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Efeito estufa: o Brasil e o mundo mais longe da meta

Emissão de gases causadores do aquecimento global bateu recorde global em 2018, segundo relatório da ONU. Aumento do desmatamento fez organização dar destaque negativo ao país

    Apesar da crescente urgência dada às questões ambientais, em 2018 o planeta piorou seu desempenho com relação a emissões de gases que causam o efeito estufa. É o que diz um relatório das Nações Unidas publicado na segunda-feira (26). “As conclusões são sombrias”, afirma o texto de introdução do documento.

    As emissões, dentre as quais o principal é o dióxido de carbono (CO²), bateram recorde em 2018, atingindo a marca de 55,3 gigatons de CO². Esses gases estão entre os principais causadores das mudanças climáticas. O total afasta o mundo das metas de aumento da temperatura global firmadas no Acordo de Paris — limitado a 2 graus centígrados até 2030.

    De acordo com o relatório da ONU, mesmo que todas as metas individuais de cada país dentro do tratado sejam cumpridas, a situação atual implicará em um aquecimento de 3,2 graus no mundo até 2030.

    Essa diferença entre o ponto em que o mundo está e o que precisa alcançar em relação à concentração de gases de efeito estufa na atmosfera é chamada de “Emissions Gap”, ou “defasagem de emissões”.

    “Os países falharam coletivamente em impedir o crescimento das emissões globais de gases do efeito estufa, o que significa que agora são necessários cortes mais profundos e rápidos”

    Texto de introdução de relatório da ONU sobre emissões

    O levantamento foi publicado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente. “Sendo avô, não queremos deixar isso para nossos netos", declarou à imprensa o principal autor do relatório, John Christensen.

    Na última década, o índice anual de aumento do lançamento de gases na atmosfera foi de 1,5%. Em 2018, mais da metade dessas emissões teve origem no uso de fontes fósseis na indústria e na geração de energia. O lançamento na atmosfera de gases com essa origem cresceu 2% em 2018, segundo o relatório.

    O documento alerta que “não há sinal de que as emissões de gases do efeito estufa cheguem a seu teto nos próximos anos”. Por outro lado, avalia que há tempo de se promover uma “grande transformação em nossas sociedades e economias” a fim de frear o aquecimento excessivo da Terra. O texto cita como fator de esperança o foco inédito na crise climática por parte da sociedade e de políticos, “com movimentos jovens cobrando nossa responsabilidade”.

    Esforços “ambiciosos” de governos, cidades, empresas e investidores são também mencionados no relatório como dados positivos. Os autores também citam que já existem muitas opções de soluções para se conseguir uma redução rápida e eficiente no lançamento de gases.

    O papel de cada país

    Assinado em dezembro de 2015, o Acordo de Paris é um compromisso de 195 países para baixar as emissões de gases do efeito estufa no mundo.

    A meta principal do tratado é fazer com que a temperatura global aumente em apenas 2 graus centígrados até 2030. No entanto, os países devem tentar ir além desse teto, adotando medidas e políticas públicas que busquem um objetivo ainda mais ambicioso, o aumento de apenas 1,5 grau centígrado.

    Com os números atualizados de emissões trazidos pelo novo relatório, as reduções necessárias também foram revistas. Para a meta global de aquecimento máximo de 2 graus, as emissões precisam cair 2,7% por ano em todo o mundo e precisam chegar em 2030 25% menores que em 2018.

    Para a meta mais ambiciosa, um aumento de temperatura planetário de só 1,5 graus centígrados, os cortes nos gases precisam ser bem mais severos: 7,6% por ano até 2030, que precisa registrar um total de emissões 55% menor que em 2018.

    O Acordo de Paris não estabelece metas individuais para cada país. Cada um deve propor uma Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC, na sigla em inglês), decidida no âmbito doméstico. O tratado exige uma revisão dessas metas a cada cinco anos, como forma de monitorar o progresso de cada país.

    Os mais ricos

    De acordo com o relatório, os 20 países mais ricos do mundo, grupo conhecido como G20, são responsáveis por 78% das emissões globais de gases estufa. O Brasil faz parte desse grupo.

    • de redução de emissões até 2030, segundo o Acordo de Paris. Três países (Índia, Rússia e Turquia) alcançarão o objetivo com folga, com resultados 15% menores que a meta.

    • O documento destaca que a União Europeia introduziu legislação climática que conseguiu pelo menos . A Comissão Europeia prevê que esse índice pode ser ultrapassado se leis dentro de cada país-membro forem integralmente implementadas.

    • Sete países do grupo precisam adotar medidas se quiserem atingir suas metas de contribuição nacional, segundo o texto. Atualmente, a projeção é que eles cheguem em 2030 com as emissões pelo menos 15% acima da meta. O faz parte deste grupo,.

    • Dos países do G20, apenas cinco (a União Europeia e outros quatro) . Três destes estão no processo de votar legislações sobre o tema e dois recentemente aprovaram leis nesse sentido.

    • Os Estados Unidos, responsáveis por 13% das emissões globais, tiveram destacadas as inúmeras medidas do governo Donald Trump para “levar o país na direção oposta” das reduções de gases. Em novembro, . O documento da ONU registra reações locais à política de Washington, no entanto. Um exemplo é o grupo de 25 governadores, representando metade da população dos EUA, que se juntou à Aliança Climática dos EUA e afirmou se comprometer com as metas do Acordo de Paris.

    O destaque negativo do Brasil

    O Brasil foi destacado negativamente pelo relatório, que afirmou que três projeções de emissões foram revisadas para cima, “refletindo a tendência recente de aumento do desmatamento”.

    De acordo com estimativas divulgadas pelo Sistema de Emissões de Gases de Efeito Estufa (Seeg), do Observatório do Clima, em 5 de novembro de 2019, o desmatamento foi a principal fonte de emissões no Brasil em 2018, com 44% do total. As queimadas, principal método de desmatamento, liberam gás carbônico e metano na atmosfera.

    A Floresta Amazônica, maior floresta tropical do mundo, também tem um papel fundamental na redução na atmosfera de gás carbônico, o principal gás do aquecimento global.

    O relatório registra que entre 2004 e 2012 havia ocorrido uma “forte redução” nos níveis de devastação da floresta. No entanto, diversas medidas do presidente Jair Bolsonaro enfraqueceram a defesa do meio ambiente no país a partir de 2019.

    Entre os diversos exemplos citados no documento da ONU estão a redução do orçamento do Ministério do Meio Ambiente, o relaxamento de regras para a conversão de multas ambientais em compensações alternativas e o fim da maior parte das comissões e comitês com participação da sociedade civil na área.

    Em setembro de 2019, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, disse que o Brasil estava “muito bem” com relação aos compromissos do Acordo de Paris. Em entrevista à emissora americana CNN, Salles garantiu que “as queimadas [na Amazônia] não estão fora de controle”.

    Dados do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), divulgados em 18 de novembro, no entanto, mostraram que o desmatamento na Amazônia entre agosto de 2018 e julho de 2019 foi o mais alto para o período em uma década. Um total de 9.762 quilômetros quadrados do bioma amazônico foi derrubado.

    “Quando as emissões forem computados para 2019 esse número será significativo pois houve aí 2 mil quilômetros quadrados a mais de desmatamento na Amazônia. Não dá para dizer com segurança que o Brasil irá cumprir seus objetivos seguindo essa trajetória. E nós ainda estamos em meio a uma recessão econômica”, afirmou ao Nexo Carlos Nobre, pesquisador do Instituto de Estudos Avançados da USP (Universidade de São Paulo).

    “O discurso [do governo] não tem sido compatível com as ações. Fala em ‘tolerância zero’ com crimes ambientais, mas por outro lado há todo um esforço em legalizar coisas que antes eram ilegais”, ressaltou Nobre.

    Entre as propostas do governo Bolsonaro nesse sentido estão a permissão do garimpo em terras indígenas e a proibição da destruição pelo Ibama de maquinário utilizado em atividades ilegais de desmatamento ou mineração.

    A mudança climática

    Gases

    Atividades como a queima de combustíveis fósseis (derivados do petróleo, carvão e gás natural) para a energia, a indústria e os transportes — além da agropecuária, do descarte de lixo e do desmatamento — emitem grande quantidade de gases formadores do efeito estufa. Os principais são o metano, o óxido nitroso e o gás carbônico (CO₂), que hoje representa mais de 70% das emissões.

    Efeito estufa

    O efeito estufa é uma camada atmosférica de gases — entre eles, gás carbônico e metano — natural. Os gases retêm parte da radiação solar que chega à Terra e, com isso, impedem que o planeta seja fatalmente frio. O problema está no agravamento desse fenômeno. A emissão de gases formadores do efeito estufa pelas atividades humanas tem tornado a camada mais espessa, o que leva a mais retenção de calor.

    Aquecimento global

    O aquecimento global é o resultado do aumento das emissões de gases-estufa e a principal evidência da mudança no clima. Suas consequências mais visíveis têm sido o aumento da temperatura média do ar, o derretimento de calotas polares e a elevação do nível das águas. A expressão “mudança climática” é um sinônimo abrangente de aquecimento global, que engloba todas as reações do clima à poluição.

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