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Os coletes amarelos após um ano de protestos na França

Movimento que nasceu contra aumento nos combustíveis faz aniversário com manifestação, confronto e mais pressão sobre Macron

    Quase 5.000 pessoas se reuniram no sábado (16) na Place d’Italie, em Paris, para participar do protesto que marcou o aniversário de um ano dos “coletes amarelos”.

    A ideia era marchar pelas ruas da cidade, mas a polícia fez um cerco ao movimento, que acabou confinado a uma grande rotatória, na qual convergem seis avenidas importantes que distribuem o trânsito para todas as direções da capital francesa.

    A nuvem de fumaça provocada pelo gás lacrimogêneo lançado pela tropa de choque francesa podia ser vista a várias quadras de distância. Pelo menos 147 manifestantes foram detidos durante as seis horas de protesto.

    A concentração na Place d’Italie foi a 53ª feita por membros de um movimento que, ao longo de um ano de existência, tornou-se responsável pela maior crise política já enfrentada pelo presidente da França, Emmanuel Macron, desde que assumiu o cargo, em maio de 2017.

    A amplitude do movimento, sua duração e sua capacidade de pautar o debate público no país são comparáveis ao efeito que os protestos de Maio de 1968 tiveram sobre os franceses — ainda que os protestos contemporâneos sejam, à diferença de seu antecessor, muito menos criativos, poéticos e pretensiosos em seu desejo de influenciar o mundo e mudar a sociedade.

    Se no Maio de 1968 jovens estudantes pregavam “seja realista, queira o impossível”, os trabalhadores, aposentados e desempregados não tão jovens que compõem os coletes amarelos têm hoje uma meta bem mais simples, e nada surreal: “Viver, sim. Sobreviver, não.”

    Esse lema informal resume uma pretensão que é ao mesmo tempo ambiciosa e limitada: milhares de franceses, que já contam com um robusto sistema público de saúde, educação, transporte, aposentadoria e segurança, querem mais. Suas reivindicações giram em torno do desejo de ter “maior poder de compra”, menos dívidas e mais qualidade de vida.

    Demandas por mais que o mínimo

    Se em países em desenvolvimento a luta é muitas vezes pelo mínimo, na França a pauta dos coletes amarelos não chega a ser pelo máximo, mas é certamente por um melhor nível médio de vida, que inclui o que, em países como o Brasil, pode ser visto como um luxo: por exemplo, o direito de viajar uma vez por ano com a família ou de ter experiências semelhantes de lazer.

    A própria origem do movimento demonstra isso. Ele começou com proprietários de veículos que, em novembro de 2018, revoltaram-se contra um pequeno aumento no preço do combustível, que serviria para subsidiar políticas ecologicamente mais corretas do governo francês.

    Para quem, na vastidão do mundo subdesenvolvido, nem sonha em ter carro, pode parecer uma excentricidade. Porém, para uma classe média que vive nos arredores de Paris e em zonas rurais, municípios industriais e outras periferias, o carro e o combustível são fardos de uma vida apartada das longas e completas malhas de trens, bondes e metrôs que cortam a capital da França. O orçamento apertado não põe a sobrevivência em risco, mas faz com que esses manifestantes considerem a vida opressiva e insuportável.

    No passado recente, Paris viu nascer alguns movimentos de contornos semelhantes e de vida mais curta. O mais conhecido deles foi o Nuit Debout, surgido em 2016, durante seguidas vigílias na Praça da República, reduto tradicional de skatistas e cenário de protestos de comunidades de imigrantes.

    O Nuit Debout era, entretanto, um movimento de jovens universitários, influenciados por pautas típicas da esquerda. Os coletes amarelos são mais velhos, menos engajados em partidos políticos, centros acadêmicos e sindicatos, e muito menos críticos ao capitalismo enquanto sistema – sua pretensão não é necessariamente derrubar o sistema capitalista, mas de tirar dele uma vida mais digna.

    Os contornos da personalidade do movimento

    Um ano após sua origem, o movimento dos coletes amarelos é considerado ainda “amplamente caricaturizado e mal compreendido”, mesmo na França.

    Isso ocorre em grande medida porque os coletes amarelos são deliberadamente não hierarquizados. Não há um representante, uma diretoria, um porta-voz, nem sequer uma página única na internet ou uma conta centralizadora nas redes sociais. Os que se colocam nesse papel são frequentemente desautorizados pelos demais.

    Essa identidade por vezes esfumaçada é um obstáculo ao entendimento tanto da classe política tradicional quanto da imprensa. Quem vem tentando preencher essas lacunas e dar uma fisionomia mais definida ao movimento são os acadêmicos das áreas ligadas à ciência política.

    Alguns deles têm coordenado pesquisas abrangentes para saber o perfil dos coletes amarelos — suas origens, crenças, posições ideológicas e demandas. Mas, mesmo assim, o trabalho ainda é impreciso. Um exemplo simples: enquanto alguns estudos falam em uma maioria de homens entre os coletes amarelos, outros afirma haver maioria de mulheres.

    “O retrato que emergiu é o de um movimento formado majoritariamente por trabalhadores e aposentados em situação de insegurança financeira, com poucos membros desempregados”, disse Frédéric Gonthier, cientista político responsável por uma pesquisa abrangente sobre o perfil dos membros do movimento.

    “Mais da metade diz que não acredita na divisão tradicional entre direita e esquerda. Há uma rejeição da política partidária, mas não da política em si, uma vez que o movimento deles é inerentemente político”, diz Tristan Guerra, co-autor do mesmo estudo.

    Na prática, em seus atos, o movimento vem direcionando uma fúria destrutiva contra todos os símbolos de um governo que se pretende estável: de prédios públicos aos mais importantes monumentos da França – como em dezembro de 2018, quando seus membros danificaram o Arco do Triunfo, patrimônio cuja construção foi ordenada por Napoleão Bonaparte, na Paris de 1805.

    A relação com a política tradicional

    A capacidade de mesclar reivindicações legítimas com surtos destrutivos de grande envergadura tornam o movimento indomável para a política tradicional, que não ousa se aproximar institucionalmente dos coletes amarelos.

    Tanto a extrema direita de Marine Le Pen quanto a esquerda populista de Jean-Luc Mélenchon tentaram uma aproximação à la carte com os coletes amarelos – selecionando pontos de convergência em suas reivindicações ao mesmo tempo que tomavam cuidado de se distanciar dos excessos.

    Por si mesmos, os coletes amarelos não apenas rechaçaram as tentativas de captura do movimento como puniram até mesmo os que se colocaram como políticos nascidos no interior do grupo. A maior prova disso foi o desempenho nas eleições de maio de 2019 para o Parlamento Europeu.

    Dois partidos, a Aliança Amarela e a Evolução Cidadã, lançaram-se como “partidos dos coletes amarelos”, mas nenhum deles passou do 1% dos votos. O resultado foi tão ruim que as legendas sequer conseguiram acesso ao mínimo necessário, de 3%, para receber reembolsos públicos de campanha – uma espécie de fundo partidário local.

    Conquistas e respostas

    Em 12 meses, os coletes amarelos arrancaram importantes concessões do governo francês. Mas não foi fácil. Macron tentou a todo custo emplacar uma gigantesca maratona de “grandes debates nacionais”, com os quais procurou canalizar as demandas sociais em encontros por todo o país. Com isso, tentou passar a impressão de estar na vanguarda e não na retaguarda do processo.

    A iniciativa não vingou, e o governo foi obrigado a aceitar uma série de recuos e derrotas. A primeira delas foi a revogação no aumento do preço dos combustíveis, que havia dado origem ao movimento em si.

    Além disso, o governo aumentou em 100 euros (R$ 464) o valor do salário mínimo, isentou parte da classe trabalhadora de impostos e anunciou um total de US$ 11 bilhões em diferentes formas de aporte aos mais pobres.

    O movimento teve êxito ainda ao expôr a brutalidade da repressão policial, fazendo com que a forma de agir das forças de segurança pública fosse colocada em questão. Por fim, os coletes amarelos também venceram uma queda de braço constitucional com o governo, que, sem sucesso, tentou proibir que manifestantes envolvidos em episódios de depredação pudessem seguir participando das marchas.

    Há ainda outros benefícios difusos, como o de ter redirecionado os rumos do debate nacional, visto até então como excessivamente pautado por figuras políticas elitistas e por uma mídia tida como apartada e insensível ao que seriam as demandas da França real.

    Em março, as eleições locais colocarão a prova mais uma vez os atores políticos da França atual. O partido de Macron, o République en Marche! (República em Movimento!) está dividido entre dois candidatos. A atual prefeita, Anne Hidalgo, do Partido Socialista, tentará a reeleição. Os coletes amarelos não têm candidato, mas sua força no contexto político atual tornou-se incontornável para todos os partidos.

    João Paulo Charleaux é repórter especial do Nexo e escreve de Paris

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