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Bolsonaro e Witzel: o acirramento no choque ultraconservador

De olho na disputa presidencial de 2022, o presidente e o governador do Rio de Janeiro passaram de aliados a adversários. O ‘Nexo’ conversou com um cientista político sobre os efeitos do embate

    Wilson Witzel foi alvo direto de Jair Bolsonaro na quinta-feira (21), durante evento em que o presidente lançou a Aliança pelo Brasil, legenda que pretende criar para abrigar seus aliados mais fiéis. Foi mais um capítulo de uma escalada de ataques entre o presidente e o governador do Rio em 2019. Ambos foram parceiros de discurso ultraconservador nas eleições de 2018, mas acabaram rompendo.

    Witzel não esconde seus planos de disputar o Palácio do Planalto em 2022. Bolsonaro, por sua vez, fala abertamente em reeleição. Os dois compartilham um discurso de extrema direita, linha dura na segurança pública e com apelo religioso e moral. Foram beneficiados em 2018 por uma onda antissistema, de questionamento à política tradicional.

    Governador e presidente compartilham também o berço político. Enquanto Witzel estreou nas urnas em 2018, Bolsonaro vem disputando eleições no Rio há três décadas. Dois filhos do presidente, aliás, mantêm sua base eleitoral no estado. O segundo filho de Bolsonaro, Carlos, é vereador na capital, enquanto o primogênito Flávio é senador fluminense. O presidente costuma dizer que Witzel deve sua eleição a Flávio.

    Quem é Wilson Witzel

    Witzel estreou na política em 2018, quando se filiou ao PSC e pela primeira vez disputou uma eleição. Para isso, ele abriu mão de uma carreira de 17 anos como juiz federal. Antes de atuar no direito, foi fuzileiro naval da Marinha.

    Pouco conhecido do eleitorado, usou o discurso de vir de fora da política, levantou bandeiras anticorrupção e defendeu planos linha dura para a segurança pública, plataforma semelhante à de Bolsonaro.

    A menos de duas semanas do primeiro turno, Witzel aparecia nas pesquisas com cerca de 5% das intenções de voto, com cinco adversários numericamente à frente na disputa. A virada aconteceu após intensificar a associação direta com Bolsonaro, para quem declarou voto no último debate antes do primeiro turno.

    Bolsonaro não indicou preferência e se disse neutro na disputa fluminense em 2018. Já o filho Flávio, mais votado para o Senado no Rio de Janeiro, apoiou diretamente a campanha de Witzel, participando de carreatas ao lado do então candidato e afirmando que ambos vestiam a mesma camisa.

    O périplo resultou na obtenção de surpreendentes 41% dos votos no primeiro turno. No segundo turno, derrotou Eduardo Paes (DEM), com cerca de 60% dos votos válidos.

    Os primeiros desentendimentos

    A partir de março, Witzel iniciou o movimento de descolamento da família Bolsonaro de olho nas próximas eleições presidenciais. Retirou da articulação política do governo Gutemberg de Paula Fonseca, aliado do clã, e fez articulações inclusive no Legislativo paulista.

    O rompimento do PSL (agora ex-partido dos bolsonaristas) com o governo Witzel na Assembleia do Rio viria em setembro, por “posicionamentos políticos” do governador e por orientação do senador Flávio Bolsonaro. A principal insatisfação dos bolsonaristas partia do fato de o governador ter, em várias ocasiões, declarado o desejo de se tornar presidente da República.

    A briga no caso Marielle

    O confronto entre Witzel e Bolsonaro se tornou direto no dia 29 de outubro, quando o Jornal Nacional revelou que o presidente havia sido citado por um porteiro de seu condomínio no âmbito do inquérito que investiga o assassinato da vereadora do PSOL Marielle Franco, informação que seria desmentida pelo Ministério Público no dia seguinte.

    Bolsonaro acusou Witzel de vazar o conteúdo da investigação, que tramita em sigilo, para a emissora. O presidente disse que soube pelo governador, num evento no dia 9 de outubro, que o processo havia sido enviado ao Supremo por citá-lo.

    Witzel negou ter vazado ou tido acesso aos documentos da investigação e disse que o presidente havia agido em um momento de descontrole emocional.

    Na quinta-feira (21), Bolsonaro voltou a acusar Witzel de interferir no inquérito do crime e de usar a Polícia Civil do Rio contra ele, transformando a vida da família Bolsonaro “em um inferno”.

    Witzel reagiu prometendo tomar “providências judiciais” contra Bolsonaro e dizendo que o presidente havia “passado dos limites”. “Ele (Bolsonaro) está acusando um governador de manipular a polícia do seu Estado. A polícia do Rio é independente”, afirmou.

    De Bolsonaro a Witzel

    Bolsonaro se notabilizou na política ao defender a ditadura militar e exaltar seus torturadores. Tem um histórico de ataque a minorias e estabeleceu como bandeira de governo armar a população (já assinou decretos nesse sentido) e isentar penalmente excessos de policiais, com projetos apresentados sobre o tema.

    Witzel tem se notabilizado também pela linha dura na área de segurança pública. Assim como Bolsonaro, defende que policiais atirem para matar.

    O número de mortos por ações policiais cresceu no estado do Rio de Janeiro em 2019, para o patamar mais alto em mais de duas décadas. O índice de demais assassinatos caiu — uma tendência registrada no Brasil como um todo desde 2018.

    O governador já apareceu vestido com trajes de policial e dando tiro de sniper, fazendo flexões com um batalhão (assim como Bolsonaro) e a bordo de um helicóptero do qual um policial disparou tiros na cidade de Angra dos Reis.

    Em agosto de 2019, logo após um atirador de elite matar o sequestrador de um ônibus na ponte Rio-Niterói, Witzel chegou ao local de helicóptero e desembarcou comemorando, com sorriso e gestos de satisfação.

    No mesmo mês, o governador afirmou que os assassinatos de inocentes no Rio de Janeiro são responsabilidade de defensores de direitos humanos, pelo fato de estes questionarem a política de policiais atirarem para matar. A fala foi duramente criticada por várias entidades, inclusive a OAB (Ordem dos Advogados do Brasil).

    No final de setembro, após a menina Ágatha Félix, de 8 anos, se tornar a quinta criança morta por tiros no estado em 2019, Witzel foi duramente criticado por sua política de segurança no estado. Ele se manifestaria apenas nove dias depois, acusando opositores de usar a morte de uma criança “como palanque” e defendendo as medidas adotadas por seu governo na área.

    O interesse eleitoral na disputa

    Para entender as motivações das críticas feitas pelo presidente contra o governador do Rio de Janeiro, o Nexo conversou com o cientista político e professor da UFRJ Ivo Coser.

    Por que Bolsonaro ataca Witzel?

    Ivo Coser

    Bolsonaro quer ter o monopólio sobre a direita no Brasil. Sua pauta com relação à segurança, que foi um dos principais pontos do Witzel, ao combate à corrupção e à crítica à velha política são pontos que, por um lado os une, mas ao mesmo tempo os coloca como rivais na tentativa de monopolizar essa fatia do eleitorado que, digamos assim, se coloca contra tudo que está aí. Esse tudo inclui tanto o que chamam de velha política, como também políticas de segurança calcadas no tema dos direitos humanos e nas populações periféricas. Witzel já avisou que será candidato em 2022, então, ele é um adversário de Bolsonaro, que tem um modus operandi de uma metralhadora giratória, mirando vários adversários ao mesmo tempo: Lula [ex-presidente], Witzel, [João] Doria [governador de São Paulo].

    Essa disputa entre ultraconservadores deve ser relevante em 2020, nas eleições municipais, e em 2022, nas próximas eleições presidenciais?

    IVO COSER

    Tenho pensado muito sobre isso. As últimas eleições presidenciais abalaram profundamente os antigos padrões de disputa. Até então, desde a década de 1990, os temas municipais predominaram no debate eleitoral. Isso é muito forte, podemos dizer, nas capitais, nas grandes cidades. Fico um pouco na dúvida se essa questão [do discurso ultraconservador] vai entrar [no debate municipal]. Parece que o bolsonarismo quer enfatizar essa nacionalização, mas não sei se essa pauta vai ser inserida. Uma coisa é São Paulo e Rio, outra é Volta Redonda, Pindamonhangaba. Para as [próximas] eleições presidenciais, parece que sim [há tração no discurso ultraconservador]. Mas isso depende do desenrolar do caso Marielle e de outras investigações em torno da família do presidente.

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