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O rito da família imperial japonesa que foi parar na Justiça

Mais de 200 cidadãos reclamam dos gastos públicos com ritual antigo, que mistura religião e governo e ignora as regras do Estado laico

    Um grupo de 200 cidadãos japoneses, cristãos e budistas, entrou na Justiça para reclamar dos US$ 25 milhões gastos na última etapa da cerimônia de entronização do novo imperador, Naruhito.

    Os autores da ação afirmam que o ritual xintoísta chamado Daijosai viola o caráter laico do Estado japonês, ao usar dinheiro público, dos impostos dos contribuintes, para financiar uma superstição que envolve oferta de comida para divindades em troca de boas colheitas e proteção.

    O ritual é realizado da mesma forma desde o século 7, dentro de um templo de madeira construído especialmente para a ocasião. Após a cerimônia, que dura uma única noite, toda a construção, orçada em US$ 18 milhões, é demolida.

    O Daijosai é um ritual raro. Ele inaugura cada período de governo de cada novo imperador. O atual imperador, Naruhito, ascendeu ao posto depois que o pai dele, Akihito, abdicou do trono em outubro de 2019, num gesto inédito na história do Japão.

    A cerimônia de entronização é longa e cheia de etapas. Numa delas, o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, esteve presente – quando recusou, no dia 22 de outubro, os alimentos que compunham um banquete oferecido pela família imperial japonesa para 2.000 convidados, entre monarcas e outras autoridades internacionais. Na ocasião, Bolsonaro preferiu cozinhar um pacote de miojo na volta ao hotel.

    Os contribuintes que agora movem o processo na Justiça não se opõem ao imperador em si ou à família real como um todo que, no Japão, cumpre um papel essencialmente protocolar. O grupo queixa-se apenas da mistura da religião da família real, o xintoísmo (religião politeísta, que cultua entidades da natureza), com os assuntos de Estado — que, pela Constituição, deve ser laico.

    US$ 18 milhões

    É o custo estimado da construção do efêmero templo da cerimônia Daijosai

    US$ 25 milhões

    É a soma total estimada da cerimônia Daijosai

    A separação entre os ritos da família imperial e a religião parece ser uma luta longa para os que se dedicam a essa causa. Toda a cerimônia de entronização é conduzida por sacerdotes xintoístas, não apenas o Daijosai. O ritual em questão, no entanto, é o mais dispendioso e mais efêmero, além de ser também o mais exclusivo – pois ninguém pode vê-lo.

    As características de um ritual secreto

    No Daijosai, o imperador recém entronizado ingressa no novo pavilhão de 30 cômodos, ao anoitecer, e lá permanece sozinho até o nascer do sol, no dia seguinte.

    Ninguém acompanha o imperador dentro do templo, mas historiadores consultados pela imprensa internacional dizem que a cerimônia consiste num ritual de apresentação de Naruhito ao sol e outras divindades do xintoísmo.

    Na cerimônia, o imperador oferece a essas entidades arroz, saquê, frutos do mar e vegetais trazidos de todas as partes do Japão, em sinal de gratidão e também de pedido por colheitas abundantes.

    O cômodo principal do templo tem uma cama para uso do imperador. A agência de notícias Associated Press diz que os japoneses especulam que o imperador “passe a noite na cama com uma divindade”, insinuando a suspeita de que o ritual envolva a presença de mulheres.

    Poder decadente

    Assim como nas monarquias absolutistas europeias, a família imperial japonesa também se apresentou ao longo dos séculos como representante divina na terra.

    Essa associação só foi rompida após a derrota na Segunda Guerra Mundial, em 1945. À época, o então imperador Hirohito abdicou de dizer que possuía poderes divinos.

    Desde então, a família imperial segue tendo papel cerimonial e protocolar. O poder político no parlamentarismo japonês é exercido pelo primeiro-ministro, que desde 2012 é Shinzo Abe. Anteriormente, Abe ocupou o mesmo cargo por um ano, entre outubro de 2005 e outubro de 2006.

    João Paulo Charleaux é repórter especial do Nexo e escreve de Paris

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