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Por que a cobertura de vacinação infantil caiu no Brasil

Relatório da Unicef aponta tendência de queda no país. O ‘Nexo’ conversou com médicos para entender as razões

    A Unicef, o Fundo das Nações Unidas para a Infância, publicou nesta terça-feira (12) um relatório sobre as principais conquistas e desafios relacionados aos direitos das crianças no Brasil nos últimos 30 anos.

    No documento, a Unicef aponta que os números de vacinação infantil no país caíram. Segundo dados do Programa Nacional de Imunizações, a cobertura da vacina contra a poliomielite caiu de 98,3% para 83,9% entre 2015 e 2017.

    No mesmo período, a cobertura da vacina tríplice viral (contra sarampo, caxumba e rubéola) foi de 96,1% para 90,6%. Também nesse intervalo de tempo, a cobertura da vacina tríplice bacteriana (contra tétano, difteria e coqueluche) caiu de 96,9% para 83,7%.

    A queda abre espaço para a volta de doenças que, até então, eram consideradas erradicadas – o sarampo é uma delas. Em agosto de 2019, um surto da doença atingiu a cidade de São Paulo, com mais de 2.400 casos confirmados. Neste ano, 12 pessoas já morreram da doença no estado.

    A tendência da queda não se limita ao Brasil. Em julho de 2019, a OMS (Organização Mundial da Saúde) divulgou um relatório que apontou que 20 milhões de crianças no mundo todo deixaram de receber vacinas que evitam doenças fatais no ano de 2018.

    O dado significa que uma em cada 10 crianças no mundo não recebeu todas as vacinas que são consideradas obrigatórias.

    O movimento antivacina no mundo

    Há, no mundo todo, um crescimento de grupos antivacina. Uma das afirmações de parte de seus integrantes é a ideia, equivocada, de que as vacinas seriam uma das causas do autismo. Há também comunidades que não se vacinam em razão de crenças religiosas e linhas que defendem que a vacinação seria uma estratégia de controle estatal.

    Para conter o alcance das ideias antivacinação, plataformas traçaram algumas estratégias: o YouTube anunciou, em fevereiro de 2019, que não ia permitir que vídeos antivacinação fossem monetizados. O Twitter anunciou, em maio, que ia dificultar a exibição de publicações do tipo na rede social, além de exibir um aviso de recomendado ao usuário que procure fontes confiáveis – medida similar à adotada pelo Facebook em julho.

    A preocupação com o movimento antivacinação fez com que a OMS incluísse a difusão desse tipo de ideias como uma das 10 maiores ameaças à saúde pública global.

    Fake news e a vacinação

    Um estudo realizado pelo Ibope, encomendado pela plataforma de ativismo digital Avaaz, apontou que sete em cada 10 brasileiros já acreditaram em uma notícia falsa relacionada à vacinação.

    Ao todo, 2.002 pessoas foram entrevistadas sobre o assunto. Dessas, 48% disseram que usam redes sociais e aplicativos de conversa como fonte principal de informação relacionada à vacinação.

    De todos os entrevistados, 57% não se vacinaram, apontando motivos relacionados à desinformação como justificativa. O Ministério da Saúde disponibiliza uma plataforma online para a checagem de informações de notícias relacionadas à saúde. O órgão já identificou mais de 13 mil notícias com conteúdo falso sobre o tema.

    As razões para a queda

    O Ministério da Saúde reconhece que há uma queda na vacinação no país. Em nota publicada em seu site oficial, o órgão diz que o fenômeno acontece por um misto de razões, que vão da percepção errônea de que a ela não é necessária em casos de doenças erradicadas ao medo infundado de que as vacinas sejam prejudiciais aos organismos das crianças.

    O Nexo conversou com dois médicos para entender as razões da queda da vacinação no país:

    • José Martins Filho, professor emérito de pediatria na Unicamp e ex-presidente da Academia Brasileira de Pediatria
    • Jorge Kalil Filho, professor de imunologia clínica na USP e diretor do Laboratório de Imunologia do Instituto do Coração da Faculdade de Medicina da USP

    Por que os números da vacinação infantil caíram no Brasil?

    José Martins Filho Há muitas razões. Uma delas, infelizmente, é a falta de trabalho árduo mostrando a importância das vacinas, e a nossa terrível situação de ter que enfrentar grupos que são contra a vacina, contra a medicina, contra a ciência, que duvidam de tudo. A atual epidemia de sarampo no Brasil tem muito a ver com a resistência às vacinas.​​

    Não é só culpa do governo, as vacinas estão disponíveis. Raramente falta vacina. O Brasil tem um programa de vacinação gratuito muito importante, são raras as vacinas que não estão disponíveis gratuitamente para a população.

    Mas as famílias não vão atrás, e o pior de tudo é que a propaganda da vacina às vezes não é tão intensa quanto deveria ser, mostrando sua importância, mostrando dados, explicando o que são essas doenças. Temos que combater essas mentiras, esses mitos que aparecem nesses grupos que são contra as vacinas.

    Jorge Kalil Filho Eu acho que existem algumas razões. Uma delas é a ação antivacina internacional, que chegou aqui no Brasil pelas classes mais ricas, que leram sobre isso no noticiário internacional. Aos poucos isso foi chegando nas populações menos privilegiadas.​​

    Isso se soma ao fato de que as novas gerações não viram as doenças que nós vacinamos. As novas gerações não viram o sarampo, a coqueluche, a rubéola.

    Também temos a abordagem na mídia, na televisão. A Globo, por exemplo, é péssima. Sempre que ela fala de vacina, ela mostra a agulha entrando em braço de criança. A imprensa quer ajudar, mas atrapalha.

    Quais políticas públicas poderiam reverter esse quadro?

    José Martins Filho O mais importante é termos uma política muito séria, não só do Ministério da Saúde, mas também do Ministério da Educação.​​

    Nas escolas já se exige uma carteira de vacinação para matricular as crianças, mas as crianças tinham que ter treinamento dos professores, para mostrarem aos pais a importância da vacinação.

    Não adianta só dizer "Vacine!", tem que explicar por que vacinar, o que são as doenças, o que acontece se não vacinar, e combater esses mitos de que vacina faz mal. Todos os remédios têm efeitos colaterais, mas eles são infinitamente menores do que o risco que as crianças correm se não se vacinarem.

    Jorge Kalil Filho O que o Brasil precisa é boa qualidade de educação e boa qualidade de informação. Como ação é preciso incentivar que se fale nas escolas sobre os benefícios das vacinas para crianças, para idosos, para pessoas de todas as idades.​​

    Além disso, o governo brasileiro precisa voltar a fazer campanhas de vacinação na mídia, sem entrar no mérito da discussão sobre as questões do movimento antivacina. É muito difícil você discutir diretamente com campanhas antivacinação, porque essas pessoas dizem que há um complô dentro da medicina para enganar a população. É muito difícil apresentar argumentos científicos para essas pessoas.

    De que forma a disseminação de desinformação sobre vacinas e o movimento antivacina influenciam esse quadro?

    José Martins Filho O movimento antivacina é perigosíssimo, é um movimento criminoso contra a população, contra as crianças do Brasil. Quem não se vacina, além de ficar desprotegido, também aumenta a chance de outras pessoas adquirirem a doença. Vacinar é um ato de coragem e de preocupação social, você ajuda a fazer um cerco contra a doença. ​​

    A desinformação existe, muitas pessoas só acreditam em bobagem, muitas pessoas não sabem o que é uma vacina, como ela funciona, o que as vacinas já fizeram pelo bem da humanidade. Elas diminuíram a presença da varíola, a poliomielite quase não existe mais no Brasil. As vacinas contra difteria, coqueluche, sarampo, rubéola, catapora, são fundamentais, são doenças que podem matar.

    Jorge Kalil Filho Quando nós começamos a vacinação, no século 19, muita gente já fazia campanha contra. Quando a vacinação se tornou obrigatória no Rio de Janeiro, muita gente foi contra.​​

    Todos os tipos de credos, de casos anedóticos que foram relatados, tudo isso contribui para que essas pessoas vejam a vacina dentro da teoria desse complô, da ideia de que os laboratórios criam situações para vender mais vacinas.

    É uma ignorância. E isso está crescendo no mundo inteiro, são dados alarmantes e preocupantes.

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