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As disputas econômicas nos bastidores da Fórmula 1 no Brasil

São Paulo recebeu o Grande Prêmio em meio ao lançamento de edital de concessão do autódromo de Interlagos e à possibilidade de transferência do evento para o Rio de Janeiro

    Neste domingo (17), São Paulo pode receber o penúltimo Grande Prêmio da Fórmula 1 de sua história. O contrato entre a prefeitura da cidade e a Interpub, empresa responsável por realizar a prova, vai só até 2020.

    Ainda não se sabe se a partir de 2021 a corrida será sediada na capital paulista. O presidente Jair Bolsonaro planeja mudar o local do evento para o Rio de Janeiro, onde pretende construir uma nova pista.

    A possibilidade de saída de São Paulo do circuito da Fórmula 1 gerou críticas do campeão da temporada de 2019, Lewis Hamilton:

    "Temos um circuito histórico [em Interlagos], então não precisa cortar mais árvores. Esse dinheiro pode ser investido em outras coisas, já que temos muita pobreza no Brasil"

    Lewis Hamilton

    piloto britânico hexacampeão da Fórmula 1

    O autódromo de Interlagos recebe a corrida desde 1990 – antes, o evento era realizado na pista de Jacarepaguá, no Rio de Janeiro, que foi demolida para a construção do Parque Olímpico dos Jogos de 2016. Por ora, o circuito de Interlagos pertence à prefeitura de São Paulo, mas no dia 7 de novembro o governo municipal publicou um edital de concessão do complexo à iniciativa privada.

    O Brasil é o país não europeu com a maior sequência de anos consecutivos recebendo um Grande Prêmio. Contando a corrida de domingo, já são 47 anos seguidos em que a Fórmula 1 passa pelo país, atrás apenas de Itália e Inglaterra, ambos com sequência ininterrupta desde 1959.

    Os custos e retornos da corrida

    Receber um Grande Prêmio exige investimentos. Todo ano, a Prefeitura de São Paulo coloca dinheiro para sediar a corrida em Interlagos. Entre a montagem de arquibancadas, serviços de limpeza do autódromo, esquemas de segurança e outros custos, o município gasta dezenas de milhões de reais para bancar a corrida.

    R$ 38,9 milhões

    é quanto a Prefeitura de São Paulo investiu para a realização do Grande Prêmio de 2019

    Segundo o blog Olhar Olímpico, os gastos para o poder público municipal não estão previstos no contrato firmado entre a prefeitura e a Interpub Eventos, empresa responsável por promover o Grande Prêmio do Brasil. O vínculo, assinado em 2014, estabelece apenas que o poder público irá ceder o autódromo e apoiar o evento.

    De acordo com a Secretaria Municipal de Turismo de São Paulo, o retorno financeiro pela realização da corrida em 2018 foi de R$ 334 milhões. O cálculo do chamado “impacto no turismo” não foi detalhado pela prefeitura.

    E, se o município coloca em torno de R$ 40 milhões anuais para realizar a corrida, o governo federal também é uma fonte substancial de recursos para a manutenção do autódromo de Interlagos.

    R$ 160,8 milhões

    é o investimento do governo federal no autódromo de Interlagos desde 2014

    Em 2013, o governo federal concordou em repassar essa verba – vinda do orçamento do PAC Turismo (Plano de Aceleração do Crescimento do Turismo) – para a realização de uma reforma no autódromo, que modificaria os boxes e espaços onde ficam as equipes automobilísticas. Originalmente, as obras tinham previsão de conclusão em 2015, mas só foram entregues no início de novembro de 2019.

    O investimento no Grande Prêmio não se restringe ao poder público. Para quem vai ao evento, o ingresso também exige um esforço financeiro considerável.

    R$ 610

    era o valor do ingresso mais barato para o Grande Prêmio de Interlagos, em 2019

    R$ 16,6 mil

    era o valor do ingresso na área VIP para o Grande Prêmio de Interlagos, em 2019

    O que há na concessão do autódromo de Interlagos

    No dia 7 de novembro de 2019, a prefeitura de São Paulo publicou o edital de concessão do Complexo de Interlagos à iniciativa privada. A ideia, que já era discutida durante a gestão do ex-prefeito e atual governador do estado, João Doria (PSDB), foi levada adiante pelo atual prefeito Bruno Covas (PSDB).

    O edital de concessão autódromo prevê que o grupo vencedor da licitação administre o complexo por 35 anos, durante os quais terá de cumprir obrigações como obras e compras de equipamento.

    As empresas que participarem do edital deverão ter experiência anterior como administradoras de autódromos ou kartódromos, e terão de ofertar um mínimo de R$ 198,6 milhões para levar o negócio. Além desse montante, quem vencer a licitação terá de repassar outros ganhos ao longo das três décadas e meia de contrato – esse montante é variável, sendo calculada por uma fórmula complexa. No entanto, a licitação estabelece que a parcela será de no mínimo R$ 10 milhões, que serão reajustados pela inflação.

    Ao todo, a prefeitura de São Paulo espera arrecadar R$ 1 bilhão com a concessão nos 35 anos de vigência do contrato.

    “São Paulo terá um benefício financeiro que passa de R$ 1 bilhão, entre deixar de cuidar daquele espaço, o investimento que vai ser feito e o tributo que será recolhido, fora que a prefeitura poderá aplicar o recurso e a sua atenção em atividades essenciais, como educação, saúde, segurança e transporte”

    Bruno Covas

    prefeito de São Paulo, em vídeo apresentado em entrevista a jornalistas em 6 de novembro de 2019

    Diante da indefinição quanto à realização do Grande Prêmio em Interlagos a partir de 2021, o edital inclui uma cláusula que dá à prefeitura a preferência de utilizar o espaço por 80 dias do ano. Esse é o período necessário para preparar, realizar e desmontar a estrutura da prova automobilística.

    O contrato da Fórmula 1 foi firmado com a prefeitura e não será repassado para a empresa que vencer a licitação. Dessa forma, a cláusula dos 80 dias garante que a prefeitura possa manter e estender o contrato com a Fórmula 1. Isso significa que o Grande Prêmio está excluído do edital: a empresa que fizer uma oferta pela concessão será responsável por todos os outros eventos que serão realizados no autódromo.

    A disputa entre São Paulo e Rio de Janeiro

    Um fator que contribui para a indefinição da manutenção do Grande Prêmio do Brasil em Interlagos é o interesse do presidente Jair Bolsonaro em realocar a prova para o Rio de Janeiro. Em junho de 2019, o presidente chegou a se reunir com o CEO da Fórmula 1, Chase Carey, para discutir a transferência da corrida. Bolsonaro chegou a afirmar que um acerto estaria muito próximo, mas o executivo negou a iminência de um acordo.

    “Noventa e nove por cento de chance, ou mais, de termos a Fórmula 1 a partir de 2021 no Rio de Janeiro”

    Jair Bolsonaro

    Presidente da República, após reunião com o executivo Chase Carey, em 24 de junho de 2019

    “No momento, não temos nada fechado, estamos ainda em negociação. Não queremos eliminar qualquer possibilidade, estamos negociando com Rio de Janeiro, mas também com São Paulo”

    Chase Carey

    CEO da Fórmula 1, após fala do presidente Jair Bolsonaro em 24 de junho de 2019

    Para que a prova seja realizada no Rio de Janeiro, está prevista a construção de um autódromo em Deodoro, em um terreno do Exército localizado no bairro. O edital de licitação, que prevê a realização de uma PPP (Parceria Público Privada), estima um gasto de R$ 697,4 milhões para montar o circuito.

    A empresa Rio Motorpark venceu a licitação em 20 de maio de 2019, mas viu o contrato ser suspenso por não comprovar a viabilidade ambiental do empreendimento. A pista seria construída em um local onde está a Floresta do Camboatá, o que despertou uma discussão sobre o impacto ambiental da obra.

    Em 8 de maio de 2019, o presidente Jair Bolsonaro assinou um termo de compromisso para viabilizar a construção do autódromo de Deodoro. A concorrência do Rio de Janeiro gerou críticas das autoridades de São Paulo.

    “Se quiser disputar a Fórmula 1, vai disputar com São Paulo e posso garantir a vocês que São Paulo tem mais chances de vencer do que o Rio”

    João Doria

    governador de São Paulo, durante entrevista no dia 10 de maio de 2019

    “Fomos pegos de surpresa com esse anúncio [assinatura do termo de compromisso de Bolsonaro, no Rio]. Todas as obrigações a prefeitura cumpriu e vai cumprir para receber a F1”

    Bruno Covas

    prefeito de São Paulo, no mesmo evento

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