Ir direto ao conteúdo

A história do Castelo Rá-tim-bum. E por que seu sucesso perdura

Programa infantil da TV Cultura estreou em 1994 e ainda conquista fãs. O ‘Nexo’ conversou com o jornalista Bruno Capelas, autor de livro que remonta a trajetória da produção e avalia o seu legado

Temas

Quem passasse pela Avenida Europa, uma das principais vias do bairro do Jardins, em São Paulo, entre os meses de julho de 2014 e janeiro de 2015 se depararia com uma grande fila, que se chegava a dar a volta em quarteirões.

A espera não era para alguma uma casa de shows ou para ver celebridades, mas sim para visitar o MIS (Museu da Imagem e do Som). Entre esses meses, o espaço recebeu uma exposição focada nos bastidores do programa infantil “Castelo Rá-tim-bum”, exibido originalmente duas décadas antes — entre 1994 e 1997 — pela TV Cultura. Ao todo, mais de 400 mil pessoas visitaram a exposição, fazendo com que o MIS se tornasse o museu mais visitado da cidade em 2014.

 

A trajetória de “Castelo Rá-tim-bum” é contada em “Raios e trovões”, livro publicado em novembro de 2019 pela editora Summus, assinado pelo jornalista Bruno Capelas. Nele, o autor traça uma cronologia dos bastidores do programa, entrevista figuras ligadas à produção e demonstra o impacto que o programa teve para a cultura pop nacional.

A origem do programa

O “Castelo Rá-tim-bum” teve sua origem em 1990, quando a TV Cultura produziu o programa infantil “Rá-tim-bum”. Seus quadros mais famosos eram as aulas de conhecimentos gerais com o professor Tibúrcio, interpretado por Marcelo Tas, e as histórias apresentadas no quadro “Senta que lá vem história”. Nomes importantes do audiovisual brasileiro passaram pelo programa, como o roteirista Flávio de Souza, o animador Flávio Del Carlo e os cineastas Fernando Meirelles e Paulo Morelli.

“Rá-tim-bum” foi um sucesso para a TV Cultura, tanto de audiência, como de crítica: o programa venceu, em 1995, o prêmio de Melhor Programa Infantil no Festival de Televisão de Nova York.

Dois anos depois da estreia, a TV Cultura decidiu produzir uma nova versão do programa. A empreitada ficou na mão de Flávio de Souza e do diretor Cao Hamburger, indicado para o programa por Fernando Meirelles.

Quando começaram a criar os conceitos para o programa, Hamburger e Souza tiveram tantas ideias que perceberam que o “Rá-tim-bum 2” seria uma empreitada nova e original.

Inicialmente batizado de “Mundo encantado”, o programa traria três crianças que usavam portais mágicos para viajar pelo mundo, com cada episódio mostrando o trio em um lugar diferente. A ideia foi apresentada à TV Cultura, que não aprovou a iniciativa pelo custo de produção, alto demais o canal.

Souza e Hamburger acharam uma solução: ambientar todas as aventuras em um único local. A primeira ideia, sugerida pela Cultura, era limitar os episódios a um ambiente escolar, com os alunos sendo interpretados por bonecos de espuma. Cao Hamburger não gostou da ideia. “Eu não queria fazer a ‘Escolinha do professor Raimundo’ com bonecos”, afirmou o cineasta em entrevista ao livro “Raios e trovões”.

Em um estalo, Hamburger teve a ideia de trazer alguns conceitos de “Mundo encantado” para dentro de um castelo mágico, cujo dono era um cientista chamado Dr. Victor, em referência ao Dr. Victor Frankenstein, do romance “Frankenstein”, de Mary Shelley. O título provisório dado ao projeto foi “Castelo encantado”.

Roberto Muylaert, à época presidente da Fundação Padre Anchieta, entidade que administra a TV Cultura, buscou a Fiesp, (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), em busca de patrocínio para a nova produção. Os executivos da entidade toparam investir, mas com uma condição: o título do programa precisava conter a palavra “Rá-tim-bum”. Assim surgiu o nome “Castelo Rá-tim-bum”.

No meio do processo, Flávio de Souza saiu do projeto, assinando contrato com o SBT. Entrou na jogada Anna Muylaert, roteirista e filha do presidente da Fundação Padre Anchieta.

Meses antes do começo das filmagens o elenco principal foi escalado:

  • Cássio Scapin, ator conhecido dos palcos paulistanos foi escalado para viver o protagonista do “programa”: o aprendiz de feiticeiro Nino, uma criança de 300 anos de idade que morava no castelo com seus tios
  • Luciano Amaral, ator que já tinha feito sucesso na Cultura com o programa “Mundo da lua interpretava Pedro, um dos amigos de Nino que visitava o castelo diariamente
  • Cinthya Rachel, atriz conhecida pela peça “A fuga do planeta Kiltran” foi escalada para viver Biba, amiga de Nino e visita diária no castelo
  • Fredy Allan, ator que contracenou com Rachel e Amaral em “A fuga do planeta Kiltran”, vivia Zequinha, o mais novo do trio de amigos de Nino
  • Sérgio Mamberti, ator que já tinha uma carreira consagrada nos palcos e na política como um dos fundadores do PT foi escalado para viver o Dr. Victor, tio de Nino, feiticeiro, inventor e um dos donos do castelo
  • Rosi Campos, atriz com carreira consagrada no cinema e na TV interpretava Morgana, tia-avó de Nino e uma feiticeira prestes a completar 6.000 anos de idade.

Além dos cinco atores principais, o “Castelo Rá-tim-bum” contava com a participação de personagens convidados, como o Dr. Abobrinha, vilão interpretado por Pascoal da Conceição, um especulador imobiliário que queria derrubar o castelo para construir um shopping center; e o extraterrestre Etevaldo (Wagner Bello), que ocasionalmente visitava Nino e seus amigos.

Criaturas mágicas também habitavam o castelo, sendo representadas em tela por bonecos de espuma — era o caso de Celeste, uma cobra cor-de-rosa que morava dentro de uma árvore no meio do castelo; e o Gato Pintado, um felino leitor que vivia na biblioteca do Dr. Victor.

Foto: Divulgação/TV Cultura
O Gato Pintado e a cobra Celeste, dois dos bonecos presentes na trama do "Castelo"
O Gato Pintado e a cobra Celeste, dois dos bonecos presentes na trama do "Castelo"
 

O próprio castelo era um personagem. Com um visual inspirado nas construções projetadas pelo arquiteto espanhol Antoni Gaudí (1852-1926), o cenário trazia uma série de traquitanas e objetos de cena, que eram uma ponte para introduzir na trama principal os quadros educativos — como o famoso “Que som é esse?”, no qual o programa apresentava instrumentos musicais para as crianças.

As filmagens do “Castelo” começaram em maio de 1993, e se estenderam até o começo de 1994. Ao todo, 90 episódios e um especial foram gravados.

O sucesso e a chegada em outras mídias

“Castelo Rá-tim-bum” foi um sucesso de crítica. O programa venceu o prêmio de Melhor Programa Infantil no prêmio da Associação Paulista de Críticos de Artes, um dos mais importantes do país, e recebeu a medalha de prata na mesma categoria no Festival de Televisão de Nova York.

Em termos de audiência, “Castelo” também fez sucesso. Na época de sua exibição original, o programa conseguiu uma média de 12 pontos na escala do Ibope, atingindo por volta de 840 mil domicílios diariamente somente na região da Grande São Paulo.

O programa voltou a ser reprisado pela Cultura em 2014, na ocasião dos 20 anos de seu lançamento. As exibições aumentaram a audiência noturna da emissora em 67%. No YouTube, plataforma que a Cultura escolheu para disponibilizar os episódios online, o programa já tem mais de 47 milhões de visualizações.

Além do sucesso na TV, “Castelo rá-tim-bum” foi sucesso em outras mídias. No livro “Raios e trovões”, Capelas narra um episódio no qual filas gigantescas se formaram na avenida Brigadeiro Faria Lima, em São Paulo, para o lançamento de uma série de livros inspirados pelo programa, publicados pela Companhia das Letras.

Na ocasião, a editora esperava que o evento durasse apenas algumas horas durante a manhã. Porém, a demanda foi tão grande que a fila se estendeu até às 19 horas. Em entrevista ao livro de Bruno Capelas, Lilia Schwarcz, da Companhia das Letras, comparou o lançamento dos livros com a Beatlemania dos anos 1960.

“Castelo Rá-tim-bum” também chegou aos palcos: em 1997, os quatro atores que interpretavam as crianças no programa participaram do espetáculo teatral “Onde está o Nino?”, que fazia apresentações diárias no teatro da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Em 2017, um musical inspirado no programa estreou em São Paulo, trazendo uma história original. No mesmo ano, Scapin voltou a encarnar o papel de Nino no monólogo “Admirável Nino novo”, que mostrava o aprendiz de feiticeiro em uma nova aventura.

O programa também foi parar nas telonas, em 1999, com “Castelo Rá-tim-bum: o filme”, dirigido por Hamburger. O longa trazia uma proposta diferente da versão televisiva, com apenas três atores da formação original –  Sérgio Mamberti, Rosi Campos e Pascoal da Conceição –  e um tom sombrio, próximo da estética dos filmes do cineasta americano Tim Burton.

Foto: Divulgação/Columbia Pictures
Morgana (Rosi Campos), Nino (Diegho Kozievitch) e Dr. Victor (Sérgio Mamberti) na versão cinematográfica do "Castelo"
Morgana (Rosi Campos), Nino (Diegho Kozievitch) e Dr. Victor (Sérgio Mamberti) na versão cinematográfica do "Castelo"
 

O longa foi um sucesso de público e de crítica, e havia planos para continuações. Em entrevista ao livro “Raios e trovões”, Hamburger afirmou que essas ideias só não foram para frente por causa do surgimento e da popularização de um outro bruxinho querido pelas crianças — o britânico “Harry Potter”, criado pela autora J.K. Rowling.

O impacto do ‘Castelo’

Para avaliar a importância de “Castelo Rá-tim-bum”, o Nexo entrevistou o jornalista Bruno Capelas, autor de “Raios e trovões”.

Qual foi a importância de “Castelo Rá-tim-bum” para a TV Cultura na época da estreia?

Bruno Capelas  Naquela época, todo programa que a Cultura estreava era o programa mais importante para eles. Tivemos uma escadinha, de três degraus, o "Rá-tim-bum", em 1990, o "Mundo da lua", em 1991, e o "Castelo Rá-tim-bum" em 1994. Cada um deles trouxe um novo nível de sofisticação de produção.

O "Rá-tim-bum" era um programa de quadros, o "Mundo da lua" era um programa de ficção, e o "Castelo" misturava os quadros e a ficção. Acho que o "Castelo" mostra uma maturidade no próprio formato e também na maneira que as coisas eram feitas. Se você olhar a ficha técnica do "Castelo", você vai ver que muitos dos profissionais envolvidos aprenderam a fazer TV infantil na Cultura nos anos anteriores. A Cultura aprendeu a fazer programas infantis nos anos 80 e na primeira metade dos anos 90, e o "Castelo" é o ápice de tudo isso.

O programa ainda tem audiência significativa na TV e na internet, e atrai pessoas de diferentes gerações. Por que o sucesso de “Castelo Rá-tim-bum” persiste mais de duas décadas depois da estreia?

Bruno Capelas  Acho que isso tem vários fatores, começando pela nostalgia. Tem gente que foi na exposição, que assiste no YouTube e que foi no musical por causa de uma lógica de “eu era criança, gostava disso, e continuo assistindo isso porque é algo que faz parte da minha história”.

Outro fator é que o programa tratava a criança, e qualquer espectador, com respeito e com inteligência. Era um programa educativo, e esse componente educativo era baseado no construtivismo do Jean Piaget, que é a ideia de que você pode ensinar qualquer coisa para uma criança, desde que você traga isso para o universo dela. Você pode falar de Leonardo da Vinci, das poesias de Manuel Bandeira, de física e de matemática avançada se você trouxer isso para o universo da criança, e o programa tinha essa visão.

Além disso, o "Castelo Rá-tim-bum" tem várias linguagens, tem boneco, ficção, música, artes plásticas, poesia. É um programa que, com muitos recursos, mudava toda hora. Isso, mesmo com os 25 anos que nos separam da estreia, não deixa o programa velho. É claro que alguns conteúdos não fazem mais sentido hoje, mas a linguagem ainda é muito atual.

O que está bombando hoje na internet são os vídeos curtos, os aplicativos como o Tik-tok, o Snapchat, o Stories do Instagram. O que era o "Rá-tim-bum"? Eram quadros de 30, 40 segundos. O "Castelo" também tinha quadros que tinham 40, 45 segundos. Isso mantém a linguagem atual.

Muito da cultura pop contemporânea se baseia em produções transmídia, franquias e novas versões de produtos consagrados. Por que o “Castelo Rá-tim-bum” não entrou nessa tendência?

Bruno Capelas Em partes isso envolve questões legais da produção do "Castelo". Outros dizem respeito à situação financeira da TV Cultura, e também tem uma questão criativa dos autores envolvidos.

Logo depois que o programa estreou, a gestão da Cultura mudou. O "Castelo" estreou em maio de 1994. Em dezembro, o Roberto Muylaert se afastou da presidência da Fundação Padre Anchieta para ajudar o governo do Fernando Henrique Cardoso. Essa mudança fez com que a Cultura perdesse um pouco do poder de produção.

Os direitos do programa são da Cultura, e a emissora cedeu esses direitos em algumas oportunidades, como a permissão para que o Cao Hamburger fizesse o filme e a permissão para a produção das peças de teatro. Se algo novo for produzido, ele tem que ser feito pela Cultura, que não tem muitos recursos, ou partir do interesse de alguma outra iniciativa.

Quanto ao interesse dos autores em fazer mais projetos com o "Castelo", eu acho que o Cao responde isso bem no livro: ele diz que a própria história da produção do programa mostra que é mais legal investir em coisas novas. O "Castelo" seria só um "Rá-tim-bum 2", uma continuação com mais quadros, mas ele e o Flávio de Souza começaram a ter ideias juntos e criaram uma coisa tão diferente que foi necessário criar um programa novo.

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa Equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project. Saiba mais.

Mais recentes

Você ainda tem 2 conteúdos grátis neste mês.

Informação com clareza, equilíbrio e qualidade.
Apoie o jornalismo independente. Junte-se ao Nexo!