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A comunicação de Gugu Liberato, segundo estes críticos de TV

Cristina Padiglione e Mauricio Stycer falam ao ‘Nexo’ sobre o estilo e as marcas deixadas pelo apresentador, que morreu após um acidente doméstico

    Ícone da TV brasileira nos anos 90, Gugu Liberato teve a morte anunciada na sexta-feira (22). O apresentador estava internado havia três dias em um hospital na cidade de Orlando, no estado americano da Flórida, onde a família tem uma casa num condomínio. Seu corpo será velado no Brasil, na Assembleia Legislativa de São Paulo, em data a ser definida.

    Antônio Augusto Moraes Liberato, de 60 anos, foi vítima de um acidente doméstico, ao cair de uma altura de quatro metros quando tentava consertar um ar-condicionado no sótão da casa. Deixa esposa e três filhos, além de uma forte marca na história do entretenimento nacional.

    Foram 40 anos dedicados à TV. Gugu começou como assistente de produção de Silvio Santos no SBT quando ainda era adolescente. Viveu seu auge no programa “Domingo Legal”, com o qual disputava a audiência palmo a palmo com o “Domingão do Faustão” da Rede Globo. Era uma batalha aberta que incluía atrações apelativas dos dois lados.

    No programa do SBT, corpos femininos eram a atração da “Banheira do Gugu”. No “Táxi do Gugu”, atores simulavam ser pessoas comuns. Em 2003, o apresentador chegou a mostrar uma entrevista com falsos integrantes do PCC. Seis anos depois, já em declínio, foi para a Record, onde comandava atualmente o reality “Canta comigo”.

    O Nexo conversou com os jornalistas Cristina Padiglione e Mauricio Stycer, críticos de TV que acompanharam a carreira do apresentador, para saber o que Gugu trouxe de diferente para as telas e quais as marcas deixadas por ele.

    O que Gugu Liberato trouxe de novo para a TV?

    CRISTINA PADIGLIONE Discípulo de Silvio Santos, Gugu trazia para o seu auditório muitas ideias não exatamente inéditas na televisão, mas inéditas na TV brasileira. A TV italiana e a TV espanhola tinham muito (e ainda têm) daquele circo que ele produzia no palco, evidentemente com adaptações à altura do público local. A desenfreada concorrência entre Faustão e Gugu nas tardes de domingo, no entanto, prova que cada um estava testando os limites do que era entretenimento para o público, que se divertia com aquela banheira no palco, com a dupla “ET e Rodolfo”... Mas o principal era a capacidade de um comunicador em persuadir o público a permanecer naquele canal, com suspenses que nem sempre eram tão extraordinários como ele anunciava.

    MAURICIO STYCER Gugu integra uma turma mais famosa pela incrível capacidade de comunicação do que pela inovação. É nesse universo que ele se destaca. Quase 40 anos apresentando diferentes programas, com sucesso de público. Como descrever essa capacidade? Não é fácil, uma vez que ela é resultado de qualidades não facilmente mensuráveis, como carisma, postura, voz, aparência física, somada à capacidade de encantar com as atrações exibidas. Com seu jeito quase infantil, ingênuo, ele sempre transmitiu a impressão de que se surpreendia com tudo que exibia. O espectador notava emoção quando Gugu parecia emocionado, tristeza quando o apresentador parecia triste e graça quando ele gargalhava.

    Qual Brasil ele refletia em seus programas?

    CRISTINA PADIGLIONE Penso que o Brasil encantado com aquele circo (e não digo isso de forma pejorativa, já que o palco de um programa de auditório é uma versão de picadeiro com outros elementos). Era um Brasil carente de outras formas de entretenimento, sem outras opções muito melhores ao alcance do bolso ou da mobilidade. Mas os programas e seus horários, nas noites de sábado ou nas tardes de domingo, encontravam invariavelmente um público em busca do ócio e de algo de rápida assimilação, para se divertir, sem compromisso com o pensamento. Em um caso ou em outro, o programa fisgava o público pelo fator emoção, e não razão.

    MAURICIO STYCER Tanto no SBT quanto na Record, entre 1981 e 2019, Gugu sempre se dirigiu a universos muito grandes, de diferentes camadas sociais e faixas etárias. No seu auge, à época do “Viva a Noite” (1982-1992) e do “Domingo Legal” (1993-2009), foi um comunicador popular por excelência, oferecendo entretenimento básico, sem maior sofisticação, a quem estava disposto. Muita música popular, diversões apelativas (a banheira), pegadinhas orquestradas (o táxi), muita sensualidade, brincadeiras de duplo sentido, boas doses de sensacionalismo e assistencialismo. No infame episódio do PCC, ele mostrou uma face sombria, na qual o vale tudo pela audiência deu as mãos a uma farsa.

    O que há de Gugu na TV aberta atual? Há um legado ou ele fazia uma TV que não existe mais?

    CRISTINA PADIGLIONE Há um enorme legado. Embora muitas coisas tenham se tornado mais comportadas e com julgamentos mais rígidos, um bom comunicador é peça essencial para comandar o show. Além disso, não teríamos encontrado o formato atual se não tivéssemos passado pelas banheiras do Gugu, táxis do Gugu, sushis eróticos e Latininhos [estas duas últimas atrações, do “Domingão do Faustão”]. Um programa de auditório é um constante teste do que pode funcionar ou não diante da massa naquele horário, mas um bom comunicador, capaz de falar a linguagem que o grande público entende, com respeito devido, nunca foi tão importante como hoje, nesse universo de tantas telas. Vamos lembrar que o auge de Gugu foi dos anos 1990 até início de 2000, quando rede social era só ideia de filme de ficção científica.

    MAURICIO STYCER Não vejo um legado, exatamente, dos apresentadores mais populares, como Silvio Santos, Gugu ou Faustão. Mas acho que todos eles mostraram que é possível oferecer entretenimento apenas com um microfone na mão e muito jogo de cintura. Alcançaram o auge num momento em que a TV ainda improvisava muito e tinha menos recursos. Nos últimos dois anos, Gugu sentiu na pele os novos tempos, nos quais imperam os chamados “formatos”, que as emissoras compram prontos, e cabe ao apresentador apenas seguir um roteiro pré-determinado. Foram os seus últimos trabalhos: “Power Couple” e “Canta Comigo”. Em ambos, não foi o Gugu que a gente conhecia. Em uma entrevista que fiz com ele em abril, ele deixou passar uma rápida lamentação: “Já não se formam novos comunicadores como antes”.

    O que há de Gugu no mundo digital, nas redes sociais?

    CRISTINA PADIGLIONE Acho que Gugu foi seu próprio algoritmo quando essa métrica não guiava os passos dos comunicadores, executivos do showbiz, políticos e até juízes em dia de votação. Conhecia seu público como poucas personalidades e fazia bom uso desse conhecimento, mas era civilizado, cortês, incapaz de partir para ataques nos níveis hoje vistos nas redes sociais. Cometeu seus excessos na tela, ultrapassando a linha do sensacionalismo em várias ocasiões e até a linha do bom senso, mas era polido, muito gentil para os parâmetros da invasão hater que hoje quer ocupar espaço nos mais variados assuntos.

    MAURICIO STYCER Tenho a impressão que as crianças e adolescentes que assistiram Gugu nos anos 1990 e 2000 se ressentem, mais do que espectadores de outras gerações, do fato de a televisão hoje ser mais “bem-comportada” e menos abusada. Vejo esse saudosismo nas redes sociais.

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