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3 eixos do discurso de Lula solto. E as reações de adversários

Em Curitiba e São Bernardo do Campo, ex-presidente mesclou ataques a Bolsonaro, Moro, Guedes e a Globo com promessas de pacificação. O 'Nexo' resumiu as principais falas públicas do petista desde que ele deixou a prisão

     

    Nas primeiras 24 horas depois de deixar a cadeia, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez dois discursos a apoiadores. Um na sexta-feira (8) em Curitiba, ao ser liberado, outro no sábado (9) em São Bernardo do Campo, cidade da região metropolitana que é seu berço político.

    O petista também gravou vídeos curtos para as suas redes sociais, além de um mais extenso, reproduzido na abertura do encontro do Grupo de Puebla, que reúne líderes da esquerda latino-americana em Buenos Aires no fim de semana.

    O evento em São Bernardo do Campo reuniu milhares de pessoas em frente ao Sindicato dos Metalúrgicos do ABC. Bem ao seu lado, no caminhão de som, estava Fernando Haddad, ex-prefeito de São Paulo e candidato do PT derrotado por Jair Bolsonaro em 2018.

    Seu entorno também tinha Gleisi Hoffmann, deputada presidente do PT, e duas figuras proeminentes do PSOL: Guilherme Boulos, líder do movimento dos sem-teto que já disputou o Planalto, e Marcelo Freixo, deputado. 

    Abaixo, o Nexo resume os principais pontos das falas públicas de Lula desde que deixou de cumprir sua pena pelos crimes de corrupção e lavagem de dinheiro no caso tríplex.

    Os ataques a Bolsonaro, à Globo e à Lava Jato

    Assim como havia feito em Curitiba, Lula atacou a Rede Globo neste sábado (9), além de integrantes da Operação Lava Jato, que julga terem se mancomunado para prendê-lo. Algo que já tinha feito na saída da prisão no dia anterior. 

    O ex-presidente abriu o discurso em São Bernardo do Campo com a seguinte frase: “Lá em cima tá o helicóptero da Rede Globo de Televisão, para falar merda sobre o Lula”. 

    O petista então mirou Sergio Moro, ex-juiz que o condenou no caso tríplex e depois virou ministro da Justiça de Bolsonaro: “Eu poderia ter ido para alguma embaixada, para outro país, mas tomei a decisão de ir para lá [a carceragem da Superintendência Federal da Polícia Federal em Curitiba], eu precisava provar que o juiz Moro não era um juiz, era um canalha que estava me julgando.” 

    Responsável por decisões da Lava Jato entre 2014 e 2018, Moro está no centro de diálogos que vêm sendo revelados pelo site The Intercept Brasil desde junho de 2019. Conversas mantidas via Telegram envolvendo o então magistrado puseram em xeque sua imparcialidade, ao mostrá-lo combinando táticas e movimentos jurídicos, alguns expressamente relacionados a Lula.

    O ex-presidente depois atacou o procurador Deltan Dallagnol, chefe da força-tarefa da operação. “Eu precisava provar que o Dallagnol não representa o Ministério Público, que é uma instituição séria. Ele montou uma quadrilha com a força-tarefa da Lava Jato para roubar dinheiro da Petrobras e das empreiteiras”, disse o ex-presidente, referindo-se ao plano de Dallagnol de criar um fundo privado com dinheiro de um acordo entre a Petrobras e o Departamento de Justiça Americano.

    Em Curitiba, Lula já tinha atacado Bolsonaro. Em São Bernardo do Campo, voltou a mirar o presidente, desta vez fazendo referência a ligações familiares do capitão reformado com milicianos do Rio.

    “Tem gente que fala em impeachment. Veja, esse cidadão foi eleito, democraticamente nós aceitamos o resultado da eleição, ele tem mandato de quatro anos. Mas ele foi eleito para governar para o povo brasileiro, e não para os milicianos do Rio de Janeiro”

    Luiz Inácio Lula da Silva

    Ex-presidente da República, em discurso em São Bernardo do Campo (SP) neste sábado (9)

     

    Lula fez referências à citação do nome de Bolsonaro nas investigações do caso Marielle Franco, vereadora assassinada em março de 2018. E falou de Fabrício Queiroz, ex-assessor do senador Flávio Bolsonaro, primogênito do presidente. Queiroz é suspeito de operar um esquema de “rachadinhas” de salários de funcionários da Assembleia do Rio quando Flávio era deputado estadual.

    Críticas ao modelo econômico

    Lula dedicou boa parte de seu discurso em São Bernardo a aspectos econômicos. Criticou o ministro da Economia, Paulo Guedes, a quem chamou de “demolidor de sonhos, destruidor de empregos e de empresas públicas”. “Querem destruir a Petrobras, o Banco do Brasil, o BNDES e a Caixa Econômica Federal”, afirmou. 

    Além de críticas às privatizações e à situação do trabalho no Brasil, Lula relacionou os protestos no Chile à reforma da Previdência aprovada no Congresso brasileiro em outubro. 

    “A gente está vendo o que está acontecendo no Chile. O Chile é o país que o Guedes quer construir. A aposentadoria que tem aqui é a que tem no Chile. Ele está fazendo com que pessoas velhas morram porque não tem salário”, afirmou o ex-presidente. 

    O modelo de capitalização de aposentadoria adotado no Chile e defendido por Guedes, porém, não foi aprovado no texto final pelo Congresso brasileiro.  

    Lula anunciou que a plataforma do projeto econômico que pretende encampar agora que está fora da prisão é a mesma dos seus governos (2003-2010): a inclusão social pelo consumo.

    “Vou lutar para tentar recuperar o orgulho da gente ser brasileiro, para que as mulheres comprem comida no supermercado pros seus filhos, para que o trabalhador possa ter emprego com carteira assinada, para que o trabalhador possa ter o direito de ir ao cinema, ao teatro, de ter um carro, uma TV, um computador, um celular, de ir ao restaurante e de poder reunir a família todo fim de semana, fazer um puta dum churrasco e tomar uma puta duma cervejinha gelada que é o que deixa a gente feliz”

    Luiz Inácio Lula da Silva

    Ex-presidente da República, em discurso em São Bernardo do Campo (SP) neste sábado (9)

    O ex-presidente deu a entender que o projeto econômico vigente no país estaria favorecendo apenas grupos privilegiados, como os bancos. Para tanto, contrapôs a queda da Selic, a taxa básica de juros da economia brasileira, ao preço dos serviços bancários. 

    “Eu quero saber se os juros do cartão de crédito de vocês caíram. Se o juro do cheque especial caiu. Se o juro das Casas Bahia caiu. É esse juro que toca diretamente no bolso do trabalhador, que mexe com o salário do nosso povo. A taxa Selic caiu mas o spread bancário não caiu”, disse. 

    Sem citar nomes, criticou os chamados movimentos de renovação da política associados a grandes empresários. “Estão tentando investir no Brasil para criar uma nova classe dirigente, financiada pelo dono da AmBev, pela XP, pelo Itaú, pelo Bradesco e pelo Santander. Nós não temos nada contra essa gente, mas nós queremos é gente formada no meio do povo brasileiro. Que veja como mora o pessoal numa palafita, numa favela, nos bairros mais empobrecidos desse país.”

    Entre ataques e promessas de pacificação

     

    Em suas falas públicas, Lula mesclou ataques a Bolsonaro, a Guedes, a Moro, à Lava Jato e à Rede Globo, a promessas de adoção de um tom mais pacificador. “Eu li muito essa pergunta: será que o Lula vai sair com ódio de lá? Mais radicalizado de lá? Será que vai querer vingança? Não quero nada. Eu quero é construir esse país com a mesma alegria que nós construímos quando nós governamos esse país”.

     

     

    Lula afirmou que vai começar a trabalhar já, com viagens pelo país, para buscar a vitória da esquerda da eleição presidencial de 2022 - atualmente ele está inelegível pela Lei da Ficha Limpa e só poderá concorrer se o caso tríplex for anulado pelo Supremo.

     

    Assim como no vídeo exibido no encontro do Grupo de Puebla, defendeu um alinhamento com os governos de esquerda do continente, pediu “solidariedade ao povo da Venezuela”, acusou os opositores de Evo Morales, na Bolívia, de querer dar um golpe, e falou para Donald Trump, presidente dos EUA, não “encher o saco dos latino-americanos”.

     

    As reações à saída de Lula da prisão

     

    Bolsonaro se manifestou logo depois do pronunciamento de Lula ao deixar a prisão em Curitiba, na sexta-feira (8). Na porta do Planalto, disse que não iria iria “contemporizar com presidiário” que, embora solto, “está com todos os crimes dele nas costas”. 

     

    Nas redes sociais, o presidente aproveitou para pregar uma união no campo da direita, cuja fragmentação teve como ápice a crise do presidente com o próprio partido, o PSL.

    “Nós, pessoas de bem e amantes da liberdade, somos a maioria. Na busca da paz e prosperidade não podemos cometer erros. Sem um norte e um comando, mesmo a melhor tropa, se torna num bando que atira para todos os lados, inclusive nos amigos. Iniciamos a poucos meses essa nova fase. Não dê munição ao canalha, que momentaneamente está livre, mas carregado de culpa”

     

    Jair Bolsonaro

    Presidente da República, em mensagem nas redes sociais publicada no sábado (9)

    Depois do discurso de Lula em São Bernardo do Campo, Bolsonaro limitou-se a reiterar, novamente nas redes sociais, o que havia dito antes. “Continua com os crimes nas costas”, escreveu, nas redes sociais. 

     

    Moro escreveu o seguinte no Twitter: “Aos que me pedem respostas a ofensas, esclareço: não respondo a criminosos, presos ou soltos. Algumas pessoas só merecem ser ignoradas.”

     

     

    O movimento Vem pra Rua realizou protestos em São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Recife, Porto Alegre, Curitiba e Brasília neste sábado (8). 

     

    O mote foi o apoio a propostas legislativas que estabelecem que um preso precisa começar a cumprir pena após a condenação em segunda instância. Esse era o entendimento que o Supremo Tribunal Federal vinha adotando desde 2016, mas que mudou na terça-feira (7).

    Foi a decisão do tribunal, de quem alguém só pode cumprir pena quando um processo for definitivamente encerrado, que abriu espaço para a soltura de Lula, depois de um ano e sete meses cumprindo pena. Como o ex-presidente ainda tem recursos a serem analisados, ele pôde sair.  

    Os governadores de São Paulo, João Doria (PSDB), e de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), expressaram apoio à pauta dos manifestantes. Em Brasília e no Rio, os protestos foram esvaziados.

    Em São Paulo, o número de participantes foi um pouco maior, mas muito distante dos atos que deram projeção ao Vem Pra Rua e outros movimentos políticos durante o impeachment de Dilma Rousseff em 2016.

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