ele estreia na quinta-feira (5) em Salvador.

    A temática não é estranha aos diretores. O cineasta Jeferson De prepara um filme, “Prisioneiro da Liberdade”, sobre o líder abolicionista e ex-escravo Luiz Gama. Já para Belisario Franca, a série e o filme sobre a Revolta dos Malês dão continuidade a uma série de obras dedicadas a episódios da história do Brasil que foram “silenciados”, segundo declarou em entrevista ao podcast da revista Bravo! após a realização dos documentários “Menino 23” e “Soldados do Araguaia”.

    O que foi a revolta

    Uma série de revoltas negras eclodiram em Salvador, na Bahia, nas primeiras décadas do século 19. A cidade enfrentava uma crise econômica, encarnava as tensões políticas que se seguiram à Independência – proclamada em 1822 –, e quase metade de sua população era composta por negros, escravizados ou libertos, de origens variadas.

    Entre eles, estavam os da etnia nagô, negros muçulmanos que protagonizaram, em janeiro de 1835, a Revolta dos Malês, considerada a mais importante do período. O nome vem de “imale”, termo para muçulmano na língua iorubá. O levante envolveu cerca de 600 pessoas – resultou em muitos feridos, centenas de presos, além de mais de 70 rebeldes e 10 de seus adversários mortos.

    Os objetivos dos malês não são totalmente claros: sabe-se que queriam o fim da escravidão africana, mas não é certo se exigiam a liberdade de todos os escravos do Brasil. Há depoimentos que os acusam de ter planejado a escravização de mestiços e o massacre de brancos e negros nascidos na Europa e no Brasil, mas não há provas concretas desse plano.

    Os malês gozavam de uma posição marginalizada mesmo entre os negros, sendo muitas vezes hostilizados pelos “crioulos”, nascidos no Brasil, como mostra a série.

    Escolhas narrativas e estéticas da série

    No podcast da Bravo!, a jornalista Helena Bagnoli elogia a qualidade da minissérie, destacando aspectos de sua fotografia, roteiro, direção e reconstituição de época. Ela foi gravada dentro de um estúdio, o que se mostrou uma solução eficiente e econômica.

    A opção de narrar a história da revolta do ponto de vista de uma mulher negra constitui uma novidade. Em um vídeo gravado nos bastidores das filmagens, a atriz Shirley Cruz afirma que a história da escravidão no Brasil é repleta de grandes mulheres que acabaram se tornando invisíveis. Sua personagem é uma maneira de representá-las.

    Outro destaque é como o protagonismo dos africanos muçulmanos na revolta se traduz diante das câmeras. Senhores de escravos, soldados e outros brancos aparecem sempre na penumbra, fora de quadro ou simplesmente como silhuetas. Os malês, interpretados por atores negros, estão 100% em primeiro plano na cena.

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