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Como o desmatamento pode levar a Amazônia ao colapso

Sem cobertura vegetal suficiente, maior floresta tropical do mundo poderia se transformar em bioma como a savana e o cerrado, segundo estudos. Hipótese não é consenso entre cientistas

A alta do desmatamento, somada aos efeitos das mudanças do clima, pode levar a Amazônia a um processo de transformação de seu aspecto de floresta tropical para uma área de paisagem árida e seca, semelhante à das savanas africanas ou à do Cerrado no Brasil.

É o que dizem há anos cientistas que estudam os efeitos da degradação ambiental na maior floresta tropical do mundo. A transição para um bioma seco, chamada de “savanização” da floresta, ocorreria a partir do momento em que a redução vegetal e a alta das temperaturas atingissem um ponto considerado inviável para uma floresta úmida.

25%

de desmatamento na Amazônia é considerado o limite que a floresta pode suportar até atingir um “ponto de ruptura”, apontam cientistas

A hipótese da savanização foi lançada em 1991 pelo climatologista Carlos Nobre, um dos mais influentes estudiosos sobre a Amazônia. Anos mais tarde, tanto ele quanto outros pesquisadores continuam a publicar estudos sobre o assunto, e a teoria é citada em relatórios do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas), grupo vinculado à ONU que se tornou maior autoridade da ciência do clima.

Até a década de 1960, o desmatamento na Amazônia brasileira não passava de 1% da floresta. Atualmente, chega a cerca de 20%, enquanto na Amazônia internacional fica em 17%. A velocidade da devastação se acentuou com a ocupação da região, e hoje secas intensas e outros eventos dão sinais de mudanças no clima local.

A discussão sobre a savanização ganha espaço com o anúncio, feito na segunda-feira (18), de alta no desmatamento na Amazônia entre agosto de 2018 e julho de 2019, segundo dados do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais). Eles mostram que nesse tempo houve destruição de 9.762 km² de floresta, uma alta de 29,5% em relação aos 12 meses anteriores. É o recorde de desmate na Amazônia nesta década.

O que é a savanização da floresta

A savanização da Amazônia, segundo estudos, se inicia a partir do chamado ponto de não retorno, momento em que a floresta não tem mais capacidade de se regenerar diante do desmatamento, da degradação ambiental e dos efeitos da mudança climática em curso.

A publicação “O futuro climático da Amazônia”, editada em 2014 por Antonio Nobre, apresenta as etapas que levam ao ponto de não retorno, classificado pelo cientista como uma “falência múltipla de órgãos”. Sem floresta, ele diz, desaparecem seus benefícios para o clima — o que, por sua vez, afeta a vegetação restante. A remoção de árvores também debilita a capacidade da Amazônia de trazer ar úmido e chuvas.

Além disso, a fumaça e a fuligem, nos casos de remoção de floresta com queimadas, criam nuvens poluídas que não produzem chuvas. Sem essas chuvas na estação seca, a vegetação seca além do limite e se torna inflamável — até o ponto em que o fogo entra na mata, queima raízes e mata árvores grandes. Todos os efeitos do desmatamento se potencializam, diz Antonio Nobre, e rapidamente a floresta passa a mudar.

“O ponto de não retorno é o início de uma reação em cadeia, como uma fileira de dominós em pé. Tombando o primeiro, tombarão todos os demais. O sistema vivo na floresta, brutalmente desequilibrado, saltará para outro estado de equilíbrio”

Antonio Nobre

na publicação “O futuro climático da Amazônia”, de 2014

A partir de um momento, as reações em cadeia podem se transformar em um processo de savanização, dizem estudos. Isso se explica por um conceito chamado equilíbrio estável — que define que, como o clima interage com a vegetação, ao mudar um o outro também muda.

Atualmente, clima e vegetação na Amazônia estão em equilíbrio estável na condição úmida, afirma Antonio Nobre. Atividades como o desmatamento, no entanto, podem levar o clima a mudar gradualmente e se instabilizar até chegar ao ponto de não retorno.

30 a 50 anos

é o tempo estimado de transição da vegetação úmida para a seca caso se concretize o processo de savanização na Amazônia, dizem cientistas

Um estudo de 2003 de Carlos Nobre e Marcos Oyama constatou que haveria dois estados possíveis de equilíbrio para a vegetação na Amazônia, diante do desmatamento e da mudança climática. O primeiro mostra que a savana passaria a ser favorecida pelo novo equilíbrio mas não avançaria no restante da floresta úmida. O segundo sugere que mesmo áreas não desmatadas da Amazônia tropical virariam savanas.

Alguns especialistas dizem que a savanização da Amazônia já está em curso na região do arco do desmatamento, que se caracteriza pelo encontro entre a fronteira agrícola e a floresta. Ela vai do leste e sul do Pará rumo a oeste, passando pelos estados de Mato Grosso, Rondônia e Acre. Ali estão os maiores índices de desmatamento na Amazônia.

O que muda com a savanização

Além de provocar mudança na própria vegetação da Amazônia, a savanização, se confirmada, teria impacto sobre espécies que vivem ali, a vida e o cotidiano das populações locais e sobre aqueles, na Amazônia ou fora dela, que se beneficiam dos serviços ambientais da floresta, como a oferta de alimentos e a distribuição de chuvas.

40%

da biodiversidade conhecida na Terra está na Amazônia

25, 4mi

de pessoas viviam na Amazônia Legal em 2010, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística)

A Amazônia tem papel na regulação do clima e da umidade no Brasil e na América do Sul. Sem a floresta, haveria menos chuvas, e a agricultura no Centro-Oeste e Sudeste brasileiro perderia produtividade. As projeções falam também na diminuição de estoques pesqueiros por conta do surgimento de secas extremas e na alta da incidência de doenças transmitidas por vetores, todos ligadas à perda da floresta.

A publicação “O futuro climático da Amazônia” diz que, em um cenário extremo, a perda da umidade hoje vinculada à floresta levaria o clima sul-americano a “secar consideravelmente”, “chegando a se assemelhar com o da Austrália: um imenso deserto interior, cercado em um dos lados por franjas de áreas úmidas próximas ao mar”.

A perda da Amazônia também traria impactos de grande porte na atmosfera, segundo estudos. Atualmente, a floresta tropical tem grande potencial de sequestro de carbono — cerca de 14% das emissões globais do gás do efeito estufa são absorvidas na região. A vegetação típica de savanas não tem a mesma capacidade.

O que há de incerto na teoria

A perspectiva de savanização da Amazônia não é consenso entre cientistas, pois existem incertezas em relação às projeções de seca na região amazônica e à reação da floresta a um novo cenário.

Aqueles que criticam a teoria afirmam que os estudos que preveem a savanização erram por subestimar a capacidade da floresta de se adaptar à perda de umidade e ao aumento das temperaturas. Outra chance possível, segundo cientistas, seria a Amazônia se tornar uma floresta sazonal, alternando estações secas e úmidas.

Apesar das incertezas, especialistas defendem que mesmo o risco da savanização deveria bastar para a adoção de medidas de adaptação a outro cenário na floresta. Um estudo de 2018 publicado no Pnas, periódico vinculado à Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos, lista 20 ações do tipo que trariam ganhos sociais e ambientais imediatos.

US$ 122 bi

é o custo estimado em ações de adaptação na região da Amazônia em artigo de 2018 publicado no Pnas

US$ 3,6 tri

é o custo estimado da savanização para a região Amazônia (sem as medidas de adaptação), segundo o mesmo estudo

Eles afirmam que é preciso combater o desmatamento, mas listam medidas como o cultivo de plantas resistentes a secas, a ampliação da arborização em áreas urbanas e o incentivo à produção local de energia solar. Outra alternativa, dizem os cientistas, seria reverter a mudança climática — processo que, contudo, exige esforços globais, não só na Amazônia.

Para David Montenegro Lapola, pesquisador na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) que assinou o artigo, a pior alternativa é continuar impassível. “A Amazônia é o maior tesouro biológico do mundo e nós estamos correndo sério risco de perdê-la antes que tenhamos aprendido a usar esse tesouro de maneira sustentável a nosso favor”, disse em 2018 ao Jornal da Unicamp.

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