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Quem foi Henry Sobel. E qual foi sua importância política

Rabino americano radicado em São Paulo se destacou como líder comunitário que enfrentou a ditadura militar no Brasil. Para Michel Schlesinger, ele mostrou à sociedade ‘a melhor face do judaísmo: a face humanista’

O rabino Henry Sobel morreu aos 75 anos de idade nesta sexta-feira (22), em Miami, nos Estados Unidos, em decorrência de complicações associadas a um câncer. O enterro está marcado para domingo (24) e deve acontecer em Nova York.

Sobel foi um dos principais líderes da comunidade judaica no Brasil, tendo se destacado nos anos 1970 por defender os direitos humanos em meio à ditadura militar (1964-1985).

A trajetória do rabino

Henry Isaac Sobel nasceu em Lisboa, Portugal, em 1944. Ainda criança mudou com a família para os Estados Unidos, e tinha nacionalidade americana. Formou-se como rabino na Hebrew Union College Jewish Institute of Religion, em Nova York.

Em 1970, por indicação do diretor dessa instituição, foi contratado pela CIP, a Congregação Israelita Paulista – que havia sido fundada em 1936 e seguia a linha do judaísmo reformista, assim como Sobel. Essa linha propõe uma interpretação mais moderna dos textos religiosos e das tradições.

Chegou ao Brasil, em São Paulo, com 26 anos de idade. Na CIP, teve forte atuação junto aos jovens da comunidade judaica. Manteve-se como rabino e líder comunitário por 43 anos. Teve uma filha no Brasil, Alisha, em 1983. Em 2013, deixou a CIP, onde passou a ser rabino emérito. E se mudou para Miami.

O caso Herzog

O jornalista Vladimir Herzog era diretor de jornalismo da TV Cultura em 1975. Em 24 de outubro daquele ano, homens ligados aos serviços de inteligência do regime militar convocaram Herzog para prestar depoimento sobre sua ligação com o Partido Comunista Brasileiro.

Herzog então prometeu comparecer no dia seguinte ao DOI-Codi (Destacamento de Operações de Informação - Centro de Operações de Defesa Interna) em São Paulo e cumpriu: foi ao quartel da rua Tutóia, em 25 de outubro. Lá foi torturado e morto.

A versão oficial era de que Herzog havia se enforcado na cela com um cinto do macacão de presidiário. Mas tempos depois, já em 1978, revelou-se que na verdade ele havia sido assassinado – o que passou a constar no atestado de óbito do jornalista apenas em 2013.

Herzog era judeu e, pelas tradições da religião, suicidas são enterrados em uma ala separada, e desprestigiada, do cemitério. Sobel, então com 31 anos, se recusou, ainda em 1975, a seguir esse ritual e confrontou a versão da ditadura. Vi o corpo de Herzog. Não havia dúvidas de que ele tinha sido torturado e assassinado, disse o rabino à época.

Em 31 de outubro, foi realizado um grande ato ecumênico em memória de Herzog na catedral da Sé. Cerca 8.000 pessoas compareceram ao evento, liderado pelo arcebispo D. Paulo Evaristo Arns, ao lado do reverendo James Wright e do rabino Henry Sobel.

Passei a agir não só pelo Vlado [apelido de Vladimir Herzog], mas por outros torturados. A causa transcendeu. Naquele momento ganhei adversários, sim, e uma recompensa: a dos jovens judeus que me acompanharam ao culto

Henry Sobel

em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo em 2013

O ato em memória de Herzog foi uma até então inédita manifestação contra a ditadura, que vinha de seu período de mais intensa repressão e violência – desde que no fim de 1968 havia se instaurado o Ato Institucional nº 5.

A partir daquele momento, em 1975, Sobel se destacou como uma importante liderança política no Brasil, em defesas dos direitos humanos. E passou a ser um dos principais representantes da comunidade judaica no país.

Estamos todos muito tristes, muito abalados. Sobel mostrou para a sociedade a melhor face do judaísmo. A face humanista, a face da defesa dos direitos humanos. Foi o maior representante que a comunidade já teve e ele fará muita falta. Teve um papel essencial na redemocratização do Brasil. Enfrentou a ditadura na missa na catedral da Sé. E vai ser lembrando como esse grande humanista, que marcou a sociedade brasileira e o mundo de forma definitiva

Michel Schlesinger

rabino da CIP, em entrevista ao Nexo

O caso do furto

Uma passagem marcante na vida de Sobel foi o episódio em 2007, quando foi pego furtando gravatas em uma loja em Palm Beach, nos Estados Unidos. Na época, ele atribuiu o ato ao efeito de remédios que estava tomando.

Depois, em autobiografia publicada em 2008, manteve essa versão. Em 2013, quando estava de saída do Brasil, disse em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo que na verdade errou: que o furto foi uma falha moral.

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