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Como esta botânica inaugurou a história do livro fotográfico

A britânica Anna Atkins publicou em 1843 a primeira obra do gênero, que reunia cianótipos de algas marinhas. Seu pioneirismo só foi reconhecido um século depois da sua morte

    Foto: Domínio público
    Cianótipo que integra o livro Fotografias de algas britânicas, de Anna Atkins
    Cianótipo que integra o livro Fotografias de algas britânicas, de Anna Atkins

    A botânica inglesa Anna Atkins (1799-1871) teve uma trajetória rara entre as mulheres da Era Vitoriana, período que durou dos anos 1830 a 1901. Ela foi uma das primeiras de seu gênero a praticar a fotografia e é responsável pela criação do que é considerado o primeiro livro fotográfico, de 1843, chamado “Fotografias de algas britânicas”.

    O formato ganharia importância ao longo da história da fotografia por seu potencial narrativo e colecionável.

    O livro em questão é formado por 12 fascículos produzidos entre outubro de 1843 e junho de 1850. Contém cianótipos (um dos primeiros processos de impressão fotográfica inventados, em tons azuis) de algas marinhas que faziam parte do herbário de Atkins, acompanhados de uma legenda de identificação. Cada parte do livro possui ilustrações de aproximadamente uma dezena de amostras de algas.

    A botânica produziu múltiplos exemplares de cada fascículo, com a finalidade de divulgação científica. Eles eram distribuídos para botânicos com o objetivo de difundir informações sobre as algas, já que importantes obras de referência da época sobre o assunto – como o “Manual das algas britânicas” (1841), de William Harvey – não eram ilustradas. Ao todo, Atkins produziu manualmente milhares de impressões.

    Foto: Domínio público
    Cianótipo de alga feito por Anna Atkins
    Cianótipo de alga feito por Anna Atkins

    A autora não buscou reconhecimento para o livro. Ela não o assinou por extenso, e sim com as iniciais “A.A.”, e ele não foi distribuído comercialmente nem recebeu publicidade. Isso pode explicar parcialmente o fato de o livro de Atkins ter ficado praticamente desconhecido até a década de 1970, quando seu trabalho foi redescoberto. O reconhecimento do pioneirismo de Atkins só veio um século após sua morte, graças ao historiador Larry Schaaf, o primeiro a examinar os fotogramas.

    Schaaf reuniu suas descobertas em um artigo acadêmico que estabeleceu Atkins como a autora do primeiro livro fotográfico, posto anteriormente ocupado pelo pioneiro da fotografia William Henry Fox Talbot (1800-1877). A primeira parte de seu livro “O lápis da natureza” foi publicada em junho de 1844, oito meses após o lançamento do primeiro fascículo de “Fotografias de algas britânicas”.

    Como funciona o cianótipo

    A cianotipia é um processo de impressão fotográfica no qual uma folha é revestida com as substâncias químicas ferrocianeto de potássio e citrato férrico de amônio, exposta à luz solar e em seguida lavada com um banho de água.

    Ele permite que a silhueta de um objeto ou um desenho sobreposto à superfície sensibilizada durante a exposição apareça em negativo (em branco). Produz imagens nítidas e duradouras, na cor azul.

    O fato de o papel ser revestido e processado sem necessidade de uma câmera escura ou de substâncias químicas tóxicas tornava o cianótipo mais acessível, em comparação aos outros processos fotográficos surgidos no primórdio desta técnica.

    Foto: Domínio público
    Cianótipo do livro 'Fotografias de algas britânicas'
    Cianótipo do livro 'Fotografias de algas britânicas'

    Ainda assim, na época de Atkins, não era fácil adquirir em grande quantidade as substâncias químicas usadas no processo. Outra dificuldade era a luz solar necessária para obter resultados satisfatórios, um recurso que não era abundante no condado de Kent, na Inglaterra, onde ela vivia.

    O contato de Atkins com a fotografia

    Anna Atkins foi membro da Sociedade Botânica de Londres, uma das poucas entidades científicas da época a admitir mulheres, e possuía um herbário com pelo menos 1.500 espécimes preservados de plantas britânicas. Na coleção, mostrava um interesse especial por plantas marinhas.

    Atkins era filha do cientista inglês John George Children, que cultivou desde a infância o interesse da filha pela ciência. Graças ao pai, ela foi uma das primeiras pessoas a tomar conhecimento da invenção do cianótipo, inventado por acidente pelo cientista John Herschel quando ele tentava criar um processo que permitisse produzir fotografia em cores. É provável que ela tenha aprendido os procedimentos com o próprio Herschel, que também residia em Kent.

    Foto: Domínio público
    Página do livro 'Fotografias de algas britânicas'
    Página do livro 'Fotografias de algas britânicas'

    Além dele, Atkins também teve contato direto com o pioneiro William Henry Fox Talbot. Ambos chegaram a trocar versões de partes de seus livros fotográficos, e o relato de Talbot sobre o trabalho da botânica foi importante para a sobrevivência de seu legado.

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