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Como o PT se organiza para as eleições de 2020 e 2022

Em congresso que reforçou a hegemonia da corrente do ex-presidente Lula, partido defendeu união com outras siglas progressistas, mas não demonstrou estar disposto a abrir mão de protagonismo na disputa nacional

    O congresso nacional do PT terminou no domingo (24) com a reeleição da deputada Gleisi Hoffmann (PR), com o apoio do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Ela comandará a legenda até 2024. Como linha política para os próximos anos, o partido defendeu a união com outras siglas do campo progressistas, e até mesmo com partidos do centro político, na defesa de pautas democráticas.

    No primeiro evento do partido desde que deixou a prisão, Lula leu seu discurso na abertura do congresso, na sexta-feira (22). O ex-presidente defendeu a polarização com o presidente Jair Bolsonaro e se manifestou contra o radicalismo, postura que relacionou às declarações do presidente em defesa da ditadura militar e da tortura, e de seu filho, o deputado Eduardo Bolsonaro, sobre um novo AI-5.

    O PSDB também foi criticado, tanto pela aprovação da reeleição em 1997, no governo de Fernando Henrique Cardoso, quanto por pedir a revisão do resultado das eleições presidenciais de 2014, quando a sigla era comandada pelo então senador e hoje deputado Aécio Neves, derrotado por uma pequena margem de votos por Dilma Rousseff.

    “Aos que criticam ou temem a polarização, temos que ter a coragem de dizer: nós somos, sim, o oposto de Bolsonaro. Não dá para ficar em cima do muro ou no meio do caminho: somos e seremos oposição a esse governo de extrema direita que gera desemprego e exige que os desempregados paguem a conta”

    Luiz Inácio Lula da Silva

    Ex-presidente da República

    O presidente também rebateu a cobrança por autocrítica pelo PT, dizendo que erros foram cometidos antes e depois dos governos da sigla, sem receber o mesmo pedido. Lula afirmou que o erro do partido foi não ter “feito mais e melhor”.

    A ex-presidente Dilma Rousseff também discursou durante o evento, que contou com a participação de membros do partido condenados pela Lava Jato, como o ex-ministro José Dirceu e os ex-tesoureiros João Vaccari Neto e Delúbio Soares.

    Os próximos quatro anos do PT

    A resolução final do partido aprovada no congresso defende a busca de alianças com candidatos de campos progressistas com chance de vitória nas próximas eleições, com o objetivo de construir uma maioria consistente para derrotar “a ultradireita” nas eleições municipais de 2020. Em defesa de pautas democráticas, a sigla também citou a união com siglas de centro, às quais se contrapõe no campo econômico.

    Para as eleições de 2022, Gleisi defendeu a candidatura de Lula e disse que o ex-presidente percorrerá o país em caravanas. O ex-presidente não pode disputar eleições com base na Lei da Ficha Limpa, que impede a candidatura de condenados na segunda instância. Lula já foi condenado em terceira instância pelo caso do tríplex de Guarujá.

    A presidente do partido também pediu a punição do ex-juiz da Lava Jato e ministro da Justiça de Bolsonaro, Sergio Moro, diante das mensagens divulgadas pelo site The Intercept, que colocaram em xeque a conduta do ex-magistrado na condução dos processos da operação. Com base nisso, a defesa do ex-presidente busca a anulação do processo junto ao Supremo Tribunal Federal. Ainda não há data para o julgamento.

    “Queremos Lula presidente novamente. Queremos a prisão de Sergio Moro pelas barbaridades que cometeu”, disse Gleisi.

    A jornalistas, a deputada defendeu uma mudança na comunicação do partido, reconhecendo que a direita estava à frente neste aspecto e afirmando que é preciso organizar e potencializar os canais nas redes sociais, informou o jornal Folha de S.Paulo.

    O documento final ganhou uma emenda defendida por correntes à esquerda do partido, abrindo a possibilidade do PT apoiar um eventual pedido de impeachment contra Bolsonaro, mas apenas diante de uma mudança no contexto social e na percepção pública sobre o governo.

    Como é a correlação de forças dentro do partido

    Assim como Lula, Gleisi faz parte da corrente majoritária do partido, a CNB (Construindo um Novo Brasil), que também têm como membros nomes como Aloizio Mercadante, José Dirceu e Fernando Haddad. Ela foi reeleita com 71,5% dos votos dos 792 delegados. A mesma corrente também obteve a maior parte das vagas do diretório nacional, que tem 90 membros.

    Os outros dois candidatos na disputa representavam correntes mais à esquerda na sigla. A deputada Margarida Salmão (MG) obteve 16,8%, representando três correntes da sigla:

    • DS (Democracia Socialista) - corrente histórica do partido

    • MS (Militância Socialista), que tem como lideranças Paulo Pimenta e Paulo Teixeira

    • Avante - criada pelos deputados Maria do Rosário e Arlindo Chinaglia. Também tem a governadora do Rio Grande do Norte, Fátima Bezerra

    O historiador Valter Pomar teve 11,8% dos votos, representando correntes mais recentes da sigla:

    • AE (Articulação de Esquerda)

    • NR (Novo Rumo), do ex-presidente do PT Rui Falcão e José Américo

    • EPS (Esquerda Popular e Socialista), forte na Bahia e Santa Catarina, e que tem como um dos líderes o ex-deputado federal Walmir Assunção. É responsável pela Secretaria Nacional de Movimentos Populares

    O posicionamento do PT nas próximas eleições

    Para entender como as definições do partido durante o congresso impactam as duas próximas eleições, o Nexo conversou com o cientista político e professor da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, Rui Tavares Maluf.

    O que esperar do partido para as eleições municipais de 2020? O PT vai abrir mão da cabeça de chapa nas capitais?

    Rui Tavares Maluf Algumas declarações dos dirigentes do PT apontam para essa direção, cobrando da cúpula partidária nacional. Esses discursos que estão sendo colocados pelo PT — aliás não só por ele — falam da importância de uma aliança para resistir a direita. Porém não dá para perder de vista as questões partidárias, que combinadas às regionais têm um peso muito grande. Como o PT é o maior [partido], sempre encontrou muita dificuldade para abrir mão de uma hegemonia. Essa prática, em geral, de procurar estar na dianteira de tudo não tende a mudar muito. O próprio resultado da convenção, com a reeleição da Gleisi, já aponta um pouco isso. A declaração que o ex-presidente deu no dia da soltura também vai na mesma direção.

    Por outro lado, era o próprio ex-presidente que de certa forma cobrava um pragmatismo maior do partido, que seria a capacidade de você se aliar — mas era um “se aliar desde eu mande e que seja como eu quero”.

    Como a eleição municipal é um fenômeno que envolve milhares de municípios, a gente sempre imagina que o PT possa se sair melhor nos

    grandes centros urbanos, mas são muitas realidades distintas, o que torna difícil fazer uma afirmação fechada. Vamos ter que observar o resultado das eleições municipais, porque tanto o PT quanto o Bolsonaro vão utilizar, em certa medida, as eleições municipais para essa manutenção da polarização. A tendência é que na [eleição] nacional isso possa estar muito mais forte.

    O que esperar para as eleições de 2022? O partido vai apostar em Lula como candidato à Presidência?

    Rui Tavares Maluf Claro que isso vai depender de todo o quadro jurídico que está envolvendo a figura dele. Com a Gleisi no comando e todo um grupo, não me surpreendo que se insista nesse caminho, independentemente da situação atual permanecer, na qual se entenderia que ele não teria condições jurídicas de poder disputar a eleição. Mesmo assim, tal como foi quando ele estava preso, insistiu-se que ele seria candidato e se manteve o nome dele praticamente até a reta final. Não me surpreende que isso possa ser um caminho pra tentar fazer com que lá na frente a força dele seja capaz de transferir votos.

    Esse é o grande desafio que o PT tem porque, no meu entendimento, você está fazendo uma aposta de altíssimo risco, que é mais uma vez mostrar que depende sempre de uma liderança, que é ela que unifica o partido. Mesmo que uma parte desse mesmo partido se sinta incomodada com essa aposta, ela não mostra também força para buscar um caminho diferente.

    Se não der certo, a depender também do resultado das eleições do ano que vem, o partido pode ser destroçado porque ele saiu de certa maneira enfraquecido de tudo isso que a gente viveu nos últimos tempos com a Operação Lava Jato.

    Por outro lado, o discurso em geral do segmento à esquerda, que poderia explorar a fragilidade do PT, não encontra um encaixe correto para se sintonizar com toda uma ansiedade por mudanças maiores, que também não estão necessariamente bem conduzidas pelo que seria dos setores a direita. Então, você tem um vasto campo a ser descoberto, que você pode ou não denominar como centro.

    Sem o Lula, o PT teria um candidato à Presidência?

    Rui Tavares Maluf Hoje, dentro do partido, não consigo mais ver. Acho que lideranças que existiam lá atrás, seja Tarso Genro ou [Aloizio] Mercadante, eram nomes poderiam ser trabalhados, mas nunca foi dado o espaço devido a eles. Para o Lula, também era conveniente que essas forças estivessem divididas. Não consigo ver uma alternativa dentro do partido, a não ser que o PT consiga trazer um quadro importante de fora, o que teria que acontecer rapidamente, até o começo do próximo ano.

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