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Por que reclamamos das novas gerações, segundo este estudo

Pesquisa de psicólogos da Universidade da Califórnia investigou de onde vem a mania de achar que no seu tempo as coisas eram melhores

Achar que as gerações mais novas são piores do que a sua é uma opinião antiquíssima na história da humanidade, e remonta ao tempo dos filósofos gregos clássicos.

Em uma fala que se popularizou a partir da década de 1960, Sócrates teria dito que a juventude de sua época amava o luxo, desprezava a autoridade, não tinha boas maneiras e desrespeitava os mais velhos.

O conflito geracional se tornou mais agudo na segunda metade dos anos 1960 nos Estados Unidos, com o embate ideológico entre os hippies e a geração anterior, nascida antes da 2ª Guerra Mundial.

Diferenças entre gerações são frequentemente citadas no mundo corporativo, com a geração Y, ou millennials (nascidos entre 1980 e meados da década de 1990), e a geração Z (nascidos entre 1995 e 2010) sendo costumeiramente chamados por profissionais em cargos mais seniores de “geração mimimi” — seu comportamento no mercado de trabalho seria visto como mimado, egoísta e auto-centrado.

A acusação de “mimimi” chegou até a política brasileira. Em publicação no Twitter, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) compartilhou um vídeo humorístico em que criticava a “geração mimimi”, referindo-se ao excesso de cuidado de pais com crianças atualmente.

O que a ciência diz sobre conflitos geracionais

Um estudo da Universidade da Califórnia em Santa Bárbara tentou entender os mecanismos psicológicos dos conflitos geracionais.

O estudo foi liderado por John Protzko, professor de psicologia da instituição. Para isso, ele analisou 60 anos de dados coletados por psicólogos dos EUA sobre a paciência das crianças na hora de receber alguma recompensa.

Paralelamente, Protzko questionou 260 psicólogos se eles acreditavam que, ao longo dos anos, as crianças ficaram mais ou menos impacientes: 84% dos profissionais disseram acreditar que as crianças de hoje tinham menos paciência. Os dados, no entanto, mostravam o exato contrário — que, em linhas gerais, as crianças se tornaram mais pacientes quando esperam recompensas.

Experiência pessoal e memória

Protzko notou um padrão e decidiu investigar o assunto mais a fundo. Ele e sua equipe montaram cinco questionários online, que foram respondidos por cerca de 3.460 adultos dos EUA entre 33 e 51 anos.

As perguntas envolviam a percepção dos respondentes sobre os mais jovens em temas como o respeito aos mais velhos e hábitos de leitura. Protzko e seu time notaram que a memória pessoal é chave para explicar esse tipo de conflito geracional.

Adultos com características mais autoritárias tendem a acreditar que os jovens de hoje em dia não possuem respeito pelas autoridades e pelos mais velhos. Respondentes que têm a leitura como hábito constante em suas vidas tendem a acreditar que os jovens leem menos hoje do que na época em que eles estavam crescendo.

Segundo a pesquisa, percepções do presente são transportadas para o passado e, a partir de ideias enviesadas, a avaliação dos respondentes sobre os jovens de hoje em dia é contaminada. “O êxito em algum aspecto faz com que as pessoas se projetem, junto com seus pares, a um passado, acreditando, por exemplo, na ideia de que ‘se eu gosto de ler hoje, todos gostavam de ler quando eu era criança”, afirma o estudo.

Para embasar ainda mais o padrão, o estudo propôs um jogo mental aos respondentes. Eles fizeram um teste para avaliar seu domínio de conhecimentos gerais. Parte deles recebeu um resultado falso, que dizia que eles tinham menos conhecimentos gerais do que imaginavam que tinham. Depois da atividade, essas pessoas foram questionadas sobre os hábitos de leitura dos jovens hoje — eles, no geral, concordaram menos com a afirmação de que os jovens leem menos atualmente.

Segundo o estudo, a percepção dos respondentes acerca da juventude pode ser facilmente manipulada a partir da ideia que eles têm da própria juventude.

O artigo conclui que, apesar dos mecanismos cerebrais que criam a percepção geracional enviesada serem algo que vai continuar a existir nas pessoas, um entendimento melhor do que acontece pode ser útil para minimizar os efeitos dos conflitos geracionais.

Em entrevista ao site Vox, Protzko afirmou que minimizar os efeitos dos conflitos geracionais é uma questão importante. “Isso é um preconceito, um viés equivocado. Se as pessoas estivessem fazendo as afirmações que fazem sobre jovens e crianças em relação a minorias étnicas, por exemplo, as pessoas estariam revoltadas, dizendo que isso é ridículo e que não há evidências para embasá-las”, disse.

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