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Como a Disney lida com o conteúdo racista de suas obras antigas

Novo serviço de streaming disponibiliza produções lançadas ao longo dos 80 anos de história do estúdio, sem a edição de cenas consideradas preconceituosas e datadas

    O Disney+, aguardado serviço de streaming dos estúdios Disney, foi lançado nos Estados Unidos, Canadá e Holanda na terça-feira (12). Na plataforma, que reúne o amplo catálogo da empresa, algumas das produções mais antigas, como os filmes “Dumbo” (1941), “Mogli, o menino lobo” (1967) e os primeiros curtas do Mickey Mouse, exibem um aviso: “Esse programa é apresentado conforme foi originalmente criado. Ele pode conter representações culturais datadas”.

    A frase vem atender a uma preocupação de espectadores e críticos com relação à exibição não contextualizada de produções antigas, algumas delas fora de circulação há muito tempo, que apresentam conteúdo hoje visto como politicamente incorreto. A discussão se torna ainda mais relevante quando se considera que um dos grupos consumidores prioritários para a Disney são famílias com crianças.

    Além das obras sinalizadas como potencialmente problemáticas, o que abrange quase todo o material mais antigo do estúdio, algumas produções devem ficar de fora do catálogo.

    Com mais de 80 anos de história, a Disney produziu diversos filmes e programas de TV que contêm representações racistas e sexistas. Lançadas sobretudo na primeira metade do século 20, essas produções retratam a mentalidade vigente na época.

    Em outubro de 2019, o Disney+ anunciou em uma sequência de tuítes os títulos que estariam disponíveis a partir do lançamento. Ao contrário da Netflix, o conteúdo da plataforma não será rotativo, mas permanente. O serviço deve chegar ao Brasil em novembro de 2020.

    A questão no passado recente

    A solução de incluir um aviso não foi a primeira saída considerada pela empresa. Em abril de 2019, o site Hollywood Reporter publicou que uma cena de conotação racista do filme “Dumbo”seria cortada para que a animação fosse incluída no streaming, o que não aconteceu.

    Tampouco é a primeira vez que o estúdio se depara com essa questão. A coleção de DVDs “Walt Disney Treasures”, que foi lançada a partir de 2001 e reunia alguns dos primeiros lançamentos do estúdio, trazia uma introdução aos filmes feita pelo historiador e crítico Leonard Maltin, responsável por contextualizar as obras.

    “Alguns varreriam esses filmes para debaixo do tapete, fingindo que nunca existiram. Certamente não queremos que as crianças fiquem com uma ideia equivocada ao verem esses estereótipos [raciais]. Mas fãs e entusiastas da Disney devem poder assistir a esses filmes na íntegra, e pais preocupados podem usar essa oportunidade para falar sobre como as coisas eram no passado”

    Leonard Maltin

    Na apresentação da coleção de desenhos em preto e branco do Mickey Mouse

    Duas produções apontadas como problemáticas

    ‘A canção do sul’ (1946)

    O filme é um caso emblemático: por seu conteúdo racista, ficou de fora do catálogo do Disney+. Esse tratamento não é novidade: ao contrário de outros títulos, ele não é reexibido nos cinemas desde meados da década de 1980 e não foi lançado em VHS ou em DVD. Em 2011, o presidente da Walt Disney Company, Bob Iger, declarou que o filme é antiquado e ofensivo, e que por isso a empresa não tinha planos de disponibilizá-lo. Ambientado no sul dos Estados Unidos, no período posterior à Guerra de Secessão (1861-1865) e ao fim da escravidão, “Canção do sul” é criticado por apresentar uma visão idílica da vida de ex-escravos, como o protagonista Tio Remus. O personagem é um exemplar de um estereótipo frequente na história do cinema americano, o “magical negro”, negro sábio e místico, cujos conhecimentos são empregados para ajudar um personagem branco.

    ‘Dumbo’ (1941)

    Em uma das cenas do filme, os corvos cantam “When I See an Elephant Fly” em uma imitação dos “minstrel shows” (espetáculos de menestréis). Nesse tipo de apresentação musical, popular nos EUA entre o século 19 e o início do século 20, atores brancos pintavam o rosto de preto – prática conhecida como “blackface”, considerada racista – e interpretavam caricaturas de pessoas afro-americanas, exagerando seu sotaque e maneira de vestir, cantar e dançar. No filme, o líder do trio de corvos se chama Jim Crow (além de um sobrenome, “crow” significa corvo em inglês) nome de um personagem criado por esse tipo de atração que se tornou uma maneira de insultar homens negros. Numa outra sequência do filme, trabalhadores negros sem rosto cantam “Song of the Roustabouts”, uma música na qual dizem que são analfabetos e realizam longas jornadas de trabalho braçal, mas têm o espírito alegre.

    As reações ao tratamento

    Houve críticos e historiadores de cinema que se colocaram contra a supressão de filmes como “A canção do sul” pela plataforma.

    A historiadora Cari Beauchamp foi uma delas. Em entrevista ao jornal inglês The Guardian, ela defendeu que os filmes fossem mantidos, mas contextualizados. “A Disney adora ser elogiada pela diversidade de suas princesas, mas é preciso considerar toda sua história”, disse.

    Já Leonard Maltin, historiador que encabeçou a coleção “Walt Disney Treasures” nos anos 2000, disse ao New York Times que da forma como os conteúdos são exibidos no streaming, sem contexto, seria irresponsável incluir estas produções mais problemáticas. “Com certeza você não quer que elas estejam acessíveis para crianças”, disse.

    O aviso que acompanha as obras mais antigas disponíveis no Disney+ foi percebido como positivo por muitos, como um meio termo possível entre apagá-las da história e valorizá-las como artefatos importantes da trajetória da animação. Houve, porém, críticas quanto à formulação escolhida para o texto. Para alguns, a empresa poderia ter sido mais enfática, como a Warner Brothers, cuja advertência para esse tipo de conteúdo diz que representações preconceituosas “eram erradas na época e são erradas hoje”.

    No Brasil: o caso de Monteiro Lobato

    A discussão sobre os filmes mais antigos da Disney lembra os debates ocorridos no Brasil nos últimos anos em torno da obra infantil do escritor Monteiro Lobato (1882-1948). As questões foram reavivadas em 2019 com a entrada de suas obras em domínio público.

    Em 2010, o Conselho Nacional de Educação, órgão que integra o Ministério da Educação, emitiu um parecer contrário à distribuição do livro “Caçadas de Pedrinho” (1933), sem a contextualização adequada, em escolas públicas, devido ao seu teor racista, principalmente na caracterização da personagem Tia Anastácia.

    O parecer foi rejeitado pelo MEC, mas não se chegou a um consenso sobre a questão dentro do ministério. A decisão sobre o uso do livro ficou para o Supremo Tribunal Federal que, em 2014, rejeitou que fossem incluídas notas explicativas sobre o conteúdo racista da obra e que professores fossem capacitados para abordá-lo em aula.

    Em entrevista recente ao podcast do Nexo Como começar, em outubro de 2019, a escritora e antropóloga Heloisa Pires Lima destacou a importância da mediação ao apresentar a obra do autor em sala de aula.

    Ela lembra que a discussão se torna mais complexa por envolver uma relação afetiva de muitos leitores com o universo criado por Lobato – o que também é comparável aos filmes da Disney. Para ela, o foco do debate deve estar não na condenação ou absolvição do autor, mas nos leitores, sobretudo nos jovens leitores negros, e nos efeitos que essas obras têm sobre o imaginário coletivo no passado e no presente.

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