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O vídeo de maquiagem que alertou sobre perseguição na China

Americana usou um tutorial de beleza no aplicativo TikTok para denunciar o encarceramento de minoria muçulmana no país. Ela acusa a rede social de censurar seu conteúdo

    Uma série de vídeos nos quais uma jovem americana parecia se maquiar viralizou em diversas redes sociais. Na verdade, o tutorial — publicado na rede chinesa TikTok — serviu de pretexto para alertar seus seguidores da perseguição do governo da China à minoria muçulmana uigur, que vive no noroeste do país.

    Feroza Aziz, de 17 anos, é muçulmana e usou a plataforma para denunciar “um Holocausto do qual ninguém está falando”. Ela começa o vídeo ensinando a usar um alongador de cílios, mas rapidamente muda a fala para descrever as denúncias de que famílias da minoria uigur estão sendo perseguidas e levadas a campos de concentração na China, onde são “assassinadas, estupradas, convertidas à força e obrigadas a comer carne de porco”, segundo a jovem.

    O vídeo foi visualizado 1,6 milhão de vezes no TikTok e visto milhões de vezes em outras redes sociais, onde foi republicado por outros usuários.

    Após a postagem, Aziz acusou o TikTok de ter bloqueado sua conta por causa dos vídeos, o que é desmentido pelo aplicativo. Na quarta-feira (27), o vídeo do tutorial passou 50 minutos fora do ar, algo que a empresa atribuiu a um erro humano de moderação de conteúdo.

    Segundo um representante da empresa, outra conta da influenciadora e o seu smartphone foram de fato bloqueados, mas por outro motivo — ela tinha feito postagens que incluíam imagens de Osama bin Laden, e os termos de uso da rede social proíbem conteúdo relacionado a organizações terroristas. Na quinta-feira (28), essa conta foi desbloqueada pelo aplicativo.

    O que é o TikTok

    Criado em 2016, o aplicativo chinês foi eleito a startup mais valiosa do mundo dois anos depois. A rede social bombou inicialmente com vídeos em que os usuários brincavam de dublar músicas famosas em até 15 segundos.

    US$ 78 bilhões

    era o valor de mercado da ByteDance, empresa que desenvolveu o TikTok, em outubro de 2019

    Com o tempo, novas funcionalidades, como desafios e memes, atraíram milhões de adolescentes do mundo todo. Os usuários também podem criar “duetos”, usar moedas virtuais e adicionar filtros de efeitos nos vídeos.

    A empresa afirma que verifica tudo que é publicado e remove ou oculta conteúdos que possam apresentar problemas. No começo de 2019, o TikTok foi acusado de incentivar conteúdos pornográficos, facilitar ataques de predadores sexuais contra crianças e coletar dados de usuários com menos de 13 anos sem a autorização dos pais, o que descumpre a legislação de privacidade em alguns lugares.

    Qual o conflito da China com os uigures

    Os uigures são uma minoria muçulmana que vive no território autônomo de Xinjiang, principal produtor de gás natural da China. A região, que fica no noroeste do país, foi incorporada em 1949, mas muitos residentes mantêm seus dialetos e se identificam como parte do Turquestão Oriental, nome anterior à anexação.

    Dos 11 milhões de uigures de Xinjiang, acredita-se que cerca de um milhão deles tenha passado desde 2017 por algum dos mais de 85 campos de detenção identificados por pesquisadores, sem terem sido acusados ou condenados de qualquer crime.

    Até agosto de 2018, o governo chinês negava a existência desses locais, mas, após imagens de satélite revelarem construções com torres de vigia e arame farpado, a China reconheceu que se tratavam de “centros de reeducação”, aonde os moradores da região iriam voluntariamente, segundo o governo.

    A China diz que esses centros foram criados para garantir a segurança nacional após ataques de militantes uigures. As pessoas enviadas são acusadas de “terem sido infectadas por pensamentos não saudáveis”. Para a população, o motivo é a intolerância religiosa. Em 2017, antes dos campos, uma lei de Xinjiang proibiu os homens de ter barba longa e as mulheres de usar véu.

    Como funcionam os campos

    No domingo (24), um memorando vazado para a imprensa internacional detalhou a rigidez dos campos, que se assemelha à dinâmica de prisões de segurança máxima. “Os alunos devem ter uma cama fixa, posição fixa na fila, assento fixo na sala de aula e posto fixo durante trabalhos manuais — e é estritamente proibido que isso seja alterado.”

    Algumas das ordens do memorando incluíam:

    • nunca permitir fugas

    • aumentar a disciplina e punir violações de comportamento

    • promover arrependimento e confissão

    • tornar o estudo de mandarim prioridade máxima

    • encorajar estudantes a se transformarem verdadeiramente

    • garantir monitoramento constante de vídeo em dormitórios e salas de aula, sem pontos cegos

    Os detidos só poderiam ser liberados quando demonstrassem ter seus comportamentos, crenças e línguas completamente transformados. Pessoas que conseguiram deixar os campos e familiares denunciam maus-tratos pelo governo chinês, incluindo esfolamentos, estupros e injeções que os tornaram inférteis.

    O cerco aos uigures inclui uma sofisticada operação de vigilância que faz uso da tecnologia. O memorando destaca que mais de 40 mil pessoas foram investigadas uma a uma pelas atividades em um aplicativo de compartilhamento chinês chamado Zapya. A ordem era de que o usuário fosse enviado aos campos se as suspeitas de “pensamentos não saudáveis” não fossem descartadas.

    A censura e o TikTok

    Todos os aplicativos que operam dentro da China precisam ser aprovados pelo governo e cooperar com uma imagem positiva das autoridades do país. Para isso, a empresa que desenvolveu o TikTok mantém duas versões da rede social. A chinesa, chamada de Douyin, censura abertamente qualquer crítica ao Partido Comunista Chinês. O TikTok, que funciona no resto do mundo, teoricamente não.

    No entanto, documentos vazados mostram instruções de censura em escala global a vídeos que mencionam os protestos de 1989 na Praça Celestial e os movimentos de independência do Tibete e Taiwan.

    Estudos apontam que conteúdos LGBTI não são exibidos em alguns países e conteúdo sobre os protestos de Hong Kong dificilmente são recomendados para os usuários. Dependendo da transgressão, vídeos podem ser deletados ou ficar visíveis apenas para o criador.

    Para todas as acusações, o TikTok afirma que não modera conteúdo por sensibilidade política e não é influenciado por nenhum governo, incluindo o chinês.

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