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Eleição no Uruguai: indefinição, recontagem e conciliação

Margem apertada leva a recontagem no 2º turno das eleições presidenciais uruguaias, onde ambiente de calma contrasta com o do restante da América do Sul

    O segundo turno da eleição presidencial uruguaia, realizado no domingo (24), terminou com uma diferença tão pequena entre os dois concorrentes que parte da apuração será refeita.

    O resultado final só será conhecido na quinta (28) ou sexta-feira (29), de acordo com as autoridades eleitorais locais. Apesar da indefinição, a eleição mais apertada dos últimos 20 anos no Uruguai aconteceu em clima tranquilo e a apuração, embora lenta, não teve contestações.

    Resultado

    Gráfico_Uruguai

    Perfis

    Lacalle Pou

    Luis Lacalle Pou é o candidato opositor, do Partido Nacional, também conhecido como Partido Blanco e lidera uma coligação de outros cinco partidos de perfil de centro-direita. Lacalle Pou propõe uma agenda economicamente liberal, mas ao mesmo tempo promete não revisar medidas que foram aprovadas pela esquerda nos últimos 15 anos, como a união homossexual e a descriminalização da maconha. O líder opositor, filho do ex-presidente Luis Alberto Lacalle (1990-1995), foi deputado e senador e, em declarações públicas, marcou distância do presidente brasileiro, Jair Bolsonaro.

    Daniel Martínez

    Martínez é o candidato governista, que pretende dar continuidade aos 15 anos de administração da Frente Ampla, de esquerda. Foi prefeito da capital do Uruguai, Montevidéu, senador e ministro de Indústria, Energia e Mineração, no primeiro mandato do atual presidente Tabaré Vázquez (2005-2010), seu colega de Partido Socialista. Promete manter o rumo atual na economia, valorizar o Mercosul e enfrentar as questões ligadas à segurança, que preocupam o eleitorado uruguaio, e que vêm dando votos ao candidato de centro-direita, Lacalle Pou.

    No primeiro turno, realizado em 27 de outubro, a vitória do governista Daniel Martínez tinha sido folgada. Ele terminou com 39,2% dos votos, contra 28,62% de Lacalle Pou. A diferença, no entanto, não foi grande o bastante para eliminar a necessidade de um segundo turno entre os dois.

    Agora, no segundo turno, com 100% das urnas apuradas, a diferença deles é de apenas 1,2 ponto. Esse percentual corresponde a 28.666 votos. É uma diferença muito pequena, que pode corresponder a erros de contagem ou outras imprecisões. Por isso, a Corte Eleitoral do Uruguai resolveu refazer a apuração de um grupo específico de eleitores.

    Como será feita a recontagem

    A recontagem será feita sobre um grupo chamado “votos observados”. Esses “votos observados” correspondem a eleitores idosos, com incapacidades físicas ou outras restrições, além de cidadãos envolvidos no processo eleitoral, como mesários, e militares responsáveis pelo trabalho de guarda dos locais de votação no dia da votação.

    Os eleitores que fazem parte desse grupo têm em comum o fato de não terem votado na zona eleitoral para o qual foram originalmente designados. Como são eleitores com problemas de locomoção ou de disponibilidade física, eles votam em locais de votação diferentes dos locais daqueles que, a princípio, constavam no registros oficiais. Seus votos têm, portanto, apuração especial, mais criteriosa e mais lenta.

    Esse grupo corresponde a 35.229 votos. É um universo pequeno, mas decisivo, pois a diferença entre os dois candidatos é de apenas 28.666 votos. A Justiça Eleitoral vai agora se debruçar sobre esse universo e divulgar o novo resultado final até quinta (28) ou sexta-feira (29).

    Sem contestação

    A incerteza sobre o resultado final e a margem de diferença apertada entre os dois candidatos não levou, no entanto, às disputas renhidas que a América do Sul habituou-se a ver nos últimos meses.

    Os dois candidatos, assim como seus eleitores, mantiveram um comportamento relativamente pacífico e aceitaram aguardar a contagem até o final, sem contestações à legalidade do processo.

    “O que mais queremos é uma sociedade em paz, e por isso precisamos ter paciência para esperar a contagem final dos votos, nos próximos dias”, disse Lacalle Pou, no comício com seus apoiadores, logo após o anúncio de atraso na divulgação do resultado final.

    “Nossa identidade democrática é robusta e é preciso cuidar dela a cada gesto, e a partir de todas as correntes políticas”, disse Martínez pelo Twitter. “Qualquer resultado confirmará a vocação popular de construir a partir dos encontros orgulhosos de nossa liberdade.”

    A serenidade dos dois líderes e de seus eleitores chama a atenção especialmente no momento em que outros países da região vivem tensões por processos eleitorais contestados.

    O mais recente deles é a Bolívia, onde a suspeita de irregularidades na apuração levou a protestos de rua e a uma ameaça de golpe militar que terminou por forçar o presidente Evo Morales a renunciar.

    Também a Venezuela vive tensão semelhante, há muito mais tempo. Lá, a oposição contesta a vitória eleitoral do atual presidente, Nicolás Maduro, que, ao contrário de Evo, recusa-se a abandonar o posto, e denuncia um golpe de Estado.

    Tensões políticas também ocorrem no Chile, no Peru e no Equador, com diferentes contornos e por diferentes causas – mas todas elas convergindo para um período de instabilidade sul-americana, com o qual o Uruguai contrasta, mesmo num momento de grande indefinição.

    João Paulo Charleaux é repórter especial do Nexo e escreve de Paris

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