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A extrema direita em alta na Espanha. E seu tamanho na Europa

País deixou de ser um dos poucos na Europa a não ter representação relevante desse grupo político. Vox se tornou terceira força do legislativo

     

    Em eleições para o legislativo nacional no domingo (10), o partido de extrema direita espanhol Vox mais que dobrou seu número de cadeiras em relação às eleições anteriores, de abril, tornando-se a terceira maior força parlamentar no país (foi de 24 para 52).

    O Psoe (Partido Socialista dos Trabalhadores da Espanha), de esquerda, segue tendo o maior número de representantes, mas perdeu espaço (de 123 para 120 assentos). O Partido Popular, de direita, também manteve seu posto de segunda força parlamentar, mas com avanço (de 66 para 88).

    A velocidade da ascensão do partido nacionalista surpreende: o Vox foi criado em 2013, iniciou sua ascensão eleitoral em dezembro de 2018, em eleições locais, e agora se tornou a terceira força do parlamento espanhol.

    Em questão de meses, a Espanha deixou de ser uma das exceções do contexto europeu por não possuir, até em então, uma representação expressiva da direita radical no Parlamento.

    O Vox obteve 15% dos votos totais, proporção semelhante à obtida recentemente por partidos do mesmo espectro político em outros países europeus:

    • a legenda de extrema direita Alternativa para a Alemanha conquistou 12% do total dos votos válidos nas eleições legislativas alemães de 2017
    • a Reunião Nacional foi escolhida por 13% dos eleitores das eleições legislativas na França em 2017
    • o partido A Liga obteve 17% dos votos na eleição nacional para o parlamento da Itália em 2018
    • o Partido da Liberdade da Áustria, ou FPO, alcançou 16% dos votos em 2019.

    Apesar de ter conexões com o populismo de direita em ascensão no continente e no mundo, o resultado da eleição espanhola também possui elementos nacionais.

    Em entrevista à BBC, o cientista político Joan Botella, da Universidade de Barcelona, apontou o acirramento dos protestos de grupos separatistas da região da Catalunha como um fator chave para o crescimento do Vox, que promete contê-los energicamente.

    A Espanha é uma monarquia parlamentarista, na qual o partido mais votado dificilmente governa sozinho, precisando formar coalizões com partidos menores.

    A eleição parlamentar de novembro de 2019 foi a quarta do país em quatro anos e a segunda em sete meses. Com o resultado, o líder Psoe novamente não atingiu um número suficiente de votos para formar maioria. Ele descartou na segunda-feira (11) uma coalizão com o segundo colocado, o Partido Popular.

    Na terça-feira (12), o Psoe e a coalizão de esquerda Unidos Podemos (UP) chegaram a um acordo para a formação de governo (a UP ficou em quarto lugar, com 35. Junto com as 120 cadeiras do Psoe, chega-se a 350 assentos). Ainda assim, ficam faltando 16 cadeiras para que tenham maioria, que estão sendo buscadas em outros partidos de esquerda.

    O que o Vox defende

    O Vox possui uma agenda baseada em propostas economicamente liberais e moralmente conservadoras, com discurso de campanha anti-imigrantes (em particular muçulmanos), antifeminista e nacionalista, defensor de uma visão de uma identidade espanhola unificada, a partir de um passado idealizado e grandioso.

    Ele é o primeiro partido desde a ditadura do general Francisco Franco, que governou de 1936 a 1975, a se associar diretamente ao franquismo, resgatando princípios como o anticomunismo e a defesa da unidade nacional. 

    Membros do Vox tiveram contato com americano Steve Bannon, que foi estrategista da campanha de Donald Trump nos EUA e busca coligar movimentos de extrema direita populista em todo o mundo, em especial na Europa, mas com conexões também no Brasil, por meio do presidente Jair Bolsonaro.

    O cenário no continente

    Nas eleições para o Parlamento Europeu realizadas em maio de 2019, o grupo de extrema direita Identidade e Democracia conseguiu dobrar sua participação, passando de 36 para 73 representantes, vindos de 9 países europeus: Itália, França, Alemanha, Finlândia, Estônia, Dinamarca, República Tcheca, Bélgica e Áustria. Com isso, tornou-se o quinto maior grupo a integrar a instituição.

    Os 751 membros do parlamento transnacional são eleitos pelo voto direto de cerca de 200 milhões de eleitores dos 28 países-membros da União Europeia. A eleição de 2019 foi observada como um termômetro para medir, de uma só vez e em todo o continente, a força que os partidos de extrema direita já vinham demonstrando nas eleições nacionais em anos recentes.

    Num levantamento da BBC publicado em maio, as eleições nacionais europeias já registravam 17 países com porcentagens de votos dados à extrema direita que iam de 4% (Chipre) a 70% (Hungria), segundo um levantamento feito pela BBC.

    Entre os feitos da extrema direita no continente ao longo da última década estão ter chegado ao poder em 2010 na Hungria, com o partido Fidesz; em 2015, na Polônia, com o Lei e Justiça; em 2017, na Áustria, com o FPO; e em 2018, na Itália, com a Liga.

    Além disso, em 2017, partidos de extrema direita conseguiram disputar o segundo turno de uma eleição presidencial na França, com a Reunião Nacional, e entrar pela primeira vez no pós-Guerra no Bundestag, o Parlamento Alemão, com a AfD (Alternativa para a Alemanha).

    O crescimento do Vox na Espanha, a nível nacional, assim como uma vitória regional da Liga na Itália, ocorrida no final de outubro, demonstram que a onda populista continua relevante.

    Mesmo com algumas derrotas simbólicas recentes, como a saída do ex-primeiro-ministro Matteo Salvini, líder da Liga, da coalizão que governava a Itália, e o revés de um candidato do partido do premiê húngaro Viktor Orbán, de extrema direita, para a prefeitura de Budapeste, a tendência geral ainda é de fortalecimento dessa onda, segundo disse ao Nexo em outubro de 2019 o pesquisador Cristóbal Rovira Kaltwasser. “Não vejo nenhum sinal claro de esgotamento”.

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