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Por que os Estados Unidos vetam a compra de carne bovina brasileira

País suspendeu a importação de produto in natura após a Operação Carne Fraca, em 2017. Governo Bolsonaro vem tentando reabrir o mercado

A ministra da Agricultura, Tereza Cristina, tem um encontro marcado na nos Estados Unidos na quarta-feira (20) com o ministro da área do país, Sonny Perdue. Ela pretende convencer o governo americano a reabrir o mercado de carne bovina in naturanão congelada e não processada — para o produto brasileiro.

Os Estados Unidos suspenderam a compra da carne bovina in natura brasileira em 2017, pouco depois da operação Carne Fraca, da Polícia Federal, revelar um esquema de adulteração do produto vendido nos mercados interno e externo.

Em março de 2019, o governo brasileiro convenceu os americanos a realizar uma inspeção para reavaliar os frigoríficos locais. Mesmo assim, a suspensão foi mantida, frustrando as expectativas do governo de Jair Bolsonaro.

Além de estar entre os maiores compradores do produto brasileiro, o mercado americano é considerado estratégico por ser uma importante referência para outros países.

Mesmo com a suspensão, os Estados Unidos foram em 2018 o 9º maior importador de carne bovina brasileira, com 32,4 mil toneladas, segundo a Associação das Indústrias Brasileiras Exportadoras de Carne. Esse volume inclui carne congelada e processada. Os mercados que mais importam carne bovina brasileira são Hong Kong, com 394,8 mil toneladas, e a China continental, com 322 mil toneladas.

A operação Carne Fraca

A primeira fase da Operação Carne Fraca foi deflagrada em março de 2017 e teve alvos em 6 estados e no Distrito Federal. Com participação de 1.100 agentes da Polícia Federal, resultou em 309 mandados judiciais, 27 pedidos de prisão preventiva e 11 de prisão temporária.

Na época, a Polícia Federal investigou mais de 30 frigoríficos por meio de depoimentos e escutas telefônicas. A instituição afirmou que funcionários vinham oferecendo propinas para obter certificados adulterados que atestavam que os produtos tinham qualidade adequada. As empresas JBS, Seara e BRF foram investigadas.

O caso obteve grande repercussão, e foi noticiado na imprensa internacional, levantando dúvidas sobre a qualidade da carne brasileira.

Houve ainda duas novas fases da operação, em março de 2017 e março de 2018, que também envolveram mandados de busca e apreensão e prisões preventivas.

A fiscalização americana e o veto à carne brasileira

O Brasil havia conseguido autorização para vender carne bovina in natura aos Estados Unidos apenas em julho de 2016, depois de 17 anos de negociações.

Até então, o país aceitava apenas carne in natura vinda de Santa Catarina, estado que estava livre da febre aftosa, uma doença infecciosa causada por um vírus. Após a mudança em 2016, os Estados Unidos passaram a aceitar a carne brasileira vinda de qualquer região com vacinação do gado contra a doença. A liberação ocorreu após os serviços veterinários reconhecerem os controles oficiais estabelecidos pelos sistemas de inspeção no Brasil.

Mas, logo após a primeira fase da Carne Fraca, em março de 2017, os Estados Unidos intensificaram a análise sobre a carne brasileira. Em junho do mesmo ano, a compra do produto foi suspensa nos Estados Unidos.

Na época, o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos emitiu um comunicado em que afirmava que testava 100% da carne brasileira que chegava ao país. Nesses testes, 11% do produto havia sido rejeitado. Segundo a instituição, a taxa de rejeição de carne de outros países é de 1%.

As análises encontraram na carne enviada excesso de abscessos — bolsas de tecido inflamado preenchidas com pus, que geralmente são resultado de infecções bacterianas.

Em entrevista ao canal de notícias GloboNews, o então presidente da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes, Antonio Jorge Camardelli, afirmou que o problema nas amostras se devia a uma reação à vacina de febre aftosa nos animais.

“Apesar do comércio internacional ser uma parte importante do nosso departamento, e o Brasil é um de nossos parceiros, minha prioridade é proteger os consumidores americanos. É isso que fazemos suspendendo a importação de carne fresca do Brasil”, disse o secretário americano de Agricultura, na época da suspensão.

A inspeção dos frigoríficos brasileiros

Em março de 2019, Jair Bolsonaro fez uma visita oficial aos Estados Unidos e se encontrou com o presidente americano, Donald Trump. Na ocasião, ambos anunciaram uma “nova relação” entre os países.

Na ocasião, Brasil e Estados Unidos assinaram um acordo para viabilizar o uso comercial da base militar de Alcântara, no Maranhão, e o governo brasileiro retirou a exigência de visto a cidadãos dos Estados Unidos, entre outros temas.

Foi nesse encontro que o governo americano concordou em agendar a inspeção nos frigoríficos brasileiros, que poderia reabrir o mercado para a carne bovina in natura advinda do país. Na época, a ministra Tereza Cristina classificou o gesto como de boa vontade, mas “insuficiente”.

A inspeção de técnicos americanos ao Brasil aconteceu em julho, e o relatório final foi compartilhado com o governo brasileiro em outubro. O material não está disponível para o público mas, segundo informações obtidas pelo jornal O Estado de S. Paulo, uma das exigências é que haja melhorias no processo de coleta para testes microbiológicos na carne.

Posteriormente, os Estados Unidos sugeriram agendar uma nova missão ao Brasil para tentar destravar a compra do produto. Mas há temor de parte do governo brasileiro de que esse processo atrasaria ainda mais a liberação.

Em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, Tereza Cristina afirmou que espera aproveitar a visita aos Estados Unidos em novembro de 2019 para esclarecer os pontos técnicos levantados pela missão que passou pelo Brasil.

“Eu vou com uma proposta de dizer que existe uma relação de confiança entre os nossos serviços, que acho que esses pontos podem ser esclarecidos, não necessariamente com uma missão, que é sempre mais complicada e mais morosa”

Tereza Cristina

Ministra da Agricultura, durante missão aos Estados Unidos

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