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Por que o dólar atingiu a máxima nominal histórica

Valor registrado do câmbio não significa alta em termos reais. Economistas avaliam cenário externo e juros baixos como determinantes para o movimento

    O dólar renovou novamente sua cotação recorde nesta terça-feira (26). O valor de R$ 4,239 superou o patamar de R$ 4,213, registrado na segunda-feira, dia 25 de novembro.

    A alta do dólar tem sido uma tendência no mês de novembro. Desde o início do mês, a moeda americana já se valorizou 6,6% em relação ao real. Desde o início de 2019, essa alta é de 9,8%.

    O movimento de valorização do dólar – e consequente desvalorização do real – ocorre em um momento de baixa histórica da taxa básica de juros, a Selic. No fim de outubro, o Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central) reduziu os juros para 5% ao ano, mantendo a sequência de quedas iniciada no fim de julho.

    Em viagem aos EUA, o ministro da economia, Paulo Guedes, afirmou que o cenário de dólar alto e juros baixos deve perdurar por um tempo no Brasil. Segundo o ministro, “é bom se acostumar” com a combinação dos dois fatores.

    "O dólar está alto. Qual o problema? Zero. Nem inflação ele [dólar alto] está causando. Vamos exportar um pouco mais e importar um pouco menos"

    Paulo Guedes

    ministro da Economia, em viagem a Washington D.C., capital dos EUA, em 25 de novembro de 2019

    Na mesma entrevista, o ministro fez menção a uma possível medida similar ao AI-5 (Ato Institucional nº5), dispositivo legal lançado no fim dos anos 1960 pelo regime militar para abrir caminho para a repressão política. A declaração não foi bem recebida pelo mercado.

    O mercado de câmbio

    Em países onde o câmbio opera em regime flutuante, como o Brasil, o mercado de câmbio funciona de forma similar a outros mercados. O preço da moeda estrangeira é definido pela dinâmica de oferta e demanda do produto.

    Dessa forma, se há procura muito alta pelo dólar ou o momento é de escassez da moeda no mercado, a tendência é que o preço – a chamada cotação – aumente. Da mesma forma, se a demanda pelo dólar está em baixa ou a oferta está muito alta, o esperado é que a cotação caia.

    Além dos agentes habituais, como compradores e vendedores da moeda, o mercado de câmbio conta com outro ator importante: o Banco Central. A autoridade monetária do país pode entrar em ação, comprando e vendendo dólares, de acordo com aquilo que entende como necessidade do momento. Normalmente, o Banco Central age para conter variações muito bruscas do dólar, utilizando suas reservas internacionais para intervir no mercado.

    A cotação que atingiu recorde nesta semana é nominal. Isso significa que não estão contabilizados nesse valor os cenários de inflação do Brasil e dos EUA.

    EVOLUÇÃO NOS ÚLTIMOS 10 ANOS

    Cotação nominal do dólar desde 2009. Acima de R$ 4,00 em 2015, 2018 e 2019

    O dólar mais caro, portanto, não significa necessariamente que há maior poder de compra da moeda americana. Se o preço de um produto aumenta na mesma proporção da cotação da moeda americana, o dólar não ganhou em poder de compra, apenas em valor nominal.

    Fatores que influenciam o câmbio real

    Contas externas

    As contas externas do país consistem basicamente no saldo de todos os dólares que entram e saem do país. O chamado balanço de pagamentos computa desde exportações e importações até os investimentos externos feitos no Brasil. Esse saldo influencia o câmbio ao mostrar como variou a disponibilidade de dólares no mercado nacional. Se mais dólar entrou do que saiu, a oferta de moeda americana aumenta e a cotação tende a cair, e vice-versa.

    Juros

    Os juros de um país são importantes para demarcar quanto um investimento irá render no local. Se os juros brasileiros estão mais altos, por exemplo, isso significa que uma aplicação terá um rendimento mais alto aqui do que em países com juros mais baixos. Assim, o patamar dos juros ajuda a atrair ou não dinheiro de fora, servindo de base para as projeções de rentabilidade de investimentos.

    Inflação

    A inflação influencia o câmbio real por determinar se a cotação nominal do dólar realmente irá alterar seu poder de compra. Se todos os preços subirem no Brasil na mesma proporção de uma elevação na cotação do dólar, a moeda americana não terá ganhos reais, apesar da valorização nominal.

    Em termos reais, o câmbio já atingiu patamares mais altos do que o último valor registrado em outubro de 2019. O Banco Central disponibiliza o câmbio real com frequência mensal e não diária, uma vez que a inflação é medida mês a mês.

    Ao contrário do câmbio nominal, o câmbio real não é divulgado pelo Banco Central em reais. Na prática, ele é sempre medido tendo o mesmo momento pré-determinado como referência. Na série do Banco Central, esse momento é junho de 1994, de forma que, nas contas do Banco, o câmbio daquele mês passa a valer 100. Assim, se no mês seguinte o câmbio real está 1% mais alto, o valor registrado é de 101.

    Com todos os meses contabilizados tomando a mesma referência, é possível ver em quais meses o câmbio real esteve mais alto ou mais baixo. Na série desde junho de 1994, percebe-se que outros períodos, como o biênio 2002-2003 e o início de 2016, registraram o dólar mais caro, em termos reais, do que o observado em outubro de 2019.

    EVOLUÇÃO REAL

    Câmbio real, tendo como referência junho de 1994. Acima do nível atual nos primeiros anos da década de 2000, na virada de 2015 para 2016 e em 2018

    Outros momentos de alta nominal

    Apesar do recorde da cotação do dólar, não é a primeira vez que a moeda fica próxima à faixa de R$ 4,20.

    Nos últimos meses de 2015 e início de 2016, a moeda americana ficou perto de valer R$ 4,20 – o Banco Central registrou dias de fechamento em 4,1999. Naquele momento, sob a presidência de Dilma Rousseff, o Nexo ouviu economistas que associaram a desvalorização do real a três fatores: a perda do selo de bom pagador do Brasil, a descrença do mercado em um ajuste fiscal efetivo pelo governo e o aumento dos juros nos EUA.

    Já no segundo semestre de 2018, o dólar chegou próximo à barreira de R$ 4,20 nos meses de agosto e setembro, no ápice da corrida presidencial vencida por Jair Bolsonaro. À época, o Nexo identificou a preocupação do mercado com a situação fiscal brasileira, mostrando como a moeda americana costuma reagir de forma volátil a períodos de eleição. Nove dias antes do primeiro turno das eleições de 2018, a cotação havia ficado em R$ 4,19; no dia seguinte ao segundo turno, já estava em R$ 3,64.

    Duas análises sobre a alta nominal do dólar

    O Nexo conversou com dois especialistas sobre o que está por trás da alta do dólar em novembro de 2019 e os possíveis efeitos desse movimento.

    • Silvio Campos Neto, economista e sócio da Tendências Consultoria
    • Fernando Ribeiro, professor de economia do Insper

    Quais são os fatores por trás da atual alta do dólar? Quais são as influências dos cenários interno e externo?

    SILVIO CAMPOS NETO

    Há uma somatória de componentes. Em primeiro lugar, no exterior, o dólar segue fortalecido. Isso em virtude não só de um clima ainda de incerteza lá fora, mas também do fato de que a economia americana permanece com uma performance relativamente positiva.

    Do ponto de vista local, acho que há questões mais estruturais, como o diferencial de juros [entre Brasil e EUA] bem mais baixo do que o padrão a que nos acostumamos ao longo das décadas. Isso, por si só, já desestimula a entrada de recursos que visam a operações de curto prazo, de posições mais especulativas. Ao mesmo tempo, há sinais de deterioração das contas externas, refletido na diminuição do saldo da balança e consequente aumento do deficit em conta corrente.

    Podemos colocar nesse pacote também a frustração com os leilões de petróleo no início de novembro. Esperava-se um resultado bem mais favorável, gerando a entrada de dólares, e isso não se materializou. Houve uma mudança de patamar [do dólar] a partir daquele momento. Também podemos colocar nessa conta de novembro os episódios nos países da América do Sul. Não creio que isso vai impactar por muito tempo, mas pontualmente gera algum efeito por toda a instabilidade que se vê na região, pesando bastante nas moedas de Chile, Bolívia e Argentina. O contexto local e regional também contribuiu negativamente com o comportamento do real.

    Mas, de forma geral, a mudança de patamar [do dólar] decorre fundamentalmente do rearranjo de juros mais baixos e contas externas piorando, que se traduzem numa tendência de um real mais depreciado do que se esperava até pouco tempo atrás.

    FERNANDO RIBEIRO

    Do ponto de vista externo, há uma alegada desaceleração da economia mundial. E há gente prevendo que a economia americana vai entrar em uma leve ou breve recessão em 2020. Há também a indefinição das barreiras comerciais entre China e EUA e, de maneira mais difusa e geral, um cenário geopolítico um pouco conturbado por conta de Hong Kong, Líbano, Irã, América Latina.

    Isso leva os investidores a optarem por ativos de menor risco e, naturalmente, menor rentabilidade, porque vão preferir ativos emitidos por governos das economias centrais, como dos EUA. Não vão alocar dólares em títulos ou ativos emitidos por países emergentes, como o Brasil, sejam esses títulos públicos ou privados.

    No cenário interno, há sinais muito ambíguos. Ontem saiu o resultado da conta corrente do balanço de pagamentos: foi o pior resultado em alguns anos. Isso significa que, basicamente, para resolver um desequilíbrio externo, a economia desvaloriza o câmbio.

    Do ponto de vista doméstico, há também uma dificuldade do governo de efetivamente implementar sua política econômica. Paulo Guedes apresentou aquele pacote de medidas fiscais algumas semanas atrás, mas parece que o negócio só vai andar no ano que vem. E a reforma tributária também. O mercado sente que Guedes e Bolsonaro estão apontando na direção correta. Mas que ainda há de se formar um consenso no Congresso para passar esse tipo de coisa. Esse compasso de espera ainda leva as incertezas a aumentarem.

    Como a alta do dólar pode impactar a economia brasileira (tanto do ponto de vista dos indicadores macroeconômicos como do dia a dia da população)?

    SILVIO CAMPOS NETO

    O principal movimento que se espera em um primeiro momento são repercussões em termos de custos de produtos e insumos que tenham uma parcela ou totalidade ligados à importação. Mas, como é um cenário de ainda muita ociosidade na economia, de uma retomada gradual, o próprio repasse desses custos não se dá de uma forma tão rápida ou mesmo numa intensidade tão grande – de modo que os impactos sobre a inflação acabam sendo mitigados. Eles existem, mas não devem ser tão significativos, até porque é uma desvalorização que, em termos percentuais, não causa um estrago tão grande em relação a esses preços.

    Há alguns itens que certamente vão se defrontar com preços mais elevados no curto prazo, e outros que vão ter um repasse menor, inclusive pela questão da ociosidade e da própria condução da economia.

    Do ponto de vista de exportações, acredito que os efeitos são menores, devem ir acontecendo ao longo do tempo, em termos de competitividade. O câmbio muito apreciado é sempre uma reclamação da indústria. Então, em tese, com o dólar mais alto, você poderia viabilizar melhor essas exportações – mas esse caso tem também todo um contexto internacional de dificuldades, com a desaceleração global e a Argentina com problemas graves, então não creio que o setor produtivo especificamente vá se beneficiar de forma muito clara ou muito rápida dessa reorientação do câmbio.

    FERNANDO RIBEIRO

    O câmbio nominal é esse câmbio que é o do dia a dia, que é quanto custa a moeda estrangeira em moeda doméstica. De maneira mais simples: quantos reais custa o dólar. Ele é importante no sentido de as pessoas precificarem seus ativos, sua produção, tomarem suas decisões de fazer uma viagem externa ou não, se vão comprar um bem ou não. São decisões mais imediatas, do dia a dia. Mas há outro câmbio, que é mais importante, que é o real. O câmbio real é o que mostra de fato o poder de compra do Brasil comparado com o resto do mundo.

    O que eu tenho sentido é que Guedes está querendo um câmbio real desvalorizado. Ele está querendo baratear as exportações brasileiras, os ativos produtivos brasileiros, para que o capital estrangeiro possa eventualmente adquirir ativos brasileiros produtivos. Com o câmbio real desvalorizado, tudo que é produzido no Brasil fica mais barato em relação ao resto do mundo. Seja exportação de soja ou de roupas.

    Não se desvaloriza o câmbio real com canetada ou lei, mas com gestão macroeconômica. Ontem ele [Paulo Guedes] falou para nos acostumarmos com o câmbio desvalorizado. Está indicando claramente que, para ele, está tudo bem um câmbio elevado. Ele não vai se preocupar com isso, e o Banco Central não vai intervir para estabilizar o câmbio para baixo.

    Além disso, a inflação está baixa, em mais ou menos 3,5% ao ano acumulada em 12 meses. E o dólar foi de cerca de R$ 3,90 para R$ 4,21 [desde o início do ano]. Isso significa que todos os preços da economia cresceram pouco mais de 3% no ano, e o dólar, por sua vez, cresceu na faixa de 10% em 2019. O dólar ficou relativamente mais caro que tudo. Então você desvaloriza o câmbio nominal por meio de declarações e segura a inflação por meio do Banco Central, com a política de juros. A somatória disso resulta em câmbio real desvalorizado.

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