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Por que a Otan desagrada franceses, americanos e russos

Críticas de Emmanuel Macron são mais um desdobramento das contestações à aliança militar, renegada por Trump e que sofre com o desalinhamento entre seus membros

     

    O presidente da França, Emmanuel Macron, disse em entrevista publicada na quinta-feira (7) pela revista britânica “The Economist” que a Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) está em um estado de “morte cerebral”.

    A Otan é a mais importante aliança de cooperação militar criada após a Segunda Guerra Mundial, em 1949. Ela é formada por um grupo de 29 países, que inclui todas as grandes potências europeias e os EUA.

    A declaração, dada um mês antes da próxima reunião de cúpula da Otan, a ser realizada em Londres, provocou reações de desaprovação na Europa. No mesmo dia, em Berlim, a chanceler alemã, Angela Merkel, classificou a fala do presidente francês como “intempestiva” e “desnecessária”.

    O choque de visões ocorre no momento em que as tensões geopolíticas com a Rússia reavivam temores dos tempos da Guerra Fria – período compreendido entre os anos 1945 e 1991 em que o bloco soviético disputada a hegemonia mundial com os EUA por meio de uma corrida armamentista nuclear. Foi em grande medida para fazer frente ao poder soviético que a Otan foi criada.

    Em Moscou, a diplomata russa Maria Zakharova, diretora do Departamento de Comunicação e Imprensa do Ministério das Relações Exteriores, disse que as palavras de Macron são “ouro”, pois “definem com precisão o estado atual da Otan”.

    Além do presidente francês, também o presidente dos EUA, Donald Trump, faz duras críticas ao grupo há pelo menos dois anos, desde que começou sua vitoriosa campanha à Casa Branca. A principal contrariedade de Trump é com o fato de a maioria dos países europeus não investirem o combinado – 2% do PIB (Produto Internacional Bruto) em defesa – o que, diz o republicano, viola os termos de formação do grupo e sobrecarrega os EUA.

    Em 2017, pouco antes de assumir a Casa Branca, Trump chegou a dizer que a Otan havia se tornado uma organização “obsoleta” no mundo atual.

    Quais os pontos de Macron

    O presidente francês diz na entrevista que “não há nenhuma coordenação nas decisões estratégicas dos EUA com seus parceiros” europeus, o que evidencia a falta de clareza sobre quais são, afinal, os objetivos da organização hoje.

    Ele cita como exemplo o conflito na Síria, onde membros da Otan chocam-se ao defender interesses conflitantes num mesmo contexto. Por exemplo: o fato de a Turquia, que é membro da aliança, ter atacado forças curdas, alinhadas aos EUA e dos demais membros da Otan, na Síria, no mês de outubro.

    O combate ao grupo terrorista Estado Islâmico na Síria é um tema de interesse vital para a França. Qualquer ação militar que enfraqueça os curdos – povo cujas forças estão na linha de frente do combate aos extremistas islâmicos – é também uma forma de atacar os interesses estratégicos franceses na região.

    Ao retirar suas tropas da fronteira entre a Síria e a Turquia, no início de outubro, Trump abriu caminho para que a Turquia avançasse contra os curdos, tidos como uma ameaça pelos turcos por causa de suas reivindicações por maior autonomia na região.

    Macron considera que falta debate sobre as visões estratégicas conflitantes em um contexto que envolve um emaranhado complexo de interesses desencontrados.

    Na entrevista, ele também colocou em questão o artigo 5º do documento que rege a Otan. Segundo esse artigo, qualquer ataque a um dos membros da organização deve ser respondido solidariamente por todos os demais. “O que significará o artigo 5º amanhã? Se o regime de Bashar al-Assad [da Síria] decidir adotar represálias contra a Turquia, vamos nos comprometer com eles? É uma pergunta crucial”, afirmou o presidente francês.

    Leitura geopolítica maior

    Além da aliança militar, Macron também discorreu na entrevista sobre sua visão a respeito do momento que a Europa atravessa. O líder francês criticou a decisão britânica de retirar-se da União Europeia, o chamado Brexit, e disse temer que os movimentos nacionalistas ameacem a unidade obtida pela região após a Segunda Guerra (1945).

    Macron vê na emergência da China uma clara ameaça aos países europeus, e considera que não há possibilidade de reação efetiva que não passe pelo reforço dos laços comuns no continente.

    “A Europa se esqueceu que é uma comunidade”, disse. Para ele, a partir dos anos 1990, o pensamento gregário no continente foi ofuscado por preocupações de ordem meramente econômica – como a adoção e a expansão do Mercado Comum e da moeda única, o euro –, e agora a região pena a manter de pé uma comunidade cujo significado seria muito maior do que meramente monetário.

    As ameaças identificadas pelo presidente francês se encontram até mesmo no antigo e mais poderoso aliado, os EUA. “Pela primeira vez, temos um presidente americano [Trump] que não compartilha das ideias de um projeto europeu, e a política americana está desalinhada com esse projeto”, disse.

    João Paulo Charleaux é repórter especial do Nexo e escreve de Paris

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