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Por que o Google está coletando dados médicos nos EUA

Jornal americano revelou que empresa obteve informações de 50 milhões de pessoas para desenvolver um sistema para planos de saúde. Setor é visto como estratégico para companhias de tecnologia

    O Google está de posse de dados médicos de 50 milhões de pessoas nos Estados Unidos, revelou o jornal americano Wall Street Journal. Coletados à revelia dos médicos e pacientes, as informações estariam sendo utilizadas para o desenvolvimento de um produto em que prestadoras de serviços de saúde pudessem levantar a ficha de saúde de pessoas.

    Os dados vem da base da Ascension, segunda maior empresa de medicina de grupo do país, ligado à Igreja Católica. Incluem resultados de laboratório, diagnósticos de médicos e registros hospitalares. Na base, cada paciente está identificado com nome e data de nascimento.

    Segundo o Wall Street Journal, cerca de 150 funcionários do Google estão trabalhando em cima dos dados. De acordo com o jornal, o Google não estaria recebendo pelo trabalho pois tem como objetivo maior a criação da plataforma que será comercializada com outros planos de saúde. Citando documentos internos, o jornal afirmou que o novo software seria uma ferramenta de buscas que agregaria dados de pacientes armazenados em diferentes sistemas. O projeto seria secreto e teria o codinome de “Project Nightingale”.

    Há ampla preocupação entre usuários com as maneiras com que o Google pode utilizar dados pessoais. As informações podem ser comercializadas com outras empresas, de companhias farmacêuticas a seguradoras

    Relatórios confidenciais sobre o projeto foram vazados por um informante, que também contatou o jornal britânico The Guardian. A fonte anônima postou ainda um vídeo no site Daily Motion com imagens dos documentos, posteriormente removido por "violação de termos de uso".

    “A maioria dos americanos se sentiria desconfortável se soubesse que seus dados estavam sendo transferidos aleatoriamente para o Google sem as devidas salvaguardas e segurança”, afirmou o informante à publicação britânica. “É uma maneira totalmente nova de fazer as coisas. Você quer que suas informações pessoais sejam transferidas para o Google? Eu acho que muitas pessoas diriam não.”

    De acordo com o Wall Street Journal, a Ascension queria usar os dados para identificar exames adicionais que poderiam ser pedidos ou formas de incrementar seus ganhos financeiros com cada paciente. Outro objetivo seria tornar o sistema de informações de pacientes mais eficaz.

    A revelação motivou a abertura de uma investigação federal do Departamento de Saúde (equivalente a um ministério) sobre a parceria com o intuito de "obter mais informações sobre essa coleção em massa de registros médicos de indivíduos com relação às implicações para a privacidade do paciente".

    O que diz o Google

    O Google respondeu à matéria do Wall Street Journal em uma postagem assinada por Tariq Shaukat, presidente de soluções e produtos para a indústria do Google Cloud, a divisão de armazenamento em nuvem da companhia.

    A empresa negou que esteja realizando o serviço gratuitamente para a Ascension, no entanto não revelou quanto teria cobrado pelo trabalho. O Google também afirmou que não agrega dados de vários parceiros da área de saúde, ressaltando que isso não seria permitido por contrato ou pela legislação vigente.

    De acordo com a empresa, o trabalho com a Ascension quer “melhorar a experiência e resultados nos cuidados com a saúde”. A parceria seria um arranjo comercial para o uso de softwares de produtividade e de armazenamento em nuvem, além de promover testes de ferramentas para médicos e enfermeiras. A empresa não forneceu detalhes sobre como seriam as ferramentas. Afirmou que o uso de dados de pacientes segue procedimentos de segurança rígidos.

    A Verily, empresa de “ciências da vida” da Alphabet, a empresa-mãe do Google, vem desenvolvendo ferramentas para capturar e organizar dados não estruturados de saúde em uma iniciativa chamada “Baseline Project”

    O Google alega que o procedimento está dentro da lei. Especialistas consultados pelo Wall Street Journal disseram que a ação da empresa está coberta por uma legislação federal que permite a hospitais compartilharem dados com parceiros de negócios sem comunicar aos pacientes, contanto que a informação seja com o propósito de ajudar a prestadora a “cumprir suas funções de serviços de saúde”.

    Sobre o fato do projeto ter um codinome, o porta-voz alegou ser uma prática comum na empresa. Codinomes seriam usados para clientes e produtos, entre outros.

    O Google e os serviços de saúde

    “O setor de saúde é um dos campos mais importantes que a tecnologia ajudará a transformar na próxima década e é uma importante área de investimento para o Google”, disse o CEO do Google, Sundar Pichai, em comunicado em setembro de 2019.

    A Alphabet, empresa-mãe do Google, já investiu milhões de dólares em duas subsidiárias dedicadas à saúde: a Calico, que pesquisa maneiras de combater o envelhecimento, e Verily, que alia tecnologia, ciência de dados e saúde.

    Há ampla preocupação entre usuários com as maneiras com que o Google pode utilizar dados pessoais. As informações podem ser comercializadas com outras empresas, de companhias farmacêuticas a seguradoras.

    “O problema é que o modelo de negócios do Google é usar ou vender dados”, declarou à revista Wired Lawrence Gostin, da Faculdade de Direito de Georgetown, nos EUA, que faz pesquisas sobre a privacidade no âmbito dos dados de saúde. “Estou longe de me convencer de que o Google pode não usar informações identificáveis para fins comerciais.”

    Em uma entrevista de 2014, o cofundador do Google, Larry Page, sugeriu que pacientes preocupados com a privacidade de seus dados médicos eram cautelosos demais. “Não estamos realmente pensando no tremendo bem que pode vir de pessoas que compartilham informações com as pessoas certas da maneira certa.”

    Quatro projetos de saúde do Google

    A pulseira fitness

    No início de novembro de 2019, a empresa de buscas anunciou a compra da Fitbit, fabricante de relógios e acessórios fitness, entre eles a pulseira que leva o nome da empresa e registra dados como número de passos e batimento cardíaco. O negócio totalizou R$ 8 bilhões. À época da compra, a Fitbit declarou que "os dados de saúde e bem-estar da Fitbit não serão usados para anúncios do Google". Desde que foi fundada em 2007, a Fitbit acumulou dados de saúde e desempenho físico de 28 milhões de usuários. Nas redes sociais, vários afirmaram que iam “jogar minha pulseira Fitbit no lixo” por conta da aquisição.

    A super-clínica

    A primeira clínica dos Estados Unidos a centralizar dados de pacientes, ainda no século 19, anunciou em setembro de 2019 uma parceria com o Google para armazenar sua vasta base de dados. A Mayo é hoje uma rede que atende cerca de 1,3 milhão de pacientes anualmente nos Estados Unidos. Além do armazenamento, a parceria prevê que tecnologias de análise de dados e inteligência artificial do Google sejam usadas em uma “enorme variedade de projetos” ligados a prevenção médica e tratamentos de saúde complexos.

    Mapa da saúde

    A Verily, empresa de “ciências da vida” da Alphabet, a empresa-mãe do Google, vem desenvolvendo ferramentas para capturar e organizar dados não estruturados de saúde em uma iniciativa chamada “Baseline Project”. A pesquisa pretende reunir e analisar uma ampla gama de dados genéticos, clínicos e de estilo de vida de 10.000 voluntários saudáveis. Seu propósito é "mapear a saúde humana" de maneira abrangente.

    Prevendo doenças

    Em 2018, a DeepMind, divisão de inteligência artificial do Google sediada em Londres, iniciou um projeto em parceria com hospitais para usar a técnica de aprendizado de máquina “deep learning” com o intuito de prever doenças oculares, câncer de mama e riscos cardiovasculares. Em outra parceria, com o sistema de saúde público britânico (NHS), a empresa ganhou acesso a informações pessoais de 1,6 milhão de pacientes com o objetivo de desenvolver um aplicativo para médicos identificarem em pessoas riscos de problemas nos rins. O projeto foi motivo de controvérsia por não ter consultado os pacientes.

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