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Como é o trabalho das doulas do fim da vida

Profissionais oferecem assistência emocional, espiritual e prática para pessoas que estão para morrer e seus entes queridos

Doulas são profissionais conhecidas, principalmente, por prestar assistência psicológica, emocional e física às mães durante a gestação e o parto – o início da vida. Sua atuação, porém, tem amparado cada vez mais pessoas que estão próximas da morte.

Nesse caso, elas fornecem apoio a idosos ou pessoas com doenças em estágio avançado e seus familiares, acompanhando-os no fim da vida, ajudando-os a tomar decisões práticas, como planejar o funeral e a atravessar o luto.

O trabalho das doulas do fim da vida não envolve competências médicas nem exige treinamentos dessa ordem, mas muitas profissionais são da área da saúde.

Nos Estados Unidos, programas de treinamento e certificação são oferecidos por uma série de organizações, como a Inelda (International End of Life Doula Association), fundada em 2015. Ainda não há no país, porém, uma entidade que centralize a regulação da atividade.

Assim como é comum em funções de cuidado, há uma maioria de mulheres desempenhando a atividade de doulas do fim da vida, mas homens também a exercem.

O serviço pode ser remunerado ou voluntário, como ocorre no "No one dies alone" (Ninguém morre sozinho), também nos EUA. O programa assiste pacientes hospitalizados que não tenham nenhum amigo ou familiar para acompanhá-los nos momentos finais.

A demanda para esse tipo de acompanhamento se relaciona com o isolamento e a solidão de que, muitas vezes, padecem aqueles que estão prestes a morrer.

Assim como na atuação das doulas no parto humanizado, a presença delas no fim da vida questiona a assepsia e medicalização excessiva desse momento. E pretende confrontar o tabu, o medo e o desconforto que tendem a existir em torno da morte, sobretudo para os ocidentais.

Embora a prática de “guiar” pessoas que estão prestes a morrer seja milenar, a necessidade de recorrer a um profissional treinado nessas circunstâncias é recente.

Uma hipótese é que isso tenha a ver com as mudanças nos laços sociais, que se tornaram mais esgarçados: no passado, esse era um trabalho realizado de forma orgânica pelas próprias comunidades.

Os últimos desejos

Manter a tranquilidade de quem vai morrer em breve e daqueles que o cercam é uma das tarefas das doulas do fim da vida. Elas também abrem espaço para que as pessoas falem sobre morte e perda, temas frequentemente encarados como tabu.

“Imagine se uma mulher estivesse para entrar em trabalho de parto e ninguém em volta dela falasse sobre isso ou se preparasse? Haveria uma confusão se tratássemos o nascimento da forma como tratamos a morte”, disse Shelby Kirillin, doula do fim da vida que atua nos Estados Unidos, ao jornal The Guardian.

O trabalho desenvolvido é focado nos desejos do indivíduo com relação à própria morte: as doulas ajudam a planejar como e onde a pessoa assistida gostaria de passar seu último dia – em casa ou no hospital, por exemplo –, quem deve estar presente no momento final e quais rituais, religiosos ou não, devem ser cumpridos.

O conceito de uma boa morte praticada pelas doulas envolve o respeito às crenças e desejos de quem está morrendo, e busca trazer serenidade e acolhimento, em lugar do medo.

O processo pode ainda envolver a preparação de artefatos a serem deixados para entes queridos, como um álbum de fotografias, um arquivo de vídeos ou cartas.

A última parte do trabalho se dá algumas semanas após a morte, quando a doula reencontra familiares e amigos com o objetivo de discutir e ajudar a processar o luto.

Para Daniela Achette, psicóloga da equipe de cuidados paliativos do Hospital Sírio-Libanês, o suporte no fim da vida alivia o sofrimento de todos. O trabalho das doulas ajuda a construir uma despedida que faça sentido, procura atender às necessidades espirituais e “acaba sendo um espaço de construção de significado, de elaboração e até de planejamento para quem fica e para quem foi”, disse Achette ao jornal Folha de S.Paulo.

A presença no Brasil

O trabalho de acolhimento a pacientes com doenças graves no Brasil é feito, em geral, pelas equipes de cuidados paliativos de hospitais, formadas por profissionais como médicos, enfermeiros e psicólogos. Seu objetivo é reduzir o sofrimento dos pacientes e dar a eles um tratamento mais humanizado.

O problema é que o acesso a esse cuidado ainda é restrito: menos de 10% dos hospitais no país contam com equipes de cuidados paliativos, segundo um relatório divulgado em 2018 pela Academia Nacional de Cuidados Paliativos.

No Brasil, o trabalho das doulas do fim da vida ainda é praticamente desconhecido e especialistas acreditam haver entraves culturais para a sua implementação a curto prazo. Isso porque mesmo os cuidados paliativos ainda são, muitas vezes, encarados com desconfiança por pacientes e familiares.

Assim como acontece com as doulas do parto, a presença de doulas do fim da vida pode gerar reservas por parte de profissionais da saúde. Mas elas mesmas afirmam não pretender substituir médicos ou enfermeiros.

Ainda não há, no Brasil, uma formação voltada para as doulas do fim da vida. Mas já há pessoas interessadas nesse tipo de trabalho e no enfrentamento do tabu que ronda a morte. Com isso, cursos, eventos e grupos de discussão têm se formado em torno do tema.

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